O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reuniu por cerca de três horas com Donald Trump nesta quinta-feira (7), na Casa Branca, em Washington. O encontro marcou a primeira visita oficial de Lula à residência presidencial dos Estados Unidos durante a gestão trumpista e teve como foco a retomada do diálogo entre os dois países, especialmente nas áreas comercial, diplomática e estratégica.

Donald Trump e Lula em encontro na Casa Branca. Foto: Ricardo Stuckert

A agenda previa uma declaração conjunta no Salão Oval após a reunião, mas a coletiva foi cancelada. O motivo não foi informado pela Casa Branca nem pelo Planalto.
Depois do encontro, Trump publicou uma mensagem na rede Truth Social em que classificou a conversa como produtiva e destacou o tema das tarifas. “Acabei de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o dinâmico presidente do Brasil. Discutimos diversos temas, incluindo comércio e, mais especificamente, tarifas. A reunião foi muito boa”, escreveu.
O presidente dos Estados Unidos também afirmou que representantes dos dois governos terão novos encontros para tratar de pontos da agenda bilateral. “Nossos representantes têm reuniões agendadas para discutir alguns pontos-chave. Outras reuniões serão agendadas nos próximos meses, conforme necessário”, disse Trump.
Em coletiva, Trump também fez diversos elogios ao brasileiro: “Tivemos uma ótima reunião com o presidente do Brasil. Estamos fazendo muito comércio e vamos aumentar ainda mais esse comércio. Falamos sobre tarifas. Eles gostariam de algum alívio nas tarifas. Mas tivemos uma reunião muito boa”, afirmou. Em seguida, completou: “Ele é um bom homem. É um cara inteligente”.

Mais cedo, Trump já havia publicado na Truth Social que tinha acabado de concluir a reunião com “Luiz Inácio Lula da Silva, o muito dinâmico presidente do Brasil”. Segundo ele, os dois discutiram “muitos temas”, incluindo comércio e tarifas, e representantes dos dois países devem se reunir para tratar de pontos estratégicos. Veja quais foram os temas:

Relação entre Brasil e Estados Unidos

Lula afirmou que a reunião teve como objetivo fortalecer a relação entre Brasil e Estados Unidos. Segundo o presidente brasileiro, os dois países têm interesse em ampliar a cooperação econômica e comercial, depois de um período de distanciamento político.
O petista disse que defendeu uma relação baseada no diálogo e no multilateralismo. Segundo ele, o Brasil está disposto a negociar com diferentes parceiros, desde que sejam respeitadas a soberania nacional e os interesses do país. Lula também afirmou que propôs a criação de um grupo de trabalho bilateral para discutir impasses comerciais, incluindo tarifas de importação, com uma proposta a ser apresentada em até 30 dias.
“Eu saio muito satisfeito da reunião. Acho que foi uma reunião importante para o Brasil e importante para os Estados Unidos”.

Donald Trump e Lula em encontro na Casa Branca. Foto: Ricardo Stuckert

Tarifas comerciais e comércio bilateral
O tema das tarifas esteve entre os principais pontos da conversa. A gestão Lula chegou ao encontro com a prioridade de evitar novas medidas contra produtos brasileiros e tentar reduzir tensões comerciais abertas desde 2025, quando Trump impôs uma tarifa de 50% sobre itens do Brasil.
Lula já havia criticado a medida em outras ocasiões e acusado Trump de agir de forma unilateral. Na avaliação do governo brasileiro, a reunião serviu para abrir um canal direto de negociação e diminuir a influência de aliados bolsonaristas sediados nos Estados Unidos sobre decisões da Casa Branca.

Terras raras e minerais críticos
Outro assunto tratado foi o potencial brasileiro na exploração de terras raras e minerais críticos, considerados estratégicos para a transição energética, a indústria de tecnologia e a produção de equipamentos avançados.
Lula afirmou que o Brasil quer ampliar o conhecimento sobre o próprio território e desenvolver a cadeia produtiva no país, sem repetir o modelo de exportação de matéria-prima sem agregação de valor. O presidente disse que o Brasil está aberto a parcerias internacionais, inclusive com empresas dos Estados Unidos, mas rejeita a ideia de se tornar fornecedor exclusivo de um único país.
“O Brasil estará aberto para construir parcerias. O que nós não queremos é ser meros exportadores dessas coisas”, disse. “Nós queremos que o Brasil seja o grande criador dessa riqueza que a natureza nos deu”.

Guerras e crises internacionais
Lula também afirmou que discutiu com Trump conflitos internacionais e apresentou a posição brasileira sobre guerras em curso. O presidente disse que defendeu o diálogo como alternativa a intervenções militares e mencionou situações como Irã e Venezuela.
O petista afirmou que não espera que Trump mude sua postura após uma única reunião, mas considerou importante expor diretamente a visão do Brasil. Ele se colocou à disposição para contribuir com negociações, caso haja interesse das partes envolvidas.
“Trump não vai mudar o jeito dele de ser por causa de uma reunião de três horas comigo”, disse. “Conversar é muito mais barato, mais eficaz. Não tem vítima, não tem destruição de casa, não tem morte de criança”.
Lula também disse que ouviu de Trump que não há intenção de invadir Cuba, já que Havana tem demonstrado abertura ao diálogo. O presidente brasileiro avaliou a declaração como um sinal positivo.

Donald Trump e Lula em encontro na Casa Branca. Foto: Ricardo Stuckert

Reforma do Conselho de Segurança da ONU
Na conversa, Lula voltou a defender mudanças no Conselho de Segurança da ONU. Segundo ele, a estrutura atual ainda reflete a geopolítica do pós-Segunda Guerra Mundial e não corresponde mais à realidade internacional.
O presidente afirmou que países com assento permanente, como Estados Unidos, China e Rússia, precisam assumir protagonismo no debate sobre a reforma. Lula defendeu a ampliação do órgão, com a inclusão de novos membros permanentes, entre eles Brasil, Japão, Índia e países africanos.
“A geopolítica de 2026 não é a geopolítica de 1945. O mundo é outro, a comunicação é outra”.

Copa do Mundo e momento de descontração
Lula relatou que o encontro também teve momentos de descontração. Segundo ele, os dois conversaram sobre a próxima Copa do Mundo, que terá jogos nos Estados Unidos.
O presidente brasileiro disse que fez uma brincadeira com Trump em referência à política migratória estadunidense. “Eu falei: espero que você não anule o visto dos jogadores brasileiros, porque nós vamos vir aqui para ganhar a Copa do Mundo. E ele riu, porque agora ele vai rir sempre”.
Lula afirmou que o clima mais leve ajudou no diálogo entre os líderes. Segundo ele, ver Trump sorrindo é melhor do que vê-lo “de cara feia”.

Crime organizado e facções brasileiras
Antes da reunião, havia expectativa de que Lula apresentasse um plano de cooperação contra lavagem de dinheiro e tráfico de armas. A intenção era se antecipar a setores do governo Trump que defendem classificar facções brasileiras, como PCC e Comando Vermelho, como organizações terroristas.
Após o encontro, Lula afirmou que o tema não foi tratado diretamente. Ainda assim, disse que o Brasil deixou claro que pretende intensificar o combate ao crime organizado e apoiar a criação de um grupo de trabalho internacional envolvendo países da América do Sul, da América Latina e de outras regiões.

PIX ficou fora da conversa
O PIX também não entrou na pauta, segundo Lula. O presidente afirmou que levou à reunião o ministro da Fazenda, Dario Durigan, com a expectativa de discutir o tema, já que os Estados Unidos conduzem uma investigação contra práticas comerciais brasileiras e incluem o sistema de pagamentos entre os itens analisados.
Como Trump não mencionou o assunto, Lula disse que também decidiu não abordá-lo. “Eu espero que um dia ele ainda vai fazer um PIX, porque muitas empresas americanas já fazem”, disse.

Fonte: DCM

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