Zé Dirceu: Subestimamos a direita e politizamos pouco a sociedade

O EM CIMA DA NOTÍCIA reproduz a entrevista que o ex-Ministro José Dirceu concedeu a Rafael Tatemoto, do Brasil de Fato, na segunda-feira 14/V – 4 dias antes de se entregar à Polícia Federal para cumprir prisão perpétua: ENTREVISTA Brasil de Fato | Ex-ministro Zé Dirceu analisa conjuntura brasileira e avalia deficiências de governos petistas Dirceu participa de encontro do PT em porto Alegre em 2013 / Foto: PT Apesar da convicção de que seria preso em breve, José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil no governo Lula e um dos principais formuladores políticos do Partido dos Trabalhadores (PT), se mantinha calmo quando recebeu o Brasil de Fato, na segunda-feira (14), para a última entrevista formal que daria antes de ter sua prisão determinada pela segunda vez. Dirceu se apresentou à Polícia Federal (PF) na tarde desta sexta (18) para cumprir a pena de 30 anos e nove meses de prisão confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) na última quinta (17). Quatro dias antes do prazo para, mais uma vez, ser encarcerado, o petista expressou apenas preocupações pessoais em relação à sua família. A grave situação não o impediu de realizar uma autocrítica em relação aos governos de que participou. Para ele, as questões centrais foram “subestimar a direita” e a “pouca politização e pouca disputa política” por parte do PT. De outro lado, um diagnóstico otimista: “Não é impossível derrotar os golpistas nesta eleição”. Para isso, é necessário ter “um candidato único no segundo turno”. A conversa abordou também temas como junho de 2013, a relação do PT com a mídia e as opções políticas tomadas nos últimos anos. Confira a íntegra abaixo. Dirceu é empossado ministro da Casa Civil pelo presidente Lula, em 2003 Brasil de Fato: A conjuntura atual é marcada pela queda de Dilma Rousseff. Quais deficiências da esquerda permitiram que isso acontecesse? Zé Dirceu: O golpe tem razões estruturais. Se você olhar a História do Brasil, vai verificar que de tempo em tempo –conforme o nível de organização, politização e, principalmente, ocupação de espaços institucionais, no sentido eleitoral, de governo e parlamentar, como também de auto-organização das classes populares— sempre há uma interrupção do processo. Foi assim em 1964 e se repetiu em 2016. Em outros momentos houve tentativa de golpe, como em 1955, tentativa de impedir a posse de Juscelino. Em 1945, Getúlio foi deposto por um golpe da cúpula das Forças Armadas, elegeu Dutra, voltou nos braços do povo e foi “suicidado” em 54. O golpe foi dado pelo que representavam histórica e estruturalmente a médio prazo as transformações que estávamos fazendo e o empoderamento político. As classes trabalhadoras criaram muitas vezes partidos, entidades, movimentos, mas foram abortadas pela repressão. Se você olhar a questão do pré-sal, dos bancos públicos, a política externa. A capacidade que o Brasil estava adquirindo, de ter autonomia, soberania e crescimento. As bases que estavam sendo criadas para um mercado interno, através da distribuição de renda. Participação nos Brics. Aqui a Unasul. O processo de crescimento de governos progressistas. Tudo isso pesou no golpe. Nós estamos em uma situação muito diferente de outros momentos. Nós temos um candidato que ganharia as eleições, temos partidos políticos, movimento social, seja rural, urbano ou sindical. Tem um nível de organização. A correlação de forças é desfavorável a nós, mas temos uma base social e política, um legado. Há um nível de conscientização razoável para travar a luta, até mesmo a luta institucional. Tanto é que eles, para fazer a eleição, têm que inabilitar o Lula. Já fizeram outras vezes. Os militares cassaram Jango, Juscelino, Jânio, Lacerda, Magalhães Pinto, Adhemar de Barros. Eles perderam as eleições em 66 e perderem de novo em 74, para o MDB. E perderiam no Colégio Eleitoral em 78. Liderança do movimento estudantil, Dirceu integrou a resistência armada à ditadura No caso particular, nós estivemos no governo um período maior: 13 anos e meio. Um processo bem longo de hegemonia política. Ganhar quatro eleições em um país como o Brasil não é para amador. Nossa debilidade talvez tenha sido não ter o nível de organização e mobilização para se contrapor ao tipo de golpe que tem sido dado agora em vários países, que é a mobilização de classes médias, às vezes de classes populares, muito apoio da mídia, a partir de razões muitas delas reais, muita intervenção externa e uso do Parlamento e do Judiciário. Foi o caso de Honduras, Paraguai e depois Brasil. O golpe foi a saída que tiveram para abortar a volta do Lula em 2018, que seria natural. Em 2014, ele deveria ter sido o candidato, mas optou por não ser. Elegeu a Dilma, mas poderia ter sido candidato. Mas o nível de conscientização, mobilização e capacidade de luta das classes populares foi de grande fragilidade, e continua sendo até hoje. Nós subestimamos muito a questão da luta contra a corrupção. A história do Brasil é a luta contra a corrupção. O Jânio foi isso. O Collor foi isso. O Golpe de 64 era contra a corrupção. Nós não nos preparamos para a possibilidade de ter um golpe. Desde 2005, no chamado Mensalão, nós erramos na avaliação do que estava acontecendo. Fomos recuando, fomos perdendo terreno. Por fim, eles puseram a cara para fora. Agora eles estão aí, querendo institucionalizar o golpe. Daqui a pouco criam um sistema político-eleitoral de mentira. Tirando o Parlamento, em que é difícil fazer maioria –por isso falam em semi-presidencialismo toda hora, porque a Presidência da República a gente pode chegar, se não for agora, daqui quatro anos. Eles não têm como impedir que a gente ganhe uma eleição presidencial. Ganhar quatro eleições em um país como o Brasil não é para amador. Nossa debilidade talvez tenha sido não ter o nível de organização e mobilização para se contrapor ao tipo de golpe que tem sido dado agora em vários paísesRepito: a prova disso é o banimento do Lula. Por que só ele está banido? Por que nenhum outro acusado “de corrupção”? Os processos contra os
Desalento – 27,7 milhões de pessoas sem emprego no Brasil

PESQUISA do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), publicada na quinta (17), mostra que o desemprego é ainda pior do que vem se anunciando. Falta trabalho para 27,7 milhões de pessoas. Destes, 13,7 milhões procuraram emprego mas não encontraram.A situação é ainda pior no Nordeste, a taxa chega a 15,9%. Esse é o maior contingente desde o início da série histórica, em 2012. A taxa de subutilização da força de trabalho, que inclui os desempregados, pessoas que gostariam de trabalhar mais e aqueles que desistiram de buscar emprego, bateu recorde no primeiro trimestre, chegando a 24,7%.O IBGE aponta recorde para a taxa de desalento da força de trabalho, que indica as pessoas que desistiram de procurar trabalho.No primeiro trimestre esse índice atingiu 4,1% – são 4,6 milhões de pessoas nessa condição, 60,6% deles na região Nordeste. Pesquisa revela descrença da sociedadeO avanço brutal do desemprego e arrocho da renda, sociedade sinaliza descrédito em relação às reformas de Michel Temer.Pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) mostra que 31,5% dos entrevistados a geração de emprego no país vai piorar. Em março, o percentual era 31%. Houve queda para aqueles que acham que a geração de emprego vai melhorar (21,7%), em março esse índice era de 28,9%. No quesito renda, 20,6% avaliaram que a renda pode aumentar nos próximos 6 meses, mas esse quantitativo também caiu. Em março essa expectativa era de 23,3%. O país do “se vira”Por Fernando Brito – Tijolaço Dias atrás, o senhor Michel Temer inovou na ciência econômica ao proclamar que os números que davam conta do aumento da desocupação de milhões de brasileiros eram fruto do “desemprego psicológico”. Na estranha e cínica deformação da mente temerina, o resultado se devia ao fato de que, com a “retomada” da economia, as pessoas que estava desalentadas, desistindo de procurar uma colocação, teriam “se animado” a procurar uma vaga, tamanha a nova pujança econômica. Aí vem o IBGE e prova que aquilo que parecia uma idiotice, afinal, uma idiotice mesmo. Porque aconteceu, sim, mas o contrário: desde o golpe, quase dois milhões de brasileiros desistiram de procurar um emprego e, como não podem desistir de viver e de dar comida para as crianças, foram “se virar”. Do comércio de rua, aos bicos – que rareiam – até o inimaginável. Diz a chamada de capa de O Globo, cruamente, que a taxa de desemprego só cedeu alguns décimos porque 500 mil pessoas saíram no mercado de trabalho para a inatividade em apenas um trimestre. Dá para imaginar o que nos aguarda logo adiante, agora que o que era ruim piorou e até a mídia oficialista aceita que estamos à beira de uma novo espasmo de crise? Segunda-feira, assisti uma destas operações de retirada da “casa” de moradores de rua, um amontoado de tapumes de obra feito para proteger um casa e seus dois fihos do frio da noite. Ontem, estavam lá outra vez, mas sem os tapumes e, claro, com o frio e a chuva. O que vi, qualquer um pode ver nas ruas de nossas cidades maiores, onde a solidariedade diminui à medida em que os prédios crescem. Vai piorar e piorar. O “Super-Homem Moro” e seus coleguinhas da Liga da Justiça, que transformaram o Brasil no paraíso da honestidade deveriam, ao menos, entender que o único auxílio-moradia que esta gente sem esperança está recebendo são os restos de tapume para abrigar sua miséria. Mas não vão, vão usar o mesmo conceito canalha do “desistiu de buscar emprego” como prova de indolência, como se os miseráveis deste país tivessem resolvido “viver de renda”.
PAPA FRANCISCO CONDENA GOLPES FORJADOS PELA MÍDIA

Na manhã desta quinta (17), na missa em Santa Marta, que o papa preside sempre que está no Vaticano, Francisco condenou o golpe de maneira dura. Sem citar o Brasil ou o nome de Lula diretamente, fez uma descrição perfeita do que acontece no país. O Papa descreveu à perfeição a situação brasileira: “a mídia começa a falar mal das pessoas, dos dirigentes, e com a calúnia e a difamação essas pessoas ficam manchadas”. Depois chega a justiça, “as condena e, no final, se faz um golpe de Estado”. A seguir a íntegra da reportagem do Vatican News, serviço de informação da Igreja Católica: Na missa celebrada esta quinta-feira (17/05) na Casa Santa Marta, o Papa Francisco dedicou a sua homilia ao tema da unidade, inspirando-se na Liturgia da Palavra. Existem dois tipos de unidade, comentou o Pontífice. A primeira é a verdadeira unidade de que fala Jesus no Evangelho, a unidade que Ele tem com o Pai e que quer trazer também a nós. Trata-se de uma “unidade de salvação”, “que faz a Igreja”, uma unidade que vai rumo à eternidade. “Quando nós na vida, na Igreja ou na sociedade civil trabalhamos pela unidade, estamos no caminho que Jesus traçou”, disse Francisco. A falsa unidade dividePorém, há uma “falsa unidade”, como aquela dos acusadores de São Paulo na Primeira Leitura. Inicialmente, eles se apresentam como um bloco único para acusá-lo. Mas Paulo, que era “sagaz”, isto é, tinha uma sabedoria humana e também a sabedoria do Espírito Santo, lança a “pedra da divisão”, dizendo estar sendo julgado pela esperança na ressurreição dos mortos”. Uma parte desta falsa unidade, de fato, era composta por saduceus, que diziam não existir “ressurreição nem anjo nem espírito”, enquanto os fariseus professavam esses conceitos. Paulo então consegue destruir esta falsa unidade porque eclode um conflito e a assembleia que o acusava se divide. De povo a massa anônimaEm outras perseguições sofridas por São Paulo, se vê que o povo grita sem nem mesmo saber o que está dizendo, e são “os dirigentes” que sugerem o que gritar: Esta instrumentalização do povo é também um desprezo pelo povo, porque o transforma em massa. É um elemento que se repete com frequência, desde os primeiros tempos até hoje. Pensemos nisso. O Domingo de Ramos é: todos ali aclamam “Bendito o que vem em nome do Senhor”. Na sexta-feira sucessiva, as mesmas pessoas gritam: “Crucifiquem-no”. O que aconteceu? Fizeram uma lavagem cerebral e mudaram as coisas. E transformaram o povo em massa, que destrói. Intrigar: um método usado também hoje“Criam-se condições obscuras” para condenar a pessoa, explicou o Papa, e depois a unidade se desfaz. Um método com o qual perseguiram Jesus, Paulo, Estevão e todos os mártires e muito usado ainda hoje. E Francisco citou como exemplo “a vida civil, a vida política, quando se quer fazer um golpe de Estado”: “a mídia começa a falar mal das pessoas, dos dirigentes, e com a calúnia e a difamação essas pessoas ficam manchadas”. Depois chega a justiça, “as condena e, no final, se faz um golpe de Estado”. Uma perseguição que se vê também quando as pessoas no circo gritavam para ver a luta entre os mártires ou os gladiadores. A fofoca é uma atitude assassinaO elo da corrente para se chegar a esta condenação é um “ambiente de falsa unidade”, destacou Francisco. Numa medida mais restrita, acontece o mesmo também nas nossas comunidades paroquiais, por exemplo, quando dois ou três começam a criticar o outro. E começam a falar mal daquele outro… E fazem uma falsa unidade para condená-lo; sentem-se seguros e o condenam. O condenam mentalmente, como atitude; depois se separam e falam mal um contra o outro, porque estão divididos. Por isso a fofoca é uma atitude assassina, porque mata, exclui as pessoas, destrói a “reputação” das pessoas. Caminhar na estrada da verdadeira unidade“A intriga” foi usada contra Jesus para desacreditá-lo e, uma vez desacreditado, eliminá-lo: Pensemos na grande vocação à qual fomos chamados: a unidade com Jesus, o Pai. E este caminho devemos seguir, homens e mulheres que se unem e buscam sempre prosseguir no caminho da unidade. E não as falsas unidades, que não têm substância, e servem somente para dar um passo a mais e condenar as pessoas, e levar avante interesses que não são os nossos: interesses do príncipe deste mundo, que é a destruição. Que o Senhor nos dê a graça de caminhar sempre na estrada da verdadeira unidade.
Emater sugere continuidade do Estado de Emergência em Montes Claros

A Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) divulgou, este mês, relatório agroclimatológico do município de Montes Claros relativo aos impactos da estiagem prolongada na zona rural e suas consequências econômicas e ambientais. O objetivo da Emater é repassar informações decisivas para a decretação ou continuidade de Estado de Emergência em Montes Claros. Ao documento, encaminhado à Defesa Civil da Prefeitura, foram incluídas planilhas e sugestões para elaboração de plano de ações de combate aos efeitos da seca. As causas apontadas pela Emater são baixa pluviosidade e má distribuição das chuvas, além de fatores como altas temperaturas e déficit no balanço hídrico. Os dados do relatório foram coletados no veranico de dezembro de 2017 a janeiro de 2018. Vale registrar que outro agravante é o fato de que, no ano agrícola, de 1 de julho de 2017 a 30 de junho de 2018, foram registrados 803,2 milímetros por metro quadrados, bem abaixo da média histórica, 1.077 milímetros. Via Ascom/Prefeitura de Montes Claros
Moro perdeu o decoro? Como perder o que não se tem? Por Fernando Brito

A polêmica em torno da foto posada ao lado de João Doria Jr, ontem, em Nova York foi classificada pelo juiz Sérgio Moro como “uma bobagem”. A esta altura, deve-se concordar com Sua Excelência. Não há mais decoro algum a preservar em sua figura e, portanto, não deve chocar ninguém que, outra vez, ele apareça, sorridente, ao lado de um tucano e, agora, de um candidato. E, igualmente, não há quem ponha freios na falta de decoro de juízes, há muito tempo. GIlmar Mendes, Joaquim Barbosa, Luiz Fux e Luís Alberto Barroso pisaram e sapatearam na discrição que deles se deveria esperar e, claro, só ganharam com isso na mídia. Moro quebra, faz tempo, não apenas o decoro, mas a legalidade e, disso, também só lhe advém aplausos e elogios. Como diz o jornalista Kennedy Alencar, em seu blog, nada espante porque, afinal, Moro “pode tudo”. Uma virtude, porém, deve-se encontrar na atitude desavergonhada do pequeno magistrado de província que se viu alçado à condição de juiz supremo do Brasil. É que sua desfaçatez tornou-se tão evidente que, a cada dia, a menos gente engana. Cada vez há menos iludidos, todos os que lhe permitem estes esparramos passam a merecer, mesmo, o nome de cúmplices. Moro nada seria não fosse tal cumplicidade, a de um Judiciário que nem mesmo se vexa de um escandaloso descumprimento da Constituição, com os privilégios de um auxílio-moradia “fake”, pago a quem mora no seu próprio e confortável imóvel. Decisão judicial não se discute, se acata, mesmo quando elas significam manter preso um ex-presidente que foi condenado em um processo pré-resolvido e soltar tantos outros em que há provas, contas no exterior e riqueza e ostentação inquestionáveis? Será que as coisas não se ligam, porque envolvem o mesmo conceito que Kennedy Alencar usou em seu texto? Eles podem tudo.
COMPRADOR DO TRIPLEX JÁ FOI CONDENADO EM FRAUDE LIGADA AO PSDB

Fernando Gontijo, um dos compradores do triplex atribuído a Lula, é bandido notório e processado por fraudar licitações. O seu sócio é um primo do presidenciável Alkmin. É tudo uma farsa, montada para denegrir a imagem do Lula, liderado pelo juizeco Moro O “empresário” Fernando Gontijo, que arrematou no último momento, por R$ 2,2 milhões, o triplex do Guarujá cuja propriedade foi atribuída, sem provas, ao ex-presidente Lula, foi condenado por improbidade no âmbito da Operação Confraria, deflagrada contra fraudes em licitações na Prefeitura de João Pessoa. Gontijo e outros oito sentenciados – entre eles, o ex-governador do Estado e ex-prefeito de João Pessoa Cícero de Lucena Filho (PSDB), devem pagar multa de R$ 852 mil, por superfaturamento de obras públicas de infraestrutura bancadas com dinheiro de convênios entre a União e a Prefeitura. Entre os projetos superfaturados, estão infraestruturas hídricas para comunidades ribeirinhas, dragagem e urbanização da Lagoa João Chagas e a dragagem do Rio Jaguaribe. Na ação, Fernando é apontado como representante da Via Engenharia em uma licitação que teria sido fraudada. Ele recorre da decisão ao Tribunal Regional Federal da 5ª Região. A Via Engenharia tem uma história mais irônica: está citada na Lava Jato, como se vê na matéria do Metrópoles: Fundada em Brasília na década de 1980, a empreiteira candanga é citada pelo delator Marcos Pereira Berti, diretor da Toyo Setal, como integrante de um grupo intermediário — uma espécie de Segunda Divisão — do chamado “Clube VIP” de construtoras que comandavam as fraudes em licitações da petroleira. As informações do executivo fazem parte de uma ação civil pública por improbidade administrativa apresentada, em 30 de maio, à 5ª Vara Federal de Curitiba. Assinam o documento a Advocacia-Geral da União (AGU), a Procuradoria da União no Paraná, o Grupo Permanente de Atuação Proativa da AGU e a Força-Tarefa da Lava Jato. O inquérito de 161 páginas ao qual o Metrópoles teve acesso acusa nove réus e sete empreiteiras de improbidade administrativa. São eles: os ex-diretores da Petrobras Paulo Roberto Costa, Renato Duque e Pedro Barusco Filho; o doleiro Alberto Youssef; os executivos da OAS José Aldemário Pinheiro Filho (conhecido como Leo Pinheiro), Agenor Franklin Magalhães Medeiros, Mateus Coutinho de Sá Oliveira, José Ricardo Nogueira Breghirolli e Fernando Augusto Stremel Andrade. As empresas são a OAS S/A, a Construtora OAS Ltda., a Coesa Engenharia Ltda., a Construtora Norberto Odebrecht, a Odebrecht Plantas Industriais e Participações S.A., a Odebrecht S.A. e a UTC Engenharia S/A. A ação civil pública, assinada por oito advogados da União, pede que os réus devolvam aos cofres públicos R$ 12 bilhões. (…) Apesar da negativa da empresa, outro delator da Lava Jato, o presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo, coloca sob suspeição uma das mais suntuosas obras da Via Engenharia. Segundo o executivo, o Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha é uma das construções em que houve sobrepreço para o pagamento de propinas e abastecimento de campanhas eleitorais. A arena, erguida pelo consórcio formado entre a Andrade Gutierrez e a Via Engenharia, tem custo estimado em R$ 1,7 bilhão — o maior valor entre as 12 praças desportivas construídas para a Copa do Mundo de 2014. A cifra, entretanto, pode chegar a R$ 1,9 bilhão graças a um último contrato adicional, que ainda está ativo, referente a intervenções ao redor da praça desportiva que até hoje não foram executadas. A Andrade Gutierrez confessou integrar o esquema para conseguir obras federais, incluindo estádios construídos para o Mundial. O caso veio à tona em novembro de 2015. Na ocasião, a Via Engenharianegou irregularidades à reportagem e afirmou “desconhecer as relações de outras empresas nos respectivos contratos com o governo”. Além do Mané Garrincha, a Via Engenharia assina obras emblemáticas de Brasília, como as sedes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), da Câmara Legislativa e o Shopping Popular.
Roberto Requião candidato a presidente da República pelo MDB

O senador Roberto Requião enviou uma carta à bancada do MDB no Senado, nesta terça-feira (15), informando coloca-se à disposição do partido na disputa pela Presidência da República e que baterá chapa na convenção nacional de julho com o ex-ministro dos bancos Henrique Meirelles. “É um insulto à consciência emedebista e à própria cidadania que dirigentes do Governo, os mesmos que levaram ao descalabro a economia, agora, confiados apenas em dinheiro, se apresentem como postulantes às eleições presidenciais”, diz um trecho da carta referindo-se a Meirelles, sem citá-lo nominalmente. O senador paranaense critica no documento as privatizações e a reforma da previdência, enfim, o modelo neoliberal que visa reduzir o espaço do Estado, ampliar o do setor privado e degradar o valor do trabalho, para facilitar os ganhos do grande capital financeiro. “Move-me unicamente o espírito da absoluta necessidade de colocar o PMDB na trilha de uma mobilização comum, para regenerar o País do virtual derretimento das instituições republicanas. Não é um ato de aventura”, diz a carta de Requião. Leia em seguida o texto integral da carta. Prezado companheiro senador(a)… Dirijo-me aos companheiros tanto como colegas da bancada do PMDB no Senado quanto na condição de participantes à convenção do que, em julho, definirá os rumos do partido em relação à sucessão presidencial. Acredito que todos partilham da mesma angústia que me tem assaltado nos últimos anos, quando reflito sobre o destino do Brasil e sobre o papel que nosso partido está desafiado a desempenhar no próximo quatriênio. Paira sobre nossas costas, como convencionais, o peso de uma responsabilidade jamais suportado por integrantes do PMDB, inclusive nos momentos históricos da redemocratização. Estamos caminhando para o quarto ano seguido de uma depressão econômica sem precedentes. Milhões de cidadãos e cidadãs, sobretudo jovens, estão sendo lançados fora do mercado de trabalho, sem perspectiva à vista de retomada do emprego. O sistema de seguridade social está esgarçado, com o propósito aparente de torná-lo ruim para facilitar sua privatização. Empresas estratégicas como Petrobrás e Eletrobrás, essenciais para o funcionamento da economia, estão igualmente listadas para privatização retalhada. O Governo está vendendo a água e a terra a estrangeiros. Este mesmo Governo, com nomes do PMDB mas sem a alma histórica do MDB, recusa-se a tomar qualquer medida efetiva de combate ao desemprego, confiando nas forças “cegas” do mercado, para revitalizar a economia. Acabamos de ver os resultados desse tipo de política na Argentina, levada mais uma vez ao caos pelos neoliberais. É o caminho que seguiremos, inevitavelmente, se não houver uma reversão radical da política econômica. A estratégia do Governo é simples: reduzir o espaço do Estado, ampliar o do setor privado e degradar o valor do trabalho, para facilitar os ganhos do grande capital financeiro. É um insulto à consciência emedebista e à própria cidadania que dirigentes do Governo, os mesmos que levaram ao descalabro a economia, agora, confiados apenas em dinheiro, se apresentem como postulantes às eleições presidenciais. São os feitores da emenda 95, a mesma que estabelece o congelamento do orçamento público por 20 anos, como se, nesse período, o país também ficasse congelado. Essa lei é uma das que temos a obrigação de submeter a referendo revogatório, como condição fundamental para a retomada do desenvolvimento, pois os neoliberais, naturalmente, não fariam isso. O projeto neoliberal está em derrocada na Europa, em vários países sul-americanos e especialmente na Argentina. No Brasil a derrocada avançou consideravelmente. E uma vitória completa desse modelo seria a privatização da Previdência, da Saúde, da Petrobrás e da Eletrobrás. E é isto que está na pauta também de pré-candidatos à Presidência que se preparam descaradamente para a convenção do PMDB, tentando dar legitimidade a iniciativas tão violadoras da tradição do partido como a tal Ponte para o Futuro, rejeitada nas instâncias partidárias próprias e realizada pelo Governo. Move-me unicamente o espírito da absoluta necessidade de colocar o PMDB na trilha de uma mobilização comum, para regenerar o País do virtual derretimento das instituições republicanas. Para tanto, estou disposto, desprovido de qualquer ambição pessoal que não o serviço ao povo, a apresentar meu nome à convenção do partido. Não é um ato de aventura. Esta carta serve como consulta prévia aos convencionais, e se encontrar parceiros nessa empreitada seguirei em frente. Posteriormente, encaminharei o discurso que pretendo dirigir à convenção, caso tenha apoio para disputá-la. Dos companheiros e companheiras espero que se movam com razão e emoção. A razão indica que temos poucas alternativas para tirar o país da crise econômica e institucional, mas com a liderança do PMDB reestruturado podemos fazê-lo a curto prazo, depois das eleições, pois a direita não tem alternativas viáveis, e a centro-esquerda ainda busca articulação unitária. A emoção indica que temos de nos mobilizar para oferecer um horizonte de esperança a nossas famílias e especialmente nossos jovens, tendo como primeiro passo de uma iniciativa vigorosa para afastar os entreguistas que tomaram conta dos postos chave da República. Embora essa iniciativa pareça solitária, tomo-a, para que ninguém, amanhã, possa dizer que me omiti. Filiado número um ao PMDB do Paraná, sempre PMDB, Roberto RequiãoSenador da República
Anastasia, o Dengo, recebeu mais de 8 milhões de propinas da Odebrecht

Identificado como “Dengo” na lista da Odebrecht, Antônio Anastasia teria sido o principal beneficiário, com recebimento de R$ 5,47 milhões em 2010, quando era candidato a governador do Estado. Ele também teria recebido R$ 3 milhões em uma dobradinha com o então candidato ao governo de Minas, Pimenta da Veiga (PSDB), o “Gordo”, em 2014. Na época, Anastasia era candidato ao Senado. Ninguém fala mais nada sobre os mais de R$ 22 milhões que foram destinados a 41 políticos mineiros como pagamento de caixa 2 em campanhas eleitorais pela Odebrecht, segundo planilha do delator Benedicto da Silva Júnior, o BJ, entregue ao Ministério Público Federal (MPF). Os repasses beneficiaram políticos de todas as esferas do poder, de vereadores e prefeitos a senadores e deputados. O montante representa 9% do total de R$ 246 milhões registrados na lista e repassados a políticos brasileiros, conforme o documento. Os senadores e ex-governadores de Minas Gerais Antonio Anastasia e Aécio Neves, ambos do PSBD, encabeçam o “listão”. Juntos, “Dengo” e “Mineirinho”, como são identificados na planilha, teriam recebido R$ 10,72 milhões. Anastasia teria sido o principal beneficiário, com recebimento de R$ 5,47 milhões em 2010, quando era candidato a governador do Estado. Ele também teria recebido R$ 3 milhões em uma dobradinha com o então candidato ao governo de Minas, Pimenta da Veiga (PSDB), o “Gordo”, em 2014. Na época, Anastasia era candidato ao Senado. O deputado federal Dimas Fabiano Toledo Júnior (PP), o “Filhinho”, aparece em terceiro lugar entre os mineiros que mais teriam sido beneficiados, com R$ 3,25 milhões. Como resposta ao pagamento, segundo o relator, o deputado representaria emendas e defenderia projetos do interesse da Odebrecht. Uma doação irregular de R$ 1 milhão teria sido feita ao ex-prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), codinome “Poste”. O repasse teria sido realizado em 2012, quando o político foi reeleito para o comando da capital, diz o documento. ‘Da Casa’Integrante da base de apoio de Aécio, o ex-governador Alberto Pinto Coelho (PP), vice de Anastasia, teria recebido R$ 825 mil. No detalhamento, o pagamento foi feito para que “Da Casa” trabalhasse no “desenvolvimento de projetos de infraestrutura de interesse da empresa”. Ex-presidente do PPS, diretor de habitação da Urbel no governo Lacerda e ex-diretor de Operação Metropolitana da Copasa, Juarez Amorim teria recebido R$ 300 mil para ser repartido entre candidatos do PPS em Minas. O pagamento ao “Doutor” teria sido feito em 2014. O vice-governador Antônio Andrade (PMDB), o “Wanda”, é o oitavo político na lista dos mineiros. Em 2010, quando era candidato a deputado federal, ele teria recebido R$ 275 mil. A justificativa é que Toninho teria disposição para apresentar emendas e defender projetos de interesse da companhia. Já o atual governador, Fernando Pimentel (PT), teria recebido R$ 250 mil sob o codinome “Do Reino”. O mesmo valor foi pago ao deputado estadual Gil Pereira (PP), o “Lagarto”, em 2010. Ele teria, conforme o delator, disposição para apresentar projetos de interesse da Odebrecht. Ao também tucano Rodrigo de Castro teriam sidos repassados R$ 250 mil, divididos entre os anos de 2010 e em 2012. Em 2010, ano em que era candidato a deputado federal, o pagamento foi realizado com a justificativa de que o político teria disposição para apresentar e defender projetos de interesse da Odebrecht. Em 2012, ano de eleições municipais, o recurso supostamente foi usado para apoio às bases políticas de Rodrigo. ‘Navalha’ Vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de BH, Wellington Magalhães (PTN) teria recebido R$ 155 mil para defesa dos interesses da empresa. O pagamento ao “Navalha” teria sido feito em 2012. Magalhães também é identificado com “Aço”. Citados negam ilegalidade nas doações de campanha Os políticos mineiros citados na reportagem negam envolvimento em esquemas de corrupção. Segundo Anastasia (PSDB), ele “nunca tratou de qualquer assunto ilícito com ninguém”. Por nota, a assessoria de Aécio Neves (PSDB) afirmou que os ex-executivos da Odebrecht não apresentaram provas documentais que apontem ato ilícito por parte do senador. “As doações feitas às campanhas do senador não envolveram nenhum tipo de contrapartida, de propina ou qualquer tipo de compromisso com a empresa, como atestou o próprio Marcelo Odebrecht no depoimento prestado”, diz o texto. Conforme Pimenta da Veiga (PSDB), o nome dele já foi excluído da lista pelo relator do processo. Dimas Fabiano (PP) reafirma que jamais manteve contato com qualquer executivo da Odebrecht, “não tendo sido destinatário de recursos alegadamente doados ou disponibilizados”. A assessoria de Marcio Lacerda (PSB) destacou que nos depoimentos não há acusação de corrupção contra o ex-prefeito. “Todos os recursos recebidos pela campanha foram oficialmente declarados e não houve caixa 2. Em nenhuma obra da gestão de Marcio Lacerda houve qualquer tipo de contrapartida, propina ou troca de favores”, diz a nota. Alberto Pinto Coelho (PP) informou, por meio da assessoria, que desconhece totalmente o teor da delação, bem como a motivação que originou tais menções. Juarez Amorim (PPS) se disse surpreso com o fato de ser citado pelo delator. Ele negou o envolvimento e disse que vai contratar um advogado para acompanhar o caso. O vice-governador Antônio Andrade (PDMB) afirmou que não recebeu nenhum valor da Odebrecht na campanha de 2010 e que todas as doações e despesas foram devidamente declaradas e aprovadas pela Justiça Eleitoral. Andrade disse, ainda, que o diretório estadual do PMDB, que é por ele presidido, recebeu recursos da empresa naquelas eleições, mas que os valores também foram devidamente declarados. Segundo o advogado de Fernando Pimentel (PT), Eugênio Pacelli, a planilha não tem credibilidade. “Não há nesta planilha nada que aponte um único dado concreto a ser respondido”, disse. O deputado estadual Gil Pereira afirmou que desconhece e repudia toda e qualquer ilação ou impropérios que envolvam sua conduta parlamentar. Wellington Magalhães (PTN) também negou as acusações. Segundo ele, a sua irmã, Arlete Magalhães (PV), também não está envolvida. A assessoria do deputado federal Rodrigo de Castro (PSDB) foi procurada, mas não se posicionou.
Sem um líder popular no Planalto, a festa será dos ratos de sempre

A charge do Laerte, na Folha de hoje, é o retrato pronto e acabado do que nos aguarda caso não ocorra a cada vez mais improvável normalização da disputa eleitoral, deformada pela intervenção autoritária de Sérgio Moro, com o afastamento de Lula. Por Fernando Brito – Tijolaço Teremos um presidente fraco – mesmo que de perfil autoritário, como Bolsonaro – numa situação que Bruno Boghossian, no mesmo jornal, define como “emparedado pelo Congress”. Congresso, claro, que ante à desgraça atual de sua composição, tende a confirmar a máxima de Ulysses Guimarães: “acha o Congreso ruim? Espere o próximo”. Como será capaz de sobreviver um presidente em uma selva onde políticos, juízes e mídia sabem que, se não for uma nulidade, não leverá mais que meses para que contra ele se arme um impeachment. Há alguém com lastro na opinião pública para resistir, chamando o povo? Mesmo Lula teria dificuldade, mais ainda Ciro Gomes, o único outro que admite que o novo presidente precisará remeter ao povo as suas decisões. Só que, antes disso, terá de passar pelo Congresso e pela Justiça, pois não tem poder legal para convocar plebiscitos. Eleições anormais não podem trazer de volta a normalidade. O que nasce torto nunca se endireita.
Lula diz que seu maior desafio é não odiar os que armaram contra ele
“De saúde, estou bem, sereno e firme no que é meu projeto de vida que é servir ao povo brasileiro como atualmente tenho consciência de que eu posso e devo. Você veio me trazer um apoio espiritual. E o que eu preciso é como lidar cada dia com uma indignação imensa contra os bandidos responsáveis por essa armação política da qual sou vítima e ao mesmo tempo sem dar lugar ao ódio”, disse o ex-presidente Lula ao monge Marcelo Barros, que o visitou ontem; no encontro, o monge disse a Lula que o Brasil sabe da inocência dele – a despeito da condenação sem provas no processo capitaneado por Sergio Moro e Deltan Dallagnol – e que seu sacrifício pessoal servirá como um instrumento de libertação do povo brasileiro A indignação profética de quem ama, por Marcelo Barros, monge beneditino – Desde que a justiça liberou visitas religiosas, fui o segundo a ter graça de visitar o presidente Lula em sua prisão. (Quem abriu a fila foi Leonardo Boff na segunda-feira passada). Eram exatamente 16 horas quando cheguei na dependência da Polícia Federal onde o presidente está aprisionado. Encontrei-o sentado na mesa devorando alguns livros, entre os quais vários de espiritualidade, levados por Leonardo. Cumprimentou-me. Entreguei as muitas cartas e mensagens que levei, algumas com fotografias. (Mensagem do Seminário Fé e Política, de um núcleo do Congresso do Povo na periferia do Recife, da ASA (Articulação do Semi-árido de Pernambuco) e de muitos amigos e amigas que mandaram mensagens. Ele olhou uma a uma com atenção e curiosidade. E depois concluiu: – De saúde, estou bem, sereno e firme no que é meu projeto de vida que é servir ao povo brasileiro como atualmente tenho consciência de que eu posso e devo. Você veio me trazer um apoio espiritual. E o que eu preciso é como lidar cada dia com uma indignação imensa contra os bandidos responsáveis por essa armação política da qual sou vítima e ao mesmo tempo sem dar lugar ao ódio. Respondi que, nos tempos do Nazismo, Etty Hillesum, jovem judia, condenada à morte, esperava a hora da execução em um campo de concentração. E, naquela situação, ela escreveu em seu diário: – “Eles podem roubar tudo de nós, menos nossa humanidade. Nunca poderemos permitir que eles façam de nós cópias de si mesmos, prisioneiros do ódio e da intolerância”. Vi que ele me escutava com atenção e acolhida. E ele começou a me contar a história de sua infância. Contou como, depois de se separar do marido, dona Lindu saiu do sertão de Pernambuco em um pau de arara com todos os filhos, dos quais ele (Lula) com cinco anos e uma menina com dois. Lembrou que quando era menino, por um tempo, ajudava o tio em uma venda. E queria provar um chiclete americano que tinha aparecido naqueles anos. Assim como na feira, queria experimentar uma maçã argentina que nunca havia provado. No entanto, nunca provou nem uma coisa nem outra para não envergonhar a mãe. E aí ele prosseguia com lágrimas nos olhos: _Agora esses moleques vêm me chamar de ladrão. Eu passei oito anos na presidência. Nunca me permiti ir com Marisa a um restaurante de luxo, nunca fiz visitas de diplomacia na casa de ninguém… Fiquei ali trabalhando sem parar quase noite e dia… E agora, os caras me tratam dessa maneira…_ Eu também estava emocionado. O que pude responder foi: – O senhor sabe que as pessoas conscientes, o povo organizado em movimentos sociais no Brasil inteiro acreditam na sua inocência e sofrem com a injustiça que lhe fizeram. Na Bíblia, há uma figura que se chama o Servo Sofredor de Deus que se torna instrumento de libertação de todos a partir do seu sofrimento pessoal. Penso que o senhor encarna hoje, no Brasil essa missão. Comecei a falar da situação da região onde ele nasceu e lhe dei a notícia de que a ASA (Articulação do Semi-árido) e outros organismos sociais estão planejando um grande evento para o dia 13 de junho em Caetés, a cidadezinha natal dele. Chamar-se-á _“Caravana do Semi-árido pela Vida e pela Democracia” (contra a Fome – atualmente de novo presente na região – e por Lula livre). A partir daquela manifestação, três ônibus sairão em uma caravana de Caetés a Curitiba para ir conversando com a população por cada dia por onde passará até chegar em Curitiba e fazer uma festa de São João Nordestino em frente à Polícia Federal. Ele riu, se interessou e me pediu que gravasse um pen-drive com músicas de cantores de Pernambuco, dos quais ele gosta. Música de qualidade e que não estão no circuito comercial. Vergonha. Nunca tinha ouvido falar de nenhum e nem onde encontrar. Ele me disse que me mandaria os nomes pelo advogado e eu prometi que gravaria. Distenção feita, ele quis me mostrar uma fotografia na parede na qual ele juntou os netos. Explicou quem é cada um/uma e a sua bisneta de dois anos (como parece com dona Marisa, meu Deus!). Começou a falar mais da família e especialmente lembrou um irmão que está com câncer. Isso o fez lembrar que quando Dona Lindu faleceu, ele estava na prisão e o Coronel Tuma permitiu que ele saísse da prisão e com dois guardas fosse ao sepultamento da mãe. No cemitério, havia uma pequena multidão de companheiros que não queriam deixar que ele voltasse preso. Ele teve de sair do carro da polícia e falar com eles pedindo para que deixassem que ele cumprisse o que tinha sido acertado. E assim voltou à prisão. A hora da visita se passou rápido. Perguntei que recado ele queria mandar para a Vigília do Acampamento e para as pessoas às quais estou ligado. Ele respondeu: – Diga que estou sereno, embora indignado com a injustiça sofrida. Mas, se eu desistir da campanha, de certa forma estou reconhecendo que tenho culpa. Nunca farei isso. Vou até o fim. Creio que na realidade atual brasileira, tenho condições de ajudar