Idosos gritam por socorro
Montes Claros registra 438 casos de violência contra idosos em 2018 – média de 1 por dia
Por Manoel Freitas O Norte 
Mais de uma denúncia de violação ao direito das pessoas com mais de 60 anos chega diariamente ao Núcleo de Atendimento à Violência contra o Idoso, em Montes Claros. De janeiro a 5 de dezembro, foram 438 registros. No topo do ranking estão o abandono (69 casos) e a negligência (67). O abuso financeiro aparece logo em seguida, com 66 denúncias.

Para que esses casos cheguem ao Núcleo, as vítimas têm que criar coragem para superar abusos, intimidações e tantas outras violências sofridas dentro ou fora de casa. Mas dados do Ministério dos Direitos Humanos, elaborados a partir das queixas recebidas pelo Disque 100, mostram que os idosos têm quebrado o silêncio.

Só no primeiro semestre de 2018 foram 2.380 gritos por socorro em Minas – o dobro do registrado há cinco anos.

Em Montes Claro não há dados de anos anteriores para comparar se houve crescimento, mas no período chamou atenção 55 registros de maus-tratos, 51 de agressão psicológica, 42 de agressão verbal e 37 de violência intrafamiliar.

As agressões físicas, que normalmente culminam no acionamento da Polícia Militar e do próprio Ministério Público por parte da Coordenadoria do Idoso, totalizou 24 registros. E, curiosamente, 27 idosos, mesmo vítimas de violações, se recusaram a receber equipe de psicólogos e assistentes sociais, a chamada autonegligência.

Proporcionalmente à população, a violência contra os idosos em Montes Claros atesta dados aferidos em 2017 pelo Ministério dos Direitos Humano, que revelaram mais de 33 mil denúncias de abusos e agressões contra essas pessoas.

A assistente social Cibele Freire Diniz Oliveira, há nove anos na presidência da Coordenadoria do Idoso e do Conselho Municipal do Idoso de Montes Claros, disse que “a maioria das denúncias decorrem de problemas familiares, de abandono dos filhos que não querem cuidar dos pais”. “Em grande parte dos casos a gente traz a família, conversa e resolve por aqui mesmo”.

“O nosso papel é averiguar se existem maus-tratos, não apenas em relação à violência física, porque a pior violência é a psicológica, e, a partir daí, acionamos o Centro de Atendimento Especializado ao Assistente Social (Creas)”, explica Cibele, lembrando que, se não for possível resolver as denúncias, o passo seguinte é acionar o Ministério Público.

DRAMAS
A também assistente social Ireni Pereira de Aguiar, que atua desde 2011 no Núcleo de Atendimento à Violência contra o Idoso, afirma que a equipe frequentemente se emociona com o drama, sobretudo das mulheres com mais de 60 anos, as principais vítimas em Montes Claros.

Como exemplo, revelou que na semana passada chegou à Casa da Cidadania “um caso chocante, muito grave, que culminou com o acionamento da PM”. Nessa ocorrência, segundo Ireni, foram constatadas várias violações – abandono, negligência e maus-tratos.

Idosa de 80 anos ouvida pelo O NORTE e que pediu para que fosse identificada apenas como “vovó”, disse que, nessa idade, a maior preocupação é com a violência. “A gente vai ficando velho e fica igual bicho do mato, com medo de certas coisas”. Ela conta que só sai na companhia de familiares.

Para M.A.S., de 70 anos, a violência contra idosos é muito maior do que a contabilizada pelos órgãos públicos, argumentando que ela é refletida não apenas em maus-tratos ou abandono, “mas inclusive no trânsito, onde os idosos em Montes Claros sofrem cada dia mais com agressões verbais”.

Depois de décadas dirigindo o próprio veículo, pensa em optar pelo transporte alternativo porque os motoristas não respeitam os condutores da terceira idade. “Do jeito que está, a gente não tem saída”, desabafa.

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