– Em entrevista reveladora, o filho de Marão e sobrinho de Darcy abre o coração para a filha Maria Ribeiro –

* Por Waldo Ferreira

Ao longo dos anos a corrupção dentro das administrações públicas permitiu a venda de áreas destinadas a praças em Montes Claros. Tudo com a complacência da classe política, segundo denúncia do secretário de Meio Ambiente de Montes Claros (Semma), Paulo Ribeiro, que concedeu longa entrevista ao programa Máster Médicos, no Instagram.
O fenômeno explicaria a cidade ter grandes regiões, como o Grande Maracanã, com uma praça apenas. De acordo com o secretário, esses espaços públicos, em grande parte, foram parar nas mãos das igrejas, que ocupam cerca de 30% das praças em Montes Claros. Nos últimos 40 anos teria faltado planejamento e muitas áreas foram invadidas, atendendo à politicagem.
A falta de áreas verdes também é facilitada pela atual legislação que disciplina a criação de novos loteamentos em Montes Claros, com até 160 metros quadrados. “Caso essa norma seja seguida, vamos desertificar a cidade, pois nesse espaço podem ser construídas duas casas, onde vão morar, no mínimo, 8 pessoas”, exemplifica Ribeiro, explicando que não sobrará espaço verde. Ele informa que a Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê 12 metros de área verde por habitante como o mínimo saudável. A legislação destina 7 metros, mas, de acordo com o secretário, na prática não sobram nem 5 metros.
Ao dizer que considera essa situação criminosa, por se tratar de uma das cidades com menos áreas verdes no país, localizada numa região semiárida –, Paulo Ribeiro deu uma boa notícia: ele recebeu da equipe técnica da Semma proposta para alterar a legislação, a exemplo do que já é adotado em outras cidades. A preocupação tem sentido, pois o “Mapa do Calor” do Atlas Ambiental mostra variação de até 3 graus entre as áreas com ou sem vegetação. O Atlas, desenvolvido em parceria com a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), está disponível nos sites da Semma e da universidade.

Mãe e tio como referências

Mas, a entrevista não se restringiu às denúncias. E foi marcada pela emoção, talvez pelo fato de a entrevistadora ser sua filha, a jornalista Maria Ribeiro, que também demonstrou estar visivelmente emocionada durante a uma hora que durou a live.
As já conhecidas paixões pelo meio ambiente e pela educação, inspiradas pela mãe, dona Jacy, e pelo tio, o antropólogo, educador e ex-senador Darcy Ribeiro (falecido) – de quem também herdou a inquietude e a veemência para defender aquilo em que acredita -, foram entremeadas pelas impressões de Ribeiro sobre o mundo, a humanidade, as relações pessoais, o desenvolvimento econômico, os avanços da tecnologia e seus impactos sobre as pessoas e, claro, a pandemia do coronavírus, que inundou a todos com as incertezas sobre o futuro.
Apesar da falta de previsibilidade na questão ambiental, Paulo Ribeiro disse que está tentando “tirar o atraso”. Capitaneado por ele, está sendo criado no município o Parque Estadual da Lapa Grande, em área de 15 mil hectares. “Para se ter ideia da importância desse fato, o maior parque urbano do mundo é o Parque Nacional da Tijuca (Rio de Janeiro), que tem 3,4 mil hectares”, informa.
O reconhecimento do Parque Estadual de Grão Mogol, luta de 20 anos do ambientalista Eduardo Gomes, também teve a participação de Paulo Ribeiro, que atuou como intermediário na negociação com o governo do Estado.
Reconhecido como alguém que mudou o olhar para a questão do meio ambiente em Montes Claros, Ribeiro concretizou o Parque Sagarana, criado por seu pai, o ex-prefeito Mário Ribeiro (falecido), numa área de 42 hectares. O local estava abandonado desde 1989, mas em 2018 foi estruturado num espaço de 4 hectares, localizado numa das regiões mais nobres da cidade (Avenida José Corrêa Machado, no bairro Jardim São Luiz).
Também foram criados os parques Canelas e Mangues (será inaugurado neste ano) e em 1º de Maio será a vez dos moradores dos bairros Belvedere e Santo Antônio ganharem seus parques. O secretário informou que há mais 12 parques encaminhados, alguns deles de 100 hectares.
O Vale-Verde (transporte gratuito para as áreas verdes da cidade, ida e volta), criado por ele ainda no governo do ex-prefeito Athos Avelino, é mais um esforço para propiciar qualidade de vida à população. O Parque Municipal, principal destino da população de menor poder aquisitivo, ganhou pista de Cooper.

Atual modelo de desenvolvimento econômico é suicida

Paulo Ribeiro acredita que não adianta ter excesso de informação sem reflexão. “Apesar da democratização da informação nunca tivemos tantos governos totalitários. Há uma tendência que a onda fascista cresça, mesmo com a crise do neoliberalismo, pois capitalismo não tem nenhuma dificuldade de se adaptar a regimes totalitários, haja vista a China, maior potência econômica do mundo, que tem um governo autoritário”, apontou, lembrando que no Brasil também o presidente Jair Bolsonaro tem perfil autoritário, embora tenha sido eleito democraticamente.
Crítico do atual modelo de desenvolvimento, que considera suicida, pois coloca como prioridade uma cultura consumista e individualista, Paulo Ribeiro espera que tragédias humanitárias, como a pandemia do coronavírus sirva de reflexão para se chegar a uma alternativa mais sustentável para o futuro da humanidade.
Nesse sentido, de acordo com ele, a única solução é mudar radicalmente o modelo de educação. “A classe dominante não quer qualidade, pois isso implica na perda de privilégios’, diz. “O Paraguai tem índices de alfabetização o dobro do Brasil. Não conseguimos copiar os modelos de Cingapura, Japão, Alemanha, Vietnã, Finlândia e outros. Aqui, piora o ensino público e cresce o privado. É uma tragédia”, lamenta. Segundo ele, o país tem tecnologia e dinheiro para fazer a revolução na educação, ensinando aos alunos uma nova ética e um modelo de desenvolvimento que beneficie a maioria da população.
Ele se mostrou preocupado pelo fato de não se aproveitar esse momento de crise para a discussão de uma mudança estrutural no país, que envolva setores, como, por exemplo, o Judiciário, que ele considera o poder mais corrupto do país, por ser vitalício, cheio de privilégios e não ser fiscalizado. “Quando um juiz é pego roubando o aposentam no topo da carreira”, assinalou.

Lição recebida dos índios e legado

Flor, sobrinha-neta mais nova de Darcy, no colo do papai, Paulo Ribeiro, em Kuarup

Num dos momentos mais emocionantes da entrevista, Paulo Ribeiro relembrou seus 37 anos de servidor público e a época em que trabalhou com Darcy. Disse que pela proximidade com o tio conviveu com alguns dos homens mais brilhantes do país nos últimos 50 anos, pelo que é grato. Mas lamentou que, por conta do trabalho, tenha ficado tão pouco tempo com os filhos.

Foto: A Dança do Kuarup! Blog Justiça e Cidadania, de Maria Rachel Coelho Pereira

Paulo Ribeiro narrou um episódio que ocorreu no território do Xingu, que ele considera a maior vergonha que vivenciou e que se transformou numa lição de vida. Quando do Kuarup (ritual de homenagem aos mortos ilustres, celebrado pelos povos indígenas da região do Xingu), em que foram homenageados de forma excepcional homens brancos – os irmãos Villas Boas e Darcy Ribeiro -, o cacique da tribo lhe perguntou por que o homem branco mente e quantas horas por dia ele convivia com seus filhos. Primeiro, disse que a mentira era cultural. À segunda pergunta respondeu que dedicava duas horas por dia aos filhos. Uma mentira, em se tratando de um homem que ficava meses sem aparecer em casa.
Em seguida, o cacique indagou se existe algo mais importante para um filho do que a convivência com o pai, para, em seguida revelar que não aceitava ficar menos de 12 horas longe dos filhos, pois é ele quem ensina tudo a eles.
Paulo Ribeiro sonha com um país que dê oportunidades para todos e acredita que isso não se consegue com salvadores da pátria, com os quais a massa manipulada conta para combater a corrupção. “O único jeit

o de reduzir a corrupção é dando educação de qualidade para todos”, resume. “Isso porque quem sustenta os meios de comunicação, inclusive a internet, é o sistema financeiro, que é parasitário, não produz renda. Seis pessoas são donas dos três maiores bancos do Brasil e têm mais renda do que 110 milhões de brasileiros. Será que essas pessoas trabalharam honestamente para acumular essa riqueza? Isso é justo?”, indagou. Para mudar esse estado de manipulação, Paulo Ribeiro defende investimento maciço em educação de qualidade durante 20, 25 anos.
Entre alguns trabalhos que considera seus legados, Paulo Ribeiro cita a preservação de 100 quilômetros de praias e da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, junto com Darcy Ribeiro, quando o tio foi vice-governador fluminense; criação de parques, do Ecocrédito (primeira lei do mundo obrigando o poder público a pagar ao produtor rural que preserva a natureza), e o Memorial Darcy Ribeiro, em Brasília
Ele revela, entretanto, outras obras em andamento ou prestes a serem iniciadas. Uma delas é a da Capela em homenagem a Darcy, cujo projeto foi elaborado pelo arquiteto Oscar Nyemeier (falecido), a pedido de Mário Ribeiro, irmão de Darcy e pai de Paulo Ribeiro.
Na mensagem final, a pedido da filha, mais emoção. Paulo Ribeiro deu sua receita de vida.

“Não sou religioso praticante, mas vou citar um trecho bíblico: amai uns aos outros. Todos dependem um do outro. Ninguém é feliz sozinho. Não há saída sem o amor. Não existe individualidade que traga felicidade. Nós devemos desenvolver a fraternidade, a solidariedade. Devemos entender que fazemos parte de algo muito maior. Por isso, precisamos viver em harmonia com nós mesmos e com a natureza. Existe toda a possibilidade de realizar isso, bastando querer. Espero dar a mão a cada um e construir essa alternativa nova para nós e a humanidade”.

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