Lula, Getúlio, Tiradentes e o povo – Por Leonardo Attuch

 Condenado por três a zero pelo TRF-4 na última quarta-feira a 12 anos de prisão, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se consagra e entra para a História como o maior líder político de todos os tempos no Brasil. Na prática, ao recorrer aos tribunais para bani-lo da vida pública, a direita nacional reconheceu sua própria incapacidade de derrotá-lo nas urnas e de conquistar o coração do povo brasileiro. Esta, aliás, foi a razão do golpe de 2016. Quando as forças derrotadas em 2014 vislumbraram a volta de Lula em 2018, o que daria ao PT um ciclo de vinte anos de poder, trataram rapidamente de buscar atalhos, sabotando a democracia. Com seu martírio, Lula repete agora a história de seu predecessor Getúlio Vargas. Em 1954, Getúlio foi levado ao suicídio pelas mesmas forças – mídia, direita raivosa, entreguistas e imperialismo internacional – que hoje sacrificam Lula. Getúlio dizia que só sairia morto do Catete e, ao se matar, adiou em dez anos o golpe de 1964. Lula hoje afirma que só sairá morto das ruas. Ou seja: transfere para as praças e avenidas o verdadeiro espaço de poder. Portanto, mesmo que seja banido para que as oligarquias tenham nas eleições de 2018 um simulacro de democracia, Lula será um ator decisivo. Até porque quem sai condenado de Porto Alegre é o povo brasileiro, tolhido em sua soberania. Os próximos passos de Lula já foram anunciados: uma viagem à África, para um evento de combate à fome no mundo, e caravanas pelo Brasil. Contra ele, a direita tem agora uma arma nas mãos, que é a ameaça de prisão. Numa linguagem simples, o que os donos do poder oferecem a Lula é uma chantagem escancarada: ou desiste da candidatura ou vai em cana. Uma mensagem simbólica que também é endereçada a todo o povo brasileiro, para que fique no seu devido lugar e não ouse sair da senzala. Repete-se com Lula o que ocorreu com Tiradentes. Ao enforcá-lo, esquartejá-lo e salgá-lo, a Coroa Portuguesa mandou seu recado aos brasileiros: jamais voltem a sonhar com independência. Lula lembrou, no entanto, que os pobres brasileiros já sabem como é gostoso comprar um carro, comer carne de primeira, viajar de avião e frequentar universidades. Ou seja: o projeto inclusivo de país que começou a ser plantado em 2002 tem raízes sólidas e profundas. O desafio de toda a esquerda agora é incorporar à luta de massas todos aqueles que estão ameaçados pelo golpe das elites contra o povo, especialmente os pobres e pretos das periferias. A violência institucional cometida contra Lula, no momento em que o Brasil é governado por Temer, Cunha e Aécio, foi tão escandalosa que pode fazer germinar uma verdadeira revolução popular. Desde que o povo assuma seu protagonismo histórico. * Leonardo Attuch é jornalista e colunista das revistas Istoé e Nordeste

SOBRE A IGNORÂNCIA ERUDITA – POR CARLOS D’INCAO

 Um dos maiores problemas contemporâneos e que aflige todas as gerações não é mais a ignorância, mas sim a “ignorância aprendida” que é, em sua essência, uma ignorância perversa que assume a forma de conhecimento adquirido por fontes supostamente confiáveis.  A ignorância aprendida acaba por resultar em um novo tipo de ignorante, o “ignorante erudito”. Uma mistura heterogênea de conceitos deturpados, meias verdades, fatos inventados, dados manipulados… e tudo isso cuidadosamente controlado por gigantescos meios de comunicação privados que desejam cumprir com uma missão: gerar um exército de “ignorantes eruditos”, geralmente recrutados das camadas altas e médias de nossa sociedade e que servem como tropa de choque dos interesses do grande capital. Esse exército de “ignorantes eruditos” consegue ver vantagens na destruição da previdência pública, dos direitos sociais e na falência da democracia e do Estado de Direito. Consegue ver o mundo de maneira distorcida e desequilibrada… Chega a acreditar que países que sofrem as mais flagrantes agressões dos países centrais, como Cuba e Venezuela, são nossos inimigos… enquanto países como EUA e Alemanha, que realizam diariamente um processo de pilhagem de nossas riquezas, são vistos como nossos “aliados estratégicos”. O “ignorante erudito” não está somente em um nível inferior do que aquele que se encontra no estado da simples ignorância. Ele está enraizado em um duro e sujo universo de mentira e manipulação, fazendo com que a sua própria libertação se torne em uma missão muito mais difícil, quando não, impossível. Mas esse fenômeno não é inédito, embora hoje traja novas roupagens e porte armas mais sofisticadas. A ele o combate sempre se deu por três frentes: a contrainformação, o debate crítico e a sátira. Hoje temos também a missão de criarmos mecanismos eficazes de sabotagem e boicote aos meios de comunicação formadores desse exército. Um bom começo seria nos recusarmos explicitamente a não mais se valer desses meios para qualquer tipo de pronunciamento. Para além das redes sociais, ocupar as ruas é também um dever fundamental. E nas ruas a verdade há sempre de prevalecer. A verdade é um conhecido e temido animal… ela é rebelde, não aceita ficar presa e tão pouco é possível de ser domada. Ela é a mãe de todas as insurreições e o primeiro passo de todas as revoluções. * Carlos D’Incao é historiador e professor.

Calote do Governo de Minas provoca mais uma greve na Unimontes

 Assembleia da Adunimontes, na quinta-feira (25), decidiu pela greve a partir de terça-feira (30)    Os professores da Universidade Estadual de Mont es Claros decidiram entrar em greve a partir de terça-feira, dia 30, por tempo indeterminado, com a alegação de que o Estado deixou de cumprir os acordos celebrados em 2016, inclusive homologados na Justiça. Um dos pontos que levou a decisão da greve é o auxílio-remuneratório, para compensar as perdas salariais. Um professor do ensino comum tem um salário que chega a R$2,1 mil para 20 horas de aulas, enquanto na Unimontes é de R$860,00, abaixo do salário mínimo. O curioso é que a Unimontes está cumprindo agora a reposição das aulas por causa da greve realizada em 2016. No mês de março encerraria o segundo semestre de 2017, para depois iniciar o ano letivo de 2018. Porém, com essa greve, a situação se agrava. Em nota divulgada ontem a reitoria diz respeitar a posição do sindicato que representa a categoria e espera que as questões apresentadas sejam resolvidas o mais rápido possível. O presidente da Adunimontes, Afrânio Faria Melo Junior, explicou que depois de tentada negociação, seja em reuniões ou mesmo por telefone sem nenhuma solução, foi tomada a decisão da assembleia da categoria e opção pela greve. O primeiro item cobrado a pela Adunimontes é estruturação da carreira que mesmo com o compromisso assumido em papel, o Estado não executou. O outro ponto foi o auxilio remuneratório, onde os professores receberiam uma ajuda, pois o Estado não poderia conceder o aumento por ter estourado os 54% permitidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal. O governador Fernando Pimentel até publicou o decreto instituindo esse auxílio, mas nunca o colocou em prática. A situação afetou os 1.200 professores da Unimontes. PRÉDIO – Foi lançada a quarta-feira a pedra fundamental da construção do prédio anexo do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde do campus-sede da Unimontes. O prédio terá o total de 1,3 mil metros quadrados e será executado com recursos do Governo do Estado. Na primeira etapa serão construídos o térreo e mais três pavimentos, com 936 metros quadrados e a aplicação de R$ 1.106 milhão. A obra já foi licitada e contratada, com início imediato e previsão para ser concluída em 12 meses. No canteiro de obras foi colocada uma cápsula do tempo, uma caixa dos objetos e informações sobre os dias atuais para ser aberta daqui a 50 anos. Com Jornal Gazeta

PSB expulsa Ruy Muniz e investe no delegado Marcelo de Freitas

 Ex-prefeito de Montes Claros foi preterido pelo PSB, que aposta na filiação do delegado da Polícia Federal que prendeu Muniz, segundo matéria do jornal Gazeta, desta sexta-feira.  O ex-prefeito Ruy Muniz foi preso pela Polícia Federal, depois que sua mulher e deputada Raquel Muniz, que votou pelo impeachment, disse que o Brasil tinha jeito, e que seu marido mostrava isso com sua gestão. Foram 35 segundos de glória, que, menos de 12 horas depois, desabaram nas páginas policiais. Somente para lembrar, Ruy Muniz (PSB) foi preso pela Polícia Federal (PF), na operação Máscara da Sanidade II – Sabotadores da Saúde, acusado de fraude na gestão pública de Saúde. Ele teria retido recursos do Sistema Único de Saúde (SUS), destinados a quatro hospitais filantrópicos e públicos da região, para beneficiar um privado, o Hospital das Clínicas “Mário Ribeiro”, que é da família Muniz. Segue matéria do jornal Gazeta: PSB anuncia nova saída do ex-prefeito Ruy MunizO PSB decidiu, na noite da última segunda-feira, afastar o ex-prefeito Ruy Muniz do partido, por entender que não pode garantir-lhe a legenda como candidato ao Senado Federal, pois precisará disso para negociar com outros partidos nas eleições deste ano. Por isso, o partido decidiu que o Diretório Municipal será extinto e formada a Comissão Provisória, sob o comando do empresário Pávilo Miranda. Outras negociações estão sendo realizadas com o delegado da Polícia Federal, Marcelo Eduardo Freitas, que é pré-candidato a deputado federal. Na manhã de ontem, os correligionários do ex-prefeito Ruy Muniz desmentiram qualquer risco dele perder o PSB, pois afirma que ele manteve contato com o pré-candidato a governador, Márcio Lacerda, que o tranquilizou. Os assessores alegam que o PSB de Minas Gerais tem dois grupos, sendo que o deputado Júlio Delgado sempre tem resistência a Ruy Muniz. O Jornal GAZETA ouviu lideranças do PSB em Minas Gerais, que confirmaram a decisão de não oficializarem a legenda para o Senado Federal para Ruy Muniz, com o argumento de que a presença dele na chapa majoritária deixaria o partido fragilizado por causa dos constantes escândalos, que seriam explorados na campanha eleitoral; assim como precisam da vaga de Senador para negociar com outros partidos, na formação da coligação que apoiaria o nome de Márcio Lacerda a governador. Além disso, alegam que se o PSB tiver candidato ao Senado, o nome mais forte é do deputado federal Júlio Delgado, para disputar esse cargo. O empresário Pávilo Miranda ficou surpreso com essa informação, pois não foi comunicado de qualquer mudança no partido em Montes Claros e esperava a oficialização do ato. O delegado da Polícia Federal, Marcelo Eduardo Freitas, confirmou que recebeu a ligação de dirigentes do PSB o convidando a filiar ao partido. Porém, o assunto ainda não foi decidido, pois ele tem o convite do PPS, para ser o candidato apoiado pelo prefeito Humberto Souto e ainda do PMN e PDT. O líder político Igor Versiane também confirmou que o PSB decidiu romper com Ruy Muniz e está formando um grupo que reuniria Marcelo Freitas, Pávilo Miranda e ele, para assumir a Comissão Provisória de Montes Claros. (GA)

Rudá Ricci: uma sentença contra uma geração

 O cientista político Rudá Ricci, em artigo especial, critica a decisão do TRF4 que condenou ontem (24) a 12 anos e um mês de prisão o ex-presidente Lula. Para ele, foi uma sentença contra uma geração. Ricci escreve que o governo Lula cometeu vários erros em nome do racionalismo, mas cometeu vários acertos. “Para minha geração, tenho a impressão, o maior acerto foi combater a pobreza e a fome.” Uma sentença contra uma geração Rudá Ricci* Ontem, a página da história virou. Sei que, como diz minha esposa (que é historiadora), a história acontece todos os dias, todos os minutos. Mas, assim como a poesia transforma algo pueril em som especial, há momentos desta história cotidiana em que se quebra um vínculo com o passado. Foi o que ocorreu ontem. Em 1979 eu tinha 17 anos. Vivia em São Paulo para fazer o último ano do ensino médio (que se chamava, na época, colegial) e tentar ingressar na faculdade. Participei de todos movimentos de redemocratização do país que explodiam em cada esquina da capital paulista. Não se tratava de política, apenas. Era um giro. A tal virada de página. Tudo se alterava: o jeito de dar aula (com Marilena Chauí na vanguarda), o jeito de se educar (com a volta de Paulo Freire), o jeito de se pensar a justiça (a Constituinte era tema central em bares descolados onde artistas esbarravam em estudantes e políticos), o jeito de se pensar e fazer arte (você entrava em qualquer ateliê ou ensaio de grupos experimentais de música à luz do dia ou entrava na casa de cineastas sem bater, apinhadas de gente como uma grande, democrática e confusa república de estudantes), o jeito de se discutir (com debates sobre sexualidade nos auditórios do Hospital das Clínicas ou no “Pátio da Cruz” da PUC-SP), o jeito de se fazer música (ouvindo a obrigatória coluna de Maurício Kubrusly sobre a nova música paulistana, do Premeditando o Breque, do Grupo Rumo ou do experimentalismo de Arrigo Barnabé). Era ousadia pura. Na política, nada era mais novo que a greve dos metalúrgicos. E, tinha Lula. Lula tinha ironia e deboche. Mas, desde aquele momento, Lula não era dono de sua imagem. Era interpretado. O primeiro libelo do Partido dos Trabalhadores foi um artigo de Francisco Weffort publicado na Folha de S.Paulo. Lembro vagamente do conteúdo, embora recorde com facilidade do impacto que me causou. Ele dizia sobre um momento marcante e definitivo da política nacional, quando os trabalhadores entravam pela porta da frente. Não eram objeto de discursos de lideranças de classe média, mesmo as mais bem intencionadas, mas eram donos de seus próprios discursos. O artigo discorria sobre uma meia-verdade. E ele era a prova da outra parte que não dizia. Weffort era sociólogo reconhecido. Havia escrito uma tese famosa sobre uma greve espetacular que havia ocorrido em plena ditadura militar. Havia criticado duramente o populismo trabalhista. Era um intérprete. Foi um dos intérpretes de Lula. Diziam que ele escrevia alguns dos discursos de Lula, após a fundação do PT, e cometia alguns erros gramaticais para manter um tom de originalidade. Trabalhei com Weffort, anos mais tarde, mas nunca tive coragem de perguntar se este boato tinha sentido. Imagino que, mesmo se tivesse, ele negaria. O fato é que o movimento libertário do final dos anos 1970 – e que invadiria toda a década seguinte até o ápice da constituinte de 1987 ou das eleições de 1989 – não foi um desenrolar de acontecimentos, mas uma interpretação de toda uma geração sobre o presente que apontava para um futuro distinto. Aqui é o marco de minha geração. Ao menos, parte dela que mergulhou nesta construção do futuro. O que ocorre agora, não é construção de um futuro, mas a destruição deste potencial. Explico: minha geração sentia que tudo estava para ser construído. Não era reconstrução, mas construção. Algo novo, não uma reforma. E, por este motivo, reinterpretava e interpretava tudo o que ocorria. Os acontecimentos tinham que ter um sentido, se encaixar nesta tarefa empolgante e coletiva de construir um país. Mergulhamos, de cabeça. O tom destoante, que se destacaria a partir de meados dos anos 1990, era José Dirceu e as centenas de ativistas que o seguiram. Diria que era a faceta racional no interior de um movimento passional. A reinterpretação do Brasil – que enquadrava em perspectiva a figura de Lula, sempre controversa – era marcada pelas pulsões libertárias. Pulsão é uma espécie de catarse, um jorro de desejo, uma explosão de sentimentos e sentidos que dão cor à vida. Era assim que o petismo – apenas a ponta do iceberg das mudanças que uma geração promovia – reinterpretava todo racionalismo da esquerda dos anos anteriores. Reinterpretava as intenções tímidas do MDB, a linha justa e o amplo arco de alianças promovido pelo PCB, o populismo que sequestrava o protagonismo dos trabalhadores dirigido pelo PTB ou pelo brizolismo. Na política, falava-se do protagonismo dos trabalhadores, sem intérpretes, mas que eram interpretados por jovens, pesquisadores e jornalistas. Lula era o artista que criava o “efeito stand up”, aquela tirada surpreendente para falar sobre algo que já sentíamos, mas que não tinha sido racionalizada em palavras. Lula não era o que ele pensava ser. Era nosso intérprete. O intérprete de uma geração. Um intérprete criado por nós. O que os juízes de ontem não parecem se dar conta é que não julgavam Lula. Nem sei quais eram suas intenções e isto pouco importa. Mas eles julgaram todo um movimento libertário que começou a ser deformado na segunda metade dos anos 1990 pelo velho e carcomido racionalismo de parte da esquerda que havia sido criticada pelos movimentos libertários de 1980. O final do jorro da década libertária do Brasil já aparecia no final dos anos 1990. Era como um gosto amargo na boca depois de uma ressaca. Mas, como uma ressaca, basta um comprimido e muita água para se ter a certeza que logo tudo voltará ao normal. Nem sempre volta. A vitória de Lula

Escandalizado, Geoffrey Robertson denunciará julgamento de Lula à ONU

Na próxima segunda-feira (29), o advogado australiano Geoffrey Robertson apresentará um relatório à ONU denunciando o maniqueísmo, as distorções e as condutas indevidas que a seu ver caracterizam violação do direito do ex-presidente Lula a um julgamento justo. Ele foi autorizado a assistir presencialmente ao julgamento e viu coisas que apontou como impensáveis numa corte europeia. Robertson, que representa Lula no processo apresentado à Comissão de Direitos Humanos da ONU ainda antes do julgamento por Sergio Moro, não detalhou quais podem ser os desdobramentos do processo dentro da Organização. Mas devem ser mais políticos que jurídicos, não afetando as decisões do judiciário nacional que tanto o escandalizou. – Foi uma triste experiência ver que normas internacionais sobre o direito a um julgamento justo não parecem ser seguidas no sistema brasileiro – declarou Robertson nesta quinta-feira. Por muito tempo ainda, antes de tornar-se passagem dos livros de História, o julgamento de Lula pelo TRF-4 assombrará consciências jurídicas e políticas pelo jogo maniqueísta e combinado dos três desembargadores. Atuaram como um cartel, disse Lula, com aquela capacidade para troçar da dor, adquirida no balanço de sua vida sofrida e singular. Um caso que até podia ser levado ao CADE, brincou. “Como ensinar Direito depois deste julgamento?”, perguntou-se o constitucionalista e professor Lenio Streck. Outros tantos apontaram a falta de fundamentos da sentença e suas “inovações”, como a dispensa de ato de ofício em suposta corrupção, a volta do “domínio do fato” em sua versão distorcida, a inversão do ônus da prova e a substituição da prova pelo convencimento. Mas Robertson, um estrangeiro que assistiu de perto ao espetáculo, por sua posição dará grande difusão internacional à deformação da Justiça no Brasil, transfigurada em instrumento político para banir Lula da vida política e a esquerda da disputa do poder. Robertson criticou, por exemplo, o fato do promotor Mauricio Gotardo Gerum, responsável pela acusação, sentar-se junto do relator e ter conversas particulares com os desembargadores ao longo do julgamento. Espantou-se com o fato de que os três magistrados terem levado seus votos prontos e escritos, numa evidência de que já tinham opinião formada antes de ouvirem qualquer argumento da defesa. “Uma corte de apelação é uma situação em que três juízes escutam os argumentos sobre a decisão de um primeiro juiz, que pode estar certo ou não”, afirmou. “Os juízes hoje (no julgamento do dia 24) falaram cinco horas lendo um script. Eles tinham a decisão escrita antes de ouvir qualquer argumento”. “Nunca escutaram, então isso não é uma sessão justa, não é uma consideração apropriada do caso”, ponderou Robertson. Autorizado a observar presencialmente a sessão, ele se impressionou negativamente com o comportamento dos atores envolvidos no processo durante o julgamento. “Eu estava lá na sala e vi o promotor-chefe do caso sentar ao lado do relator. Ele também almoçou ao lado dos três juízes e, depois, ainda teve conversas particulares com eles. Essa é uma postura totalmente parcial, isso simplesmente não pode acontecer numa corte”, criticou o advogado britânico. Sobre o caso em que defende Lula na ONU, contra os procedimentos de Sérgio Moro na primeira instância, Robertson comentou que o sistema brasileiro não permite que o responsável pelo julgamento seja imparcial. “Aqui no Brasil vocês têm um juiz que investiga o caso, define grampos e ações de investigação, para depois também julgar a pessoa no tribunal”, avaliou. “Isso é considerado inacreditável na Europa. Impossível”, garantiu. “Pois isso tira o direito mais importante de quem está se defendendo: ter um juiz imparcial no seu caso.” Disse ele ainda que Moro atuou com pré-julgamento exatamente por ter sido o juiz da investigação e do julgamento de Lula. “Ele demonizou Lula, contribuiu para filmes e livros que difamaram o ex-presidente e encorajou o público a apoiar sua decisão. Moro jamais poderia se comportar assim na Europa. Depois, divulgou para a imprensa áudios capturados de forma irregular, de conversas entre Lula e a ex-presidente Dilma Rousseff. Pediu desculpas, mas imediatamente deveria ter sido retirado do caso.” Robertson justificou suas opiniões lembrando seu trabalho como promotor em ação de direitos humanos contra o general Augusto Pinochet e sua participação em acusações contra o cartel de Medelín. “Tenho experiência com casos de corrupção e, aqui nesta sessão, não vi evidências de corrupção. Foi uma experiência triste sobre o sistema judiciário brasileiro.”

Montes Claros quer compensação ambiental conjunta pelos danos à natureza

 Uma equipe da Prefeitura de Montes Claros participou na noite da última terça-feira (23), na cidade de Janaúba, de uma audiência pública que discutiu sobre uma possível compensação ambiental pelos danos e impactos à fauna e flora, que poderão ser causados pela empresa Equatorial Energia, com a implantação de 594 quilômetros de linhas de transmissão (500 KV Igaporã III –Presidente Juscelino), passando por Montes Claros e mais 11 municípios do norte de Minas, além de outros 17 municípios da Bahiae Minas Gerais. Para a diretora municipal de Meio Ambiente de Montes Claros Anildes Lopes Evangelista, as reivindicações feitas por Montes Claros foram determinadas pelo prefeito Humberto Souto, e abrange o cercamento de nascentes e um corredor ecológico, com árvores de vegetação baixa e nativas do cerrado, para amenizar o impacto ambiental que a linha de transmissão causará.Segundo Evangelista, somente com a união dos municípios do norte de Minas reivindicando ações coletivas, será possível amenizar os impactos ambientais e ainda abranda esta crise hídrica enfrentada pelos norte-mineiros.“Para permitir um livre deslocamento de animais, a dispersão de sementes e o aumento da cobertura vegetal para o enriquecimento ambiental, é necessário, dentre outras coisas, da união dos nossos municípios reivindicando o cercamento das nascentes e a criação de um corredor de biodiversidade para beneficiar toda a região, além de ser uma forma de amenizar esta estiagem prolongada que enfrentamos”, disse. A empresa Equatorial Energia foi a vencedora do leilão do lote 14, que prevê a implantação de 594 quilômetros de linhas de transmissão (500 KV Igaporã III – Presidente Juscelino)  na Bahia e Minas Gerais.A linha de transmissão percorrerá 29 municípios, sendo cinco no estado da Bahia: Caetité, Guanambi, Candiba, Pindaí e Urandi e 24no estado de Minas Gerais: Augusto Lima, Bocaiuva, Buenópolis, Catuti, Engenheiro Navarro, Espinosa, Francisco de Sá, Glaucilândia, Gouveia, Guaraciama, Joaquim Felício, Janaúba, Juramento, Mamonas, Mato Verde, Monjolos, Monte Azul, Montes Claros, Nova Porteirinha, Olhos D’Água, Pai Pedro, Porteirinha, Presidente Juscelino e Santo Hipólito.

Quem é o juiz que proibiu Lula de sair do Brasil

Ricardo Leite foi afastado da Operação Zelotes e mandou fechar o Instituto Lula O juiz substituto Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, proibiu nessa quinta-feira, dia 25, Lula de deixar o país e determinou que ele entregue o passaporte. A Polícia Federal já foi informada da decisão. Ricardo Leite vai cassar também o título de eleitor do Lula? (Reprodução) Do Coversa Afiada, via Kiko Nogueira, no DCM: O Ministério Público Federal de Brasília entrou com o pedido nesta quinta, argumentando que existe risco de fuga porque Lula responde a diversas ações penais, acaba de ter uma condenação em segunda instância e vinha adiando diversas vezes seu depoimento na ação penal da qual Ricardo Leite é responsável, derivada da Operação Zelotes. Lula tinha viagem marcada para a Etiópia para participar de um evento paralelo à 30ª Cúpula da União Africana, organizado pela FAO, agência de combate a fome da ONU. Em maio passado, Leite havia ordenado a suspensão das atividades do Instituto Lula por “haver indícios de que as instalações possam ter sido usadas para a prática de crimes”. A Carta Capital contou em 2015 que ele estava sendo investigado pela Corregedoria por conta de suas ações à frente da Operação Zelotes. Responsável por desarticular uma suposta organização criminosa a atuar no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), órgão ligado ao Ministério da Fazenda, a operação da Polícia Federal tem dificuldades desde seu início por conta da ação do juiz. O pedido de abertura de uma correição extraordinária na Vara comandanda por Leite partiu da procuradora Regional da República Valquíria Oliveira Quixadá Nunes, integrante da força-tarefa criada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Leite, afirmam os investigadores da Zelotes, barrou vários pedidos de prisão preventiva solicitados pela Polícia Federal e paralisou as interceptações telefônicas quando as diligências caminhavam para comprovar crimes praticados por altos funcionários de bancos como o Safra, Bradesco e Santander. A 10ª Vara é a única especializada em lavagem de dinheiro de Brasília. Por ela, obrigatoriamente, passam todos os inquéritos e processos relacionados ao combate à corrupção na capital federal. A postura de Leite já havia sido criticada pelo coordenador da força-tarefa da Zelotes, o procurador Frederico Paiva. Em coletiva de imprensa, Paiva afirmou que a operação não sensibiliza a mídia e que o juiz tem um histórico de acúmulo de processos que deveria ser acompanhado de perto. Última instância à qual o contribuinte brasileiro pode recorrer para reverter dívidas com a Receita Federal, o Carf acumula, atualmente, cerca de 105 mil processos cujo valor ultrapassa 520 bilhões de reais. Até então esquecido dentro da estrutura do Ministério da Fazenda, o órgão ganhou o noticiário após a Polícia Federal desarticular um esquema responsável por negociar votos de seus conselheiros e fraudar votações que causaram um prejuízo estimado em 6 bilhões de reais. São 74 processos investigados no valor de 19 bilhões de reais em dívidas de bancos, montadoras de automóveis, siderúrgicas e inúmeros grandes devedores que apostavam na corrupção de agentes públicos para burlar o pagamento de impostos. Na opinião dos investigadores da PF, trata-se da maior fraude tributária descoberta no Brasil. NOTA DO PARTIDO DOS TRABALHADORES JUIZ SUSPEITO PERSEGUE LULA E CRIA VEXAME INTERNACIONAL Em mais um episódio da odiosa perseguição judicial ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o juiz midiático da 10a. Vara Federal do Distrito Federal, Ricardo Leite, determinou hoje (25/01) a apreensão do passaporte de Lula. Este injustificável cerceamento de direitos impedirá o ex-presidente de participar, a convite da União Africana, da reunião de alto nível sobre o combate à fome em Adis-Abeba, na Etiópia. Embora a imprensa brasileira ignore este fato, a experiência do Brasil no combate à fome e à pobreza nos governos do PT é tomada como exemplo pelos países africanos e de outros continentes. Há 5 anos o Instituto Lula selou uma importante parceria com a União Africana e a FAO/ONU, para o desenvolvimento de políticas sociais e programas contra a fome naquele continente. Lula embarcaria para Adis-Abeba em voo de carreira, à 1h desta sexta, com retorno marcado para domingo. Por lealdade processual, a realização da viagem foi oficialmente informada pela defesa de Lula ao Tribunal Regional Federal da 4a. Região, antes do julgamento do recurso contra a sentença da Lava Jato. O sr. Ricardo Leite, que por seus muitos erros já teve seu afastamento solicitado pelo Ministério Público, intrometeu-se no assunto de forma descabida, extemporânea e injustificável. Cerceou o direito de ir e vir de Lula a poucas horas do embarque, provocando mais um constrangimento internacional para o nosso país. Não é a primeira vez que o sr. Ricardo Leite adota decisões descabeladas que lhe rendem holofotes mas envergonham o Judiciário. Em maio de 2016, ele decretou a suspensão das atividades do Instituto Lula, sem base na lei ou nos fatos, e foi rapidamente desautorizado pelo Tribunal Federal da 1a. região. Provocações como essa não vão nos intimidar. O PT e Lula seguirão firmes na luta contra a fome, no Brasil e no mundo, e na defesa dos direitos da cidadania. São Paulo, 25 de janeiro de 2018 Partido dos Trabalhadores

PAULO COELHO RESUME O BRASIL DA GRANDE HIPOCRISIA

 “Finalmente! Agora está tudo 100% no mundo político. Ministros impolutos, Congresso honesto, deputados que pensam apenas no bem do país, senadores que não acobertam crimes de seus pares, juízes que não se deixam pressionar pela mídia e, completando o quadro #LulaCondenado”  – Escritor brasileiro mais lido no mundo, Paulo Coelho resumiu em seu Twitter nesta quarta-feira 24, após a confirmação da condenação do ex-presidente Lula pelo TRF4 por 3 a 0, a hipocrisia em torno do resultado. Ele ironizou a condenação de Lula num momento em que crimes muito mais graves sequer foram investigados ou julgados, como as malas de dinheiro do ex-assessor de Michel Temer Rodrigo Rocha Loures, os R$ 51 milhões encontrados num apartamento de Geddel Vieira Lima (PMDB) em Salvador e o mandato do senador Aécio Neves (PSDB-MG) ter sido mantido por seus pares a despeito da comprovação de vários crimes contra Aécio. Nesta quarta, poucas hora depois do julgamento do TRF4, a PGR também arquivou um inquérito contra o senador José Serra (PSDB-SP), acusado de receber R$ 52,4 milhões em propina da Odebrecht. “Finalmente! Agora está tudo 100% no mundo político. Ministros impolutos, Congresso honesto, deputados que pensam apenas no bem do país, senadores que não acobertam crimes de seus pares, juízes que não se deixam pressionar pela mídia e, completando o quadro #LulaCondenado”, escreveu Paulo Coelho.

De Darcy Ribeiro para Lula: chore hoje, lute amanhã

 Meu caro Lula, Outra vez eu me sirvo deste menino que faz o tal Tijolaço para ser meu cambono. Medíocre, é verdade, mas é quem está à mão, fazer o quê? Para ver se revolvia a sua terra pouco fértil, mandei-lhe uma emanação, aqui do éter, para que ouvisse o que falei no enterro do Gláuber Rocha. Claro que não porque você esteja morto, como eu e ele, mas porque te quero sugerir que, como ele, esta noite, chore. Eu disse lá: “O Gláuber chorava, chorava convulsivamente. O Gláuber chorava a dor que todos devíamos chorar, a dor de todos os brasileiros. O Gláuber chorava as crianças com fome, O Gláuber chorava um país que não deu certo, o Gláuber chorava a brutalidade, a mediocridade, a estupidez”… Pois então, meu caro Lula, sinta-se livre hoje para chorar. Não por você, que sei, por já ter tido a sua idade e um câncer como você, sei que não liga mais para si mesmo. Nem eu, que me amava tanto e tão profundamente, dava muita importância a mim, a não ser pelo que podia fazer, dizer e escrever. E nesta ordem. Chore, Lula, chore. Mas chore só hoje. Que amanhã, como você se acostumou, é dia de ir cedo para a fábrica. Porque é muito parecido, não é? Moldar ideias é como moldar metais: é duro, cheio de asperezas e sujeito a acidentes que nos machucam. E é pior, até, porque não tem descanso, nem fim de semana, e a falta de uma rede nos faz doer as costas de macunaímas. Lula, os estatutos desta gafieira onde me encontro – não sei se é celeste ou infernal, porque não entendo um céu sem pecados e nem um inferno sem virtudes – impedem-me de te revelar o futuro. Posso apenas te dizer que não é fácil como o de quem morre e vira santo, porque depois que a gente desencarna, até os cínicos nos aplaudem. Quando a gente está vivo, nos acusam de tudo. A mim, usaram uma foto para dizer que eu me aliava a banqueiros do jogo do bicho. Como é que eu ia ser Secretário de Cultura do Rio de Janeiro, fazer o Sambódromo e cuidar do Carnaval sem encontrar os bicheiros das Escolas de Samba? Nos limites em que Deus controla minha língua – sou justo, não me reprime nos diálogos que travamos, porque Deus é onisciente mas aceita a dúvida, ao contrário dos bobalhões togados que te condenaram hoje, posso te contar só um pouquinho. Posso contar, apenas, o que já escrevi, e mando este menino que cavalgo mentalmente agora, vá buscar no meu “O Povo Brasileiro”: Cada vez que um político nacionalista ou populista se encaminha para a revisão da institucionalidade, as classes dominantes apelam para a repressão e a força. Eu mesmo sofri isso, como auxiliar de Jango. Só me deixaram voltar aos Brasil quando acharam – como vão achar você – prestes a morrer de um câncer que me levou um pulmão. Por isso, te digo, o que é ser preso perto de estar na iminência da morte? Não é a primeira vez que escrevo sobre você. A primeira foi quando ainda estava por aí, em 1989, e desabafei: Estou me cansando de ouvir falar de Lula com descaso. Qualquer advogadinho idiota, porque formado, se acha melhor que ele, mais preparado para governar. Um intelectual desses que leu meia dúzia de livros ou escreveu qualquer bobagem, um tecnocrata que desempenhou bem ou mal algum cargo, todos se acham melhores que Lula e falam dele sem sombra de respeito. Por que? Essa gente pensa que o exercício do poder, em postos de alta responsabilidade, cabe a uma categoria particularíssima de pessoas, na qual não incluiriam jamais um ex-operário ou um líder sindical, ainda que muito bem-sucedido. Não errei, não é? Nem eu nem você quisemos ser mártires – e eles, os grandões, também não querem, porque não há mídia que seja capaz de vencer mártires. Mas estes caras são tão imbecis, tão idiotas, que nos fazem isso. Como eles são filhos e netos de senhores de escravos, acham que nos atar ao tronco e vergastar, vai encher de medo a senzala. Na hora, sim, que ninguém é bobo de querer o chicote no lombo, mas lhes vai endurecendo o couro das mentes e deixando que elas não aceitem mais a servidão. Então, Lula, chore esta noite e acorde amanhã livre de rancores. Como um negro fugido, que os capitães de mato querem enjaular, seja sabido. Eles verão um nordestino, que mal escapou de ser gabiru, virar ainda mais gigante. Agora, por favor, não me obrigue mais a estas comunicações psicográficas e deixe que eu as reserve para a Dona Diva, aquela negra linda da Feira Literária de Parati, que é linda e 20 e tantos anos mais nova que eu -que a Catherine Deneuve nos abençoe. Quando eu mandar, daqui, uma edição revisada de O Povo Brasileiro, prometo, cuido do que você é, a metamorfose ambulante com que se define. Mas, antes, estou observando a borboleta voar. Via Fernando Brito – Tijolaço