CartaCapital esteve no ato antidemocrático e acompanhou a rotina de crianças, jovens, adultos e idosos insatisfeitos com o resultado da eleição
A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal e presidente do Tribunal Superior Eleitoral, de bloquear as contas bancárias de 43 empresas e empresários suspeitos de financiar os atos antidemocráticos pelo País ainda não impactou a manifestação de apoiadores do presidente derrotado Jair Bolsonaro (PL) em frente ao QG do Exército em Brasília.
Desde a confirmação da vitória de Lula (PT) no segundo turno, uma horda insatisfeitos se dirigem à capital federal em protesto contra o petista, as Cortes superiores e seus integrantes. O local escolhido para a concentração conta com uma robusta estrutura, capaz de acomodar milhares de pessoas por um longo período de tempo.
A decisão de Moraes, divulgada na quinta-feira 17, busca desarticular a possibilidade de uma escalada nos atos até a posse do presidente eleito. No despacho, o magistrado diz que o bloqueio imediato das contas é “necessário, adequado e urgente”.

Relatórios enviados pelas Polícias Militar, Civil e Federal e pelo Ministério Público nos estados ao STF apontam que os recursos que bancam boa parte da infraestrutura são disponibilizados por políticos, policiais, ex-policiais, servidores públicos, sindicalistas, fazendeiros, empresários do agronegócio e donos de estandes de tiro.

CartaCapital esteve no acampamento neste sábado 19, acompanhando a rotina de crianças, jovens, adultos e idosos que, vestidos de verde e amarelo dos pés à cabeça, misturam revolta, esperança e delírios em uma espécie de cidadela alheia ao mundo real.

O contato com o mundo exterior se dá basicamente por aplicativos como WhatsApp e Telegram, por onde as informações chegam e são disseminadas. Dada a necessidade dos manifestantes de estarem conectados o tempo inteiro, há no local espaços destinados exclusivamente à recarga de celulares.

Há uma preocupação constante com infiltrados, além de um grande esforço para que nada saia da narrativa desejada e possa servir de munição para críticas e ataques dos ‘comunistas’. Assim que chegou ao acampamento, a reportagem avistou uma correria por conta de um princípio de incêndio, logo controlado.

Alguns bolsonaristas sacaram os celulares para filmar, mas outros impediram as gravações. A justificativa era que as imagens não poderiam vazar, pois os adversários poderiam usá-las.

“Eles precisam de qualquer coisa para nos atacar. Eles são raivosos”, disse uma senhora depois que as chamas cessaram. Na sequência, houve um coro de “ninguém posta!”. O estrago feito pelo fogo foi limpo rapidamente, para que não restasse nenhum indício de que algo saiu do roteiro ali.

A fortaleza bolsonarista em Brasília conta com centenas de barracas que são usadas para distribuição gratuita de alimentos, descanso, cultos, filantropia, atendimento médico e comércio que, em sua maioria, envolve a venda de camisas e acessórios da Seleção Brasileira.

Há, ainda, dezenas de banheiros químicos disponíveis, mas que na tarde deste sábado foram motivo de insatisfação pela falta de limpeza. O volume de carros e caminhões na região, disse uma ambulante, impediu que o veículo responsável pela higienização alcançasse o evento. O resultado, para quem passasse por ali naquela hora, foi sentir o mau odor que exalava das latrinas sob um calor que beirava os 30 graus Celsius.

Os apoiadores do presidente derrotado costumam registrar nas tendas o nome de suas cidades de origens. Há ali pessoas de todas as regiões do País – em especial de Mato Grosso e Rondônia, contou um ambulante – que insistem em pedir ajuda das Forças Armadas contra o resultado eleitoral. Pelo local, muitas faixas com críticas e ataques principalmente a Lula, ao PT e a Moraes.

“O cabeça de ovo não deixou o Bolsonaro governar”, ouviu a reportagem de um manifestante durante as horas que esteve no local.  “Eu não mereço passar por isso no final da minha vida [do Lula voltar ao poder]”, disse uma senhora que comprava uma camiseta do Brasil e pedia para gravar o lema ‘Deus, Pátria e Família’.

O silêncio das últimas semanas de Bolsonaro, para apoiadores com quem CartaCapital conversou, não tem a ver com supostos problemas de saúde ou uma possível resignação após o revés sofrido nas urnas. Para eles, o presidente espera pelo momento certo para se pronunciar. Algum fato novo, imaginam e torcem, deve ocorrer para impedir que Lula tome posse no dia 1 de janeiro.

“Ele [Lula] não vai receber a faixa, vai receber uma algema com os amigos dele”, declarou um apoiador de Bolsonaro que está no acampamento desde o dia 2 de novembro.

Na última quinta-feira 17, o presidente bateu um recorde ao completar três semanas sem fazer sua tradicional live. Desde que foi derrotado, o ex-capitão abandonou as transmissões na internet e diminuiu as publicações nas redes sociais. Este é o maior tempo em que Bolsonaro fica sem se comunicar ao vivo com seus apoiadores.

O presidente também completou duas semanas sem ir ao Palácio do Planalto. Ele estaria, segundo pessoas próximas, com uma ferida na perna que o tem obrigado a repousar e o impedido de usar calças compridas. Desde então, ele se mantém recluso no Palácio da Alvorada.

“Ele deve voltar logo. Ele já se recuperou da infecção”, chegou a dizer o ex-ministro e candidato a vice Braga Netto. “Está tudo bem”.

Já o ex-ministro do Turismo Gilson Machado afirmou nos última dias que Bolsonaro, apesar de recluso, tem trabalhado ‘18 horas por dia’. No entanto, conforme mostrou CartaCapital, há poucos indícios de que o presidente esteja de fato trabalhando arduamente após a eleição.

Na agenda oficial é possível ver que o ex-capitão mantém apenas poucos compromissos de despachos internos. No geral, o site oficial registra encontros de meia hora com ministros e aliados no Palácio do Alvorada e não no Planalto. O dia mais longo de trabalho – 11 de novembro – soma apenas 5 horas. Na maior parte dos casos, a agenda está completamente vazia.

Com o sumiço do presidente, alguns bolsonaristas apelam para a fé no acampamento que ocupa um amplo espaço na capital federal. Uma das tendas é destinada somente a manifestações religiosas. No tempo em que esteve no local, a reportagem presenciou orações contra as decisões judiciais em desfavor de Bolsonaro e pedidos para que “bata em retirada” o que chamam de “demônio de opressão”.

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