A convivência com a seca nas cidades do semiárido mineiro é uma realidade que tem sido cada vez mais foco de atenção. A busca por alternativas para que o produtor rural siga trabalhando, envolvem, por exemplo, a identificação de novas espécies de forrageiras para manter a alimentação animal em dia, entre eles o uso da palma, rica em carboidratos não fibrosos, ingrediente fundamental na formulação e balanceamento de dietas para ruminantes.

Doação das raquetes visa incentivar plantio da cactácea na região (Divulgação)

“É uma alternativa de redução de custos, especialmente nesta época do ano, com clima seco, onde a produção de outros alimentos, como o milho, está em baixa. Essa cactácea tem grande capacidade de fornecer energia ao animal e seu uso estratégico tem trazido bons resultados para a pecuária no semiárido. A palma ainda é negligenciada por uma questão cultural da região, que ficou associada a propriedades pobres. É preciso quebrar este paradigma, mostrar sua riqueza para a produção rural”, pontua o técnico de campo William Primo, do Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), do Sistema Faemg Senar.

Muito comum em regiões semiáridas do Nordeste brasileiro, a cultura tem ganhado adeptos no Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha, tornando um ingrediente essencial na composição de dietas dos animais, contribuindo diretamente para o desenvolvimento rural das regiões com baixos índices de chuva.

Na propriedade do produtor de leite Uelton Moreira Cangussu, em Janaúba, a palma é usada nas épocas mais críticas de falta de chuva há quase 10 anos. A estratégia alimentar chegou no momento em que a crise hídrica estava no ápice e ele corria o risco de perder seus animais e nunca mais saiu da rotina.

“Todos deveriam ter uma área de palma. Se jogar a palma embaixo da silagem, as vacas que já estão acostumadas a comer fuçam para pegar somente a cactácea, que é palatável para os animais e muito rica. Desde que passei a usar a palma noto que ajuda demais na energia dos animais, as vacas aumentam a produção de leite e eu consigo reduzir o uso de concentrado, o que torna mais barato atuar na atividade”, opina.

Resiliência
Em busca deste maior incentivo à cultura da palma, no início deste mês cerca de 19 mil raquetes da cactácea foram entregues a produtores da região de Espinosa, uma das regiões que mais sofre os impactos da seca, doadas pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig). As palmas doadas são geneticamente melhoradas e adaptadas ao semiárido, resistentes a pragas comuns, como a cochonilha. Foram entregues três espécies diferentes: palma miúda, palma orelha de elefante e palma sertânia.

Mais de 30 produtores foram beneficiados pela ação, que envolveu ainda o Sindicato dos Produtores Rurais de Espinosa, o Sistema Faemg Senar, através do Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG), na região de abrangência do Programa Agronordeste, e Emater. “Essa ação conjunta foi construída visando o bem do produtor. Recrutamos produtores que tinham interesse em conhecer mais a cultura da palma e necessidade dessa opção de forrageira. A palma é uma alternativa para todos nós, especialmente neste período de seca”, destaca o presidente do sindicato rural, Marcos Vinícius Alves Nogueira.

A maior parte dos produtores beneficiados são atendidos pelo ATeG, na pecuária de leite e corte. Maria Aparecida da Rocha Dias foi uma das beneficiadas com as raquetes de palma e acredita ser essa a grande alternativa para alimentação e boa nutrição animal em períodos de seca. “Estou em busca de aprimorar a alimentação dos animais. Convivo com a seca todos os anos, o pasto acaba. Agora, por exemplo, estou sem pasto a meses, até o próximo ciclo de chuva, no fim do ano. Quem atua na pecuária na região precisa lutar”, explica a produtora.

Maria Aparecida está na fase de estruturação da atividade leiteira, se planejando para a aquisição de animais com maior aptidão para o segmento. Os impactos da seca, com a baixa oferta de alimentação, tem sido o fator que impede mais avanços. Mas ela está confiante em mudar essa rotina, e já até plantou as novas raquetes de palma na fazenda. “Por isso interessamos em plantar a palma. Eu já tinha um pouco, mas outras espécies. Agora vou aprimorar, e o técnico do ATeG já tem ajudado nessa diversificação da alimentação, para quando eu comprar novos animais o planejamento ocorrer certo. Essas novas técnicas de trabalho e manejo caíram do céu”, fala com entusiasmo Maria Aparecida.

Pesquisa e congresso
O Norte de Minas é uma das regiões do país que recebe constantes pesquisas que estudam melhores opções de alimentação animal adaptadas às regiões com baixos índices de chuva, caso do Projeto Forrageiras para o Semiárido, que tem apoio do Sistema Faemg Senar. Em Montes Claros existem duas Unidades de Referência Tecnológica (URTs), junto a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), que analisam diversas espécies de forrageiras para alimentação animal.

A palma forrageira também será tema de um congresso em outubro, no Parque de Exposições de Montes Claros. Durante três dias (19, 20 e 21), o 6º Congresso Brasileiro de Palma e Outras Forrageiras para o Semiárido e o Palmatech 2023 irão reunir pesquisadores, produtores rurais, técnicos e interessados nas mais novas tecnologias envolvendo essa e outras cactáceas.

Esta será a primeira vez que o congresso é realizado fora da região nordeste do Brasil. O evento é organizado pelo Sistema Faemg Senar e pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), com apoio da Federação da Agricultura e Pecuária da Paraíba (Faepa/Senar-PB). Os temas tratam do manejo da planta e seu uso na pecuária, outras forrageiras adaptadas ao semiárido, fruticultura das cactáceas, assistência técnica e gestão. Um dia de campo e uma cozinha show completam a programação. Além disso, haverá a apresentação de trabalhos técnico científicos durante a programação do evento.

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