Afeganistão: Talibã toma Cabul e volta ao poder após 20 anos

Combatentes do talibã em Ghanikhel, na província afegã de Nangarhar (Foto: Parwiz Parwiz / REUTERS) A entrada em Cabul ocorreu sem resistência O Talibã voltou ao poder no Afeganistão neste domingo (15), após intensa investida do grupo terrorista contra as principais cidades do país nas últimas semanas. A entrada em Cabul, a capital, ocorreu sem resistência, apesar de relatos de tiroteios esporádicos na madrugada de domingo. Com a tomada da capital, o Talibã volta ao poder após 20 anos. “Queremos uma transição pacífica e evitar derramamento de sangue”, afirmou à rede BBC um porta-voz do Talibã, Suhail Shaheen. O presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, deixou o país e entregou a autoridade para solucionar a crise aos líderes políticos. (Com informações da Folha de S.Paulo). Governo afegão desmorona após a chegada do Talibã a Cabul Presidente deixa o país enquanto os insurgentes entram na capital para assumir o poder 20 anos após a queda de seu regime de terror. O medo da violência se espalha pela cidade Vinte anos depois que a invasão dos Estados Unidos expulsou o Talibã do poder, o Afeganistão está mais uma vez à mercê da milícia fundamentalista. Os insurgentes cercaram Cabul neste domingo por todas as frentes antes de finalmente entrar na cidade, após uma ofensiva relâmpago em que conquistaram uma capital provincial após a outra em duas semanas (30 de 34), até tomarem mais de 90% do território do país da Ásia Central. Pouco depois que a captura de Jalalabad, perto da fronteira com o Paquistão e a única grande cidade do Governo fora de Cabul, foi anunciada pela manhã, a milícia começou o cerco ordenando a seus membros que evitassem derramamento de sangue. A saída do presidente Ashraf Ghani, conhecida horas depois, incorpora a imagem de um Governo em desintegração um dia depois de ele insistir em “remobilizar” suas forças para impedir um avanço dos talibãs, que é implacável desde que eles lançaram seus ataques em maio, coincidindo com o início da retirada das tropas americanas e seus aliados. Aquele que foi o grande rival político de Ghani e que se tornou o principal negociador do Governo afegão com o Talibã, Abdullah Abdullah, confirmou a saída do presidente, a quem se referiu como “ex-presidente”. O gabinete de Ghani se recusou a relatar o paradeiro do presidente “por razões de segurança”, mas algumas fontes sugerem que ele foi para o Tajiquistão com um círculo fechado de colaboradores. Horas após sua partida, Ghani garantiu que foi embora para evitar “um derramamento de sangue em Cabul”. O presidente afirma em mensagem publicada no Facebook que decidiu deixar o país para evitar confrontos com milícias fundamentalistas que teriam colocado em perigo os habitantes da capital. O ministro do Interior em exercício do Afeganistão, Abdul Sattar Mirzakwal, confirmou o início das negociações com o Talibã para entregar o poder a um governo de transição. Em uma aparição, ele indicou que “a transferência de poder para o governo de transição ocorrerá em um ambiente seguro e pacífico”, segundo a rede afegã Tolo News, citada pela Efe. Suhail Shahein, porta-voz dos insurgentes, garantiu em declarações ao canal britânico BBC que a milícia também busca uma transição pacífica de poder que ocorra nos próximos dias. “Não queremos um único civil afegão inocente ferido ou morto enquanto tomamos o poder, mas não declaramos um cessar-fogo”, disse um chefe do Talibã em Doha (Catar) à Reuters, onde negociações estavam sendo mantidas para o fim das hostilidades. Um porta-voz da milícia garante que agora estão negociando com o Governo a “rendição pacífica” de Cabul. No entanto, outros membros da milícia disseram à Reuters que não estão procurando um executivo de transição após sua vitória retumbante. De qualquer forma, o Talibã lançou apelos por calma e insiste que não busca a tomada do poder. Esses anúncios, no entanto, não impediram que o medo se apoderasse dos cerca de 4,5 milhões de habitantes de Cabul, além dos milhares de deslocados que fugiram de outras áreas por conta do avanço da milícia e se instalaram em parques e ruas. Na memória de muitos está o regime anterior do Talibã, entre 1996 e 2001, quando uma interpretação rigorosa do Islã foi aplicada, segundo a qual punições físicas, como chicotadas e amputações, eram impostas por crimes como roubo, e as mulheres eram forçadas a se cobrir com a burca e proibidas de estudar a partir dos 10 anos. Agora, os fundamentalistas tentam retratar uma imagem de maior pragmatismo e contenção. A iminência da chegada da milícia tem causado cenas de pânico e grandes engarrafamentos. Muitos cidadãos correram para os bancos para obter dinheiro e descobriram apenas então que o Governo restringira a retirada a 2.000 dólares. Os residentes de Cabul também começaram a estocar mantimentos em lojas que também estão prestes a fechar, por medo de uma insegurança prolongada, como aconteceu no passado, quando a cidade mudou de mãos. Algumas ruas estão desertas, enquanto outras ficaram congestionadas enquanto as pessoas correm para casa nos carros —o Governo impôs um toque de recolher. “As pessoas têm medo de possíveis saques generalizados por homens armados e criminosos, sequestros, ataques e outros atos imorais, como estupro. Tememos que haja um vácuo de poder “, disse Haji Imamd Dad, um funcionário público de 48 anos. Em algumas áreas, pequenos saques já foram relatados e dois policiais foram desarmados por uma multidão de jovens. As embaixadas aceleraram a evacuação de seus funcionários e as agências de viagens fecharam, segundo testemunhas. Os voos domésticos e internacionais de e para Cabul foram cancelados. Somente aviões militares dos Estados Unidos e de outras nações da coalizão internacional que apoiavam o Governo conseguiram retirar seus cidadãos e diplomatas, segundo fontes diversas. Fontes diplomáticas e a mídia local sugerem que Ali Ahmad Jalali, ex-ministro do Interior e acadêmico que se formou nos Estados Unidos, poderia chefiar um Executivo provisório de transição, embora não esteja confirmado se o Talibã concordaria. Segundo várias fontes, um grupo de líderes guerrilheiros entrou no palácio presidencial para falar com Ghani sobre uma transferência de
VIROU MODA – Veja o que aconteceu em 7 países onde a direita alegou fraude eleitoral sem provas

Experiências mostram que essa tática produziu instabilidade, mas não foi bem-sucedida em longo prazo Os ataques de Jair Bolsonaro (sem partido) ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) repetem uma tática usada em vários países pela direita no século 21. Segundo pesquisadores ouvidos pelo Brasil de Fato, o objetivo não seria mudar o sistema eleitoral em si, mas conturbar o processo, deslegitimar adversários e se apresentar como alternativa à “ordem global”. Por Daniel Giovanaz – Brasil de Fato Nos últimos oito anos, líderes conservadores difundiram essa mesma narrativa sem provas em pelo menos sete países, com diferentes consequências. Em quase todos, criou-se um ambiente de instabilidade, mas logo o discurso se enfraqueceu e os políticos que atacaram o sistema eleitoral perderam espaço. “Essa onda conservadora mais radical de extrema direita parece já ter atingido seu ápice, a ponto de os regimes democráticos já terem desenvolvido alguns remédios [contra essa narrativa]”, avalia o cientista político Vitor Marchetti. “A gente tem visto alguns sinais de que, do ponto de vista eleitoral, [essas correntes] ainda estão fortes e vivas. Mas, começa a se apontar no horizonte um movimento de arrefecimento.” Relembre alguns casos: Peru, 2021 Filha do ditador Alberto Fujimori (1990-2000), que governou o Peru entre 1990 e 2000, Keiko Fujimori não aceitou a derrota no 2º turno das eleições presidenciais, confirmada em julho deste ano. Já no 1º turno, a candidata havia listado supostas irregularidades ou estranhezas no processo de votação – sempre de maneira vaga e pouco precisa. Durante o 2º turno, ela pediu que os eleitores relatassem e enviassem aos organizadores de sua campanha quaisquer indícios de manipulação eleitoral ou fatos atípicos ocorridos durante a votação. Faltando 0,02% da apuração, assim que o candidato de esquerda Pedro Castillo passou à frente, Fujimori pediu ao Jurado Nacional Eleitoral a revisão de 1,2 mil atas de votação e anulação de cerca de 802 mesas eleitorais, abrangendo 500 mil votos. A vantagem de Castillo, naquele momento, era de 71 mil votos. O diretor do Jurado Nacional Eleitoral (JNE), Jorge Luis Salas, afirmou imediatamente à imprensa: “A candidata faz um desfavor à democracia ao falar de fraudes que não existem, não existiram e nem vão existir.” Diante das tensões, o Ministério da Defesa do Peru emitiu um comunicado reiterando o compromisso das Forças Armadas com a Constituição, democracia e a vontade cidadã expressa nas urnas. Os pedidos de revisão atrasaram em mais de um mês o reconhecimento oficial da vitória de Castillo. Presidente eleito do Peru, Pedro Castillo promete levar adiante proposta de reforma constitucional / Agência Andina Assim como Bolsonaro, a filha de Alberto Fujimori convocou várias vezes seus apoiadores às ruas para engrossar o coro contra o sistema eleitoral. No país andino, como mostrou a cobertura do Brasil de Fato, a estratégia fracassou porque o adversário conseguiu reunir ainda mais seguidores na capital Lima. Os eleitores de Castillo permaneceram mais de uma semana em vigília “em defesa do voto e da democracia.” Depois que o resultado das urnas foi respaldado por observadores internacionais e pela Organização dos Estados Americanos (OEA), Fujimori perdeu espaço na mídia local. Ao final do processo, ela deu um pronunciamento contraditório: disse que aceitaria a vitória “ilegítima” de seu adversário. Keiko Fujimori já esteve presa em duas ocasiões, como parte de um processo que a acusa de lavagem de dinheiro em contratos com a construtora Odebrecht. Em 31 de agosto, será realizada uma nova audiência com novas acusações. Segundo o procurador do caso, Rafael Vela, o partido de Fujimori, Força Popular, atuou como uma “organização criminosa” na captação de recursos para a campanha. Alemanha, 2021 Se no Peru a narrativa de fraude foi sepultada, na Alemanha esse discurso vem ganhando adeptos. Sem apresentar provas, o partido extremista AfD questionou o resultado das eleições no estado da Alta Saxônia em junho. Naquele pleito, o AfD foi derrotado pelo CDU, partido da atual chanceler Angela Merkel. Segundo o estudo Campanhas da desinformação contra a eleição: resultados da Alta Saxônia, do Instituto para Diálogos Estratégicos, da Inglaterra, militantes da direita radical inundaram as redes sociais de imagens editadas ou fora de contexto para sustentar a ideia de fraude. Jair Bolsonaro com a deputada de extrema direita Beatrix von Storch, do AfD, em julho / Reprodução/Instagram Beatrix von Storch “Na maioria das postagens, nenhuma suspeita específica era mencionada”, afirma o relatório britânico. A narrativa se baseava, simplesmente, na discrepância entre o resultado das eleições e as pesquisas prévias feitas pelo partido extremista. Nesse caso, o órgão eleitoral sequer autorizou recontagem dos votos, por considerar as denúncias frágeis e inconsistentes. Por outro lado, analistas locais afirmam que o clima de revolta e instabilidade que se criou em junho é um sinal de alerta para as eleições nacionais, que ocorrem em 26 de setembro. Uma das figuras mais conhecidas do partido AfD, criado há oito anos, é a deputada Beatrix von Storch, que visitou Bolsonaro no mês passado. Israel, 2021 O ex-premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, é o único da lista que não atacou o sistema eleitoral em si, mas a formação da coalizão que o derrotou. “Estamos testemunhando a maior fraude eleitoral da história do país e, na minha opinião, na história de qualquer democracia”, disse o aliado de Bolsonaro em junho. Netanyahu concentrou suas alegações na promessa descumprida pelo principal adversário, o nacionalista Naftali Bennett, de não se aliar a partidos árabes, de esquerda e de centro. Investigado por corrupção, Netanyahu estava no cargo desde 2009 e se recusou a cumprimentar seu sucessor no dia da posse. Os serviços de segurança locais alertaram para o risco de violência política, e membros do partido Yamina, que integra a coalizão vencedora, precisaram de escolta policial após receberem ameaças de morte. Como a narrativa de fraude eleitoral não decolou, o partido dele, Likud, colocou panos quentes na história. Pelas redes sociais, a organização informou que trabalharia para “uma transferência pacífica de poder em Israel” e que as palavras de Netanyahu haviam sido distorcidas. Sem chances de reverter a derrota, o aliado de Bolsonaro ordenou a destruição
Depois da líder neonazista, Bolsonaro conversa com príncipe acusado de matar jornalista

Agência oficial da Arábia Saudita confirmou que presidente brasileiro telefonou nesta sexta-feira (13) para Mohammed bin Salman, apontado como mandante do assassinato do Jamal Khashoggi, em 2018 Por Henrique Rodrigues – Revista Fórum A Agência oficial de notícias da Arábia Saudita divulgou que o presidente Jair Bolsonaro telefonou nesta sexta-feira (13) para o príncipe herdeiro do reino, Mohammed bin Salman, para tratar das relações bilaterais entre os dois países e apontar caminhos para uma agenda comum de desenvolvimento para as suas nações. O representante do país árabe teria ainda desejado boa saúde ao mandatário brasileiro, que esteve internado há um mês por conta de uma obstrução intestinal. Mohammed bin Salman, o número dois da monarquia que governa com mão de ferro o país que é maior produtor de petróleo do mundo, é acusado de ser o mandante do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, esquartejado no consulado saudita na Turquia, em 2018. Investigações realizadas por diferentes autoridades da comunidade internacional revelaram que as ordens para a execução de Khashoggi teriam partido o príncipe herdeiro, que via no jornalista um dissidente após uma série de críticas ao governo saudita, de sua autoria, terem sido publicadas na imprensa dos Estados Unidos. Jair Bolsonaro vem mantendo uma agenda de contatos internacionais controversa. Há algumas semanas ele recebeu a deputada alemã Beatrix von Storch, líder do partido radical de extrema direita AfD, que mantém notórias ligações com movimentos neonazistas. O encontro foi no Palácio do Planalto, sede do Executivo brasileiro, e despertou sérias críticas por parte de inúmeros setores da sociedade.
Peru anuncia saída do Grupo de Lima, bloco criado para atacar Venezuela internacionalmente

DIPLOMACIA – Novo ministro das Relações Exteriores também condenou bloqueio contra Cuba e avisou que a política será multilateral O Ministro das Relações Exteriores do Peru, Héctor Béjar anunciou que o país se retira do chamado Grupo de Lima, criado em 2017 para promover ações contra o governo venezuelano na Organização do Estados Americanos (OEA). “Faremos uma política conjunta e multilateral. Os sócios do Grupo de Lima mudaram sua política. Conversaremos com os membros sobre seus pontos de vista”, declarou o chanceler. Além do Peru, os governos da Argentina, Bolívia e México também já se desligaram do grupo, que corre o risco de ser extinto, já que conta com oito membros e perdeu sua sede simbólica, a capital peruana Lima. Em 2019, o Grupo de Lima foi um dos promotores da aplicação do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) contra a Venezuela, por considerar o país uma “ameaça regional”. Leia também: Presidente do México propõe a criação de um organismo para substituir OEA na região Béjar se reuniu com o chanceler venezuelano, Jorge Arreaza, no dia 30 de julho, para discutir relações bilaterais e políticas sobre migração. O Peru abriga cerca de 1,2 milhão de venezuelanos, segundo a Agência de Refugiados da ONU (Acnur). Tuve el honor de ser recibido por el Canciller de Perú, Héctor Béjar. Abordamos la recuperación de nuestras relaciones integrales, el comercio, políticas de atención a l@s migrantes y la necesidad de reforzar los mecanismos de unión en Nuestra América. pic.twitter.com/wKT3uPZLH3 — Jorge Arreaza M (@jaarreaza) July 30, 2021 Após o encontro, o ministro peruano foi questionado sobre a posição do governo em relação à administração de Nicolás Maduro. “Não vou opinar sobre a Venezuela. Meu dever como chanceler é melhorar as relações com a Venezuela, assim como com todos os países da região e do mundo”, declarou. Fim dos bloqueios Além disso, destacou que o governo peruano se soma às nações que exigem o fim do bloqueio econômico contra o povo cubano e venezuelano. Em março deste ano, o Conselho de Direitos Humanos da ONU já havia aprovado uma resolução que condena a aplicação de medidas coercitivas unilaterais. Somente o Conselho da União Europeia sanciona uma lista de 33 países, enquanto os Estados Unidos penalizam 34 nações. O chanceler recém empossado também disse que irá suspender o pedido de saída do Peru da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), que ao contrário voltarão a fortalecer o bloco, assim como irão retornar à Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac). Ex-guerrilheiro Héctor Béjar tem 85 anos, é advogado, sociólogo, e foi professor da Universidade Mayor de San Marcos. Na sua juventude participou do Exército de Liberação Nacional do Peru e do Movimento Esquerda Revolucionária (MIR – siglas em espanhol). Foi preso por quatro anos pela atuação como guerrilheiro. A inspiração para a luta armada veio dos anos em que acompanhou de perto o início da revolução cubana, ao lado dos líderes Fidel Castro e Ernesto Che Guevara. Em 2018, durante as eleições que garantiram o segundo mandato a Maduro, Héctor Béjar havia se manifestado em defesa do direito dos venezuelanos de “decidirem pelo seu próprio destino”. Via Brasil de Fato
Na Olimpíada, os EUA mudam até as regras para demonstrar hegemonia

Corredor dos EUA, Ronnie Baker, e da China, Su Bingtian, disputam prova de atletismo nos Jogos Olímpicos de Tóquio. – Jewel Samad / AFP New York Times adotou nova contagem de medalhas para se manter no topo do ranking dos jogos Estamos às vésperas do fim de mais uma Olimpíada, mas percebemos pudemos notar que levantamento de bandeiras, maratona de ideologias e ginástica de nacionalismo foram parte do megaevento esportivo. Ali, percebe-se que a política da medalha de ouro segue invicta, mostrando que o esporte continua sendo uma poderosa ferramenta de propaganda estatal. “Acho irônico que o Comitê Olímpico Internacional (COI) continue a se apresentar como uma organização apolítica porque o advento dos Jogos Olímpicos modernos foi político”, avalia Gerald Gems, professor emérito da North Central College. “A primeira edição da competição, em 1896, foi organizada por países ocidentais, promovendo modalidades específicas, também ocidentais. Quem quisesse participar tinha de se adequar a essas regras e esse grupo, como funciona até hoje. O COI ainda é controlado, basicamente, por homens brancos ocidentais”, completa. Gems lembra que todas as edições das Olimpíadas foram palcos políticos por diferentes motivos, seja pela busca de igualdade entre gêneros, pela inclusão de negros, de pessoas indígenas, entre outras disputas. O ápice do esporte como ferramenta política veio na edição de 1936, realizada na Alemanha de Hitler. “Ali o mundo viu duas ideologias políticas se enfrentando, com os americanos, e especialmente os atletas negros americanos, derrotando a chamada ‘super raça’ de Hitler’”, explica Gems. Rivalidade semelhante aconteceu durante a Guerra Fria, conforme explica o professor de história do esporte da Universidade da Califórnia, San Diego, Robert Edelman: “De um lado tínhamos o capitalismo, do outro o comunismo. Muita gente diz que, na impossibilidade de atacar um adversário com armas, o fazemos por meio do esporte, que traz à tona esse nível de competição.” A troca de farpas é uma modalidade recorrente nas Olimpíadas. Gerald Gems destaca que os Estados Unidos boicotam os Jogos Olímpicos de 1980, realizados em Moscou, por conta da invasão soviética do Afeganistão; quatro anos depois, foi a União Soviética que boicotou os Jogos Olímpicos, realizados em Los Angeles, nos Estados Unidos. “É tudo parte de um grande jogo político. Nesta edição isso ficou evidente com Taiwan, que só pôde participar com o nome Taipé chinesa, para não desagradar a China”, pontua Gems. Enquanto Taiwan afirma ser um país soberano e independente, e é reconhecido por algumas nações como tal, a China afirma que a ilha faz parte de seu território. A soberania de Taiwan é um assunto sensível nas relações internacionais. Não é de estranhar, portanto, que o topo do ranking dos Jogos Olímpicos seja um reflexo do que vemos no cenário geopolítico. Nas últimas edições do evento, Estados Unidos e China disputam o primeiro lugar do quadro de medalhas, sendo que na edição de 2016, no Rio de Janeiro, os asiáticos ficaram com a pole position por conquistarem o maior número de medalhas de ouro. Na contagem oficial, a medalha dourada tem peso maior que as demais. Neste ano, a China também aparece na frente dos estadunidenses, que resolveram mudar o critério do seu quadro de medalha para refletir sua vitória. O The New York Times passou a adotar o número absoluto de medalhas como critério de classificação, o que dá vantagem aos atletas dos Estados Unidos e coloca a delegação dos EUA no topo da lista. “Está claro que não é um manifesto esportivo, que é sobre hegemonia cultural, financeira e social. Estados Unidos e China sabem que as Olimpíadas são uma das maneiras que têm de demonstrar seu poder de fogo. Há anos a China vem desafiando os Estados Unidos, e é um fato que eles devem nos passar, economicamente, nos próximos 10 anos”, analisa Gems. Decisões individuais também são política, diz professor De acordo com Edelman, porém, nem todas as disputas políticas são tão claras. Enquanto outros Jogos Olímpicos foram marcados pela disputa entre países comunistas e capitalistas e protestos contra o racismo, a edição atual em Tóquio abriu espaço para a pauta “mais subjetiva” de Simone Biles. A ginasta estadunidense, dona de 32 medalhas olímpicas e mundiais, era a favorita ao pódio em Tóquio, mas desistiu de muitas de suas apresentações para proteger sua saúde mental. Na infância, a campeã olímpica Simone Biles sofreu abuso sexual do médico Larry Nassar. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil “Nem toda a manifestação política vista nas Olimpíadas é favorável ao país de origem dos atletas, como foi o caso de Biles, mostrando a pressão psicológica a qual é submetida”, afirma o professor da Universidade da Califórnia. Defensor dos protestos dos atletas, por entender que as Olimpíadas são e devem ser políticas, Edelman diz que faz parte do jogo a “exploração” dos campeões por políticos. “Cada líder tem um jeito de ser e uma troca com os esportistas, como vimos que alguns vencedores se recusaram, por exemplo, a visitar a Casa Branca de Donald Trump. Da mesma forma, houve atletas racistas que não compareceram ao escritório de Obama. Tudo isso é uma grande performance e elas vêm carregadas de simbologias”, analisa Edelman. Via Brasil de Fato
Prefeitura promove a aproximação de Montes Claros com a China

Texto: Daniel Moraes Fotos: Divulgação A Unimontes (Universidade Estadual de Montes Claros) está oferecendo certificações e cursos de formação 100% online, com o objetivo de preparar alunos e profissionais para o mercado de trabalho nas mais diversas áreas da computação, administração e gestão em TI. Os cursos resultam da parceria celebrada entre a Unimontes e a empresa chinesa Huawei e serão abertos a toda a comunidade acadêmica: docentes, discentes e servidores técnico-administrativos. As inscrições podem ser feitas neste link: https://uniportal.huawei.com/uniportal/?redirect=https%3a%2f%2fwww.huawei.com%2fen%2f%3fid%3d1628&lang=pt. Essa parceria e outras, como o convênio firmado entre a Unimontes e a Nanjing University of Chinese Medicine (NJUCM) como parte da rede de cooperação sino-brasileira de Medicina Tradicional para o Enfrentamento da Covid-19, são apenas os frutos mais recentes de um trabalho que conta com a participação, apoio e articulação da Prefeitura de Montes Claros. Um dos primeiros passos dessa aproximação Montes Claros/China foi dado em 2019, durante a realização da 24ª FENICS (Feira Nacional da Indústria, Comércio e Serviços de Montes Claros), no mês de setembro. Durante o evento de negócios, um dos mais relevantes do Norte de Minas, a Prefeitura promoveu o I Seminário de Inovação China-Brasil, que contou com a participação de representantes de mais de 20 grandes empresas chinesas, entre instituições financeiras, companhias de energia, siderúrgicas e fabricantes de celulares. A proposta do encontro foi promover a aproximação econômica e comercial entre Brasil e China, fomentando a comunicação entre empresas chinesas e brasileiras e o governo de Minas Gerais. Em dezembro do mesmo ano, na cidade do Rio de Janeiro, foi promovido o “Seminário sobre Inovação para Comércio Internacional de Serviços”, que reuniu representantes do governo chinês, do Ministério da Economia do Brasil, e dos governos estaduais de Minas, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Nessa ocasião, o prefeito de Montes Claros, Humberto Souto, foi representado pelo secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Turismo, Edilson Torquato, que também representou a Unimontes no evento. Segundo Edilson, a Prefeitura vem trabalhando incansavelmente para fortalecer os vínculos com o país oriental, especialmente com Taizhou, localidade chinesa com quase 5 milhões de habitantes, considerada cidade irmã de Montes Claros. Em maio deste ano, foi realizada uma reunião, de forma remota, entre o prefeito Humberto Souto e a vice-prefeita de Taizhou, que é uma referência no ramo de medicamentos, assim como Montes Claros. A ideia é que a troca de experiências entre as duas cidades venha fortalecer ainda mais a posição de Montes Claros como polo farmacêutico nacional. Edilson explica que as ações de aproximação de Montes Claros com a China só puderam acontecer devido ao apoio da empresa Sam Metais e do Consulado Chinês no Rio de Janeiro. “Todas as ações realizadas pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo seguem a orientação do prefeito Humberto Souto, no sentido de fazer de Montes Claros uma cidade cada vez mais desenvolvida e com uma economia sempre mais robusta”, conclui. Via Prefeitura de Montes Claros
Justiça Eleitoral oficializa vitória de Pedro Castillo no Peru

Após amplas mobilizações populares, a Justiça Eleitoral do Peru finalmente reviu e rejeitou as reivindicações da direitista Keiko Fujimori para anular os votos do professor Pedro Castillo, oficializando a vitória eleitoral do candidato da esquerda Após amplas mobilizações populares, a Justiça Eleitoral do Peru finalmente reviu e rejeitou as reivindicações da direitista Keiko Fujimori para anular os votos do professor Pedro Castillo, oficializando a vitória eleitoral do candidato da esquerda. Após uma longa espera de mais de um mês, o professor rural e sindicalista oriundo de uma das áreas andinas mais pobres do país será proclamado neste domingo, 18, presidente eleito. Ele assumirá o cargo em 28 de julho. A direita respondeu com violência nas ruas e com uma última manobra para atrasar a proclamação de Castillo, ao estilo de Donald Trump nos Estados Unidos, que Jair Bolsonaro ameaça imitar caso perca as eleições de 2022 no Brasil.
Corpos nas ruas e muita destruição: tempestades deixam mais de 150 mortes na Europa

Uma rua completamente destruída pela força da água na cidade de Erftstadt, no oeste da Alemanha, em 16 de julho de 2021 (SEBASTIEN BOZON/AFP) Cenário é destruidor com casas arrasadas pela força da corrente, árvores caídas, veículos arrastados, estradas e pontes afundadas ou corte de energia Alemanha e Bélgica começaram neste sábado(17) a gigantesca tarefa de limpeza e reconstrução das áreas devastadas por temporais nos últimos dias, que causaram pelo menos 165 mortes na Europa e um prejuízo de milhões de dólares, enquanto os serviços de resgate tentam encontrar o paradeiro de dezenas de desaparecidos. O número de vítimas continua a aumentar conforme as equipes de resgate entram nas áreas mais devastadas e encontram os corpos de pessoas presas em destroços deixados pelas intempéries, que também causaram danos materiais em Luxemburgo, Holanda e Suíça. De acordo com o último balanço deste sábado, as mortes foram de 165, 24 na Bélgica e 141 na Alemanha, que também registra centenas de feridos, concentrados principalmente nos estados ocidentais da Renânia-Palatinado e Renânia do Norte-Vestfália. Aos poucos, os moradores que tiveram que sair, quase fugindo, de suas casas ameaçadas pela água estão voltando. Muitos encontram um cenário desolador: paredes arrancadas pela força da corrente, árvores que caíram, veículos arrastados, estradas e pontes afundadas ou corte de energia. “Há 48 horas vivemos um pesadelo. Damos voltas e voltas e não podemos fazer nada”, disse Cornelia Schlösser à AFP, observando o péssimo estado da padaria da família na cidade de Schuld, afetada pelas enchentes. “Em questão de minutos, uma onda entrou na casa”, acrescenta.A chanceler Angela Merkel viajará pela região no domingo, com destino à cidade de Schuld, na Renânia-Palatinado, qualificada de “mártir” após ter sido quase totalmente devastada. Corpos nas ruas À medida que a água represada nas ruas começa a baixar e os serviços de emergência conseguem chegar até as regiões mais críticas atingidas pela enchente dos últimos dias, o estrago causado pela tormenta sem precedentes que castigou o oeste da Alemanha vai ficando mais evidente. De acordo com o último boletim divulgado pelas autoridades, mais de 150 pessoas morreram e centenas seguem desaparecidas. As situações mais críticas foram registradas nos Estados da Renânia do Norte-Vestfália e Renânia-Paladino, ambos localizados na fronteira com a Bélgica. Apesar do progresso nas buscas e da trégua da chuva, autoridades alertam que a situação ainda é preocupante, e há risco de rompimento ou transbordamento de barragens. O Estadão conversou com pessoas que testemunharam a destruição provocada pelas chuvas nos dois Estados. Nos relatos, ficam claros alguns dos efeitos diretos e indiretos da destruição provocada pela tempestade – comparada por um dos entrevistados ao furacão Katrina, nos Estados Unidos. Leia os relatos: Marco Kaschuba – Meteorologista e documentarista – Vale de Ahrweiler (Renânia-Palatinado) Eu sou meteorologista e documentarista especializado em forças da natureza. Já viajei ao redor do mundo: fui aos Estados Unidos para filmar furacões, à Itália para filmar vulcões e tempestades de neve… A previsão do tempo para o oeste da Alemanha apontava que haveria chuva pesada, de mais de 200 litros por metro quadrado. Isso me fez ir até a região de Ahrweiler, no vale do rio Ahr, que é uma região produtora de vinhos bem conhecida na Alemanha, com muitas montanhas e vales, o que o torna o local perfeito para ver enchentes se houver muita chuva. Eu cheguei no vale na quarta-feira, antes das inundações. Eu sabia que teríamos chuva forte, mas nunca imaginei que chegaria ao que realmente aconteceu. O houve foi uma catástrofe histórica. O volume máximo alcançado pelo rio, em altura, nos últimos 100 anos, era de 3,70 metros. Desta vez, chegou a algo em torno de 7 ou 8 metros, o que é uma loucura. Todos os vilarejos do vale foram atingidos fortemente. Quase mil pessoas são consideradas desaparecidas no momento. Dezenas de carros foram arrastados pela correnteza. Centenas de casas desabaram total ou parcialmente. Eu precisei subir às montanhas, porque o vale estava completamente coberto por água. Quando a enchente alcançou as vilas, todas as casas ficaram submersas. Carros flutuavam por onde antes eram ruas e era possível ouvir pessoas gritando por socorro. O pior momento foi a noite de quarta para quinta-feira, mas só depois que o sol nasceu na quinta é que pudemos ver a destruição brutal. Em todas as ruas haviam carros virados. Casas e restaurantes destruídos, corpos nas ruas. Pessoas procuravam por seus parentes, enquanto equipes de limpeza, militares e agentes da Cruz Vermelha procuravam por vítimas. Helicópteros resgatavam pessoas de seus telhados. Durante a noite de quinta para sexta, o céu ficou aberto. Nesta sexta-feira, o mesmo ritual se repetiu: equipes de resgate e de limpeza trabalhavam nos vilarejos, em busca dos desaparecidos. Eu ainda estou em choque. Deixei a região na tarde desta sexta-feira e estou em casa, em Reutlingen, a 200km de onde tudo se passou. Você havia presenciado alguma cena tão trágica quanto essa? Do rio destruindo os vilarejos? Talvez durante o furacão Katrina, no Mississippi, mas nunca em uma enchente em um vale europeu. Emanoella Martins-Fuhrmann – Enfermeira geriátrica – Solingen (Renânia do Norte-Vestfália) Faz duas semanas que está chovendo por aqui. Uma chuva fraca, constante. Na quarta-feira, quando eu acordei e olhei pela janela, já estava começando a alagar. Tem um estacionamento do lado da minha casa, e a água estava batendo no tornozelo. Eu comecei a pensar em como iria para o trabalho, mas vi que o transporte público estava funcionando. Consegui pegar os dois ônibus que normalmente pego para sair de Solingen e chegar a Langenfeld, onde fica o asilo de idosos em que eu trabalho como enfermeira. Quando eu cheguei lá, ainda estava relativamente normal. Durante o trabalho é que as coisas começaram a piorar. As sirenes do batalhão do Corpo de Bombeiros, que fica lá perto, começaram a tocar. E continuou assim toda hora. Eu não entendi muito bem porque estavam acionando tanto os bombeiros, mas uma colega explicou que quando chove assim, principalmente os porões inundam, e as pessoas chamam por socorro. Em
Suposto mandante do assassinato do presidente do Haiti é médico que morava nos EUA

Polícia do país caribenho chegou ao mentor do crime após interrogar 18 mercenários colombianos detidos como autores do atentado que resultou na morte de Jovenel Moïse A Polícia Nacional do Haiti informou que prendeu o suposto mandante do assassinato de Jovenel Moïse, presidente do país. O acusado é o médico haitiano Christian Emmanuel Sanon, de 63 anos, que morava em Miami, nos EUA, e tinha voltado à terra natal em junho. Segundo os dados da investigação revelados até agora, alguns dos 18 mercenários colombianos presos logo após o atentado teriam ligado diretamente para Sanon momentos depois do ataque. O médico, que estava numa casa de um bairro nobre de Porto Príncipe, foi detido no local e, de acordo com as autoridades, mantinha na residência armas, munições, um boné do DEA (o departamento norte-americano que combate o tráfico de drogas) e duas placas de automóvel da República Dominicana, país vizinho ao Haiti. Os executores do plano eram seus seguranças particulares e entraram legalmente com o médico no país num avião particular. Eles são funcionários de uma empresa venezuelana que presta serviços de escolta e proteção, com sede nos EUA. “A primeira pessoa para quem um dos criminosos telefonou foi Charles Emmanuel Sanon. Ele se colocou em contato com outras duas pessoas, que consideramos também mentores do assassinato do presidente”, declarou Léon Charles, chefe da Polícia Nacional do Haiti, em entrevista coletiva. O fato de Sanon viver em Miami e ter sido preso com um boné do DEA, que segundo testemunhas também eram usados pelos executores do plano, fez com que o governo dos EUA se pronunciasse para afirmar que não tem qualquer relação com o trágico episódio. Membros do FBI e do Departamento de Estado da gestão Joe Biden foram encaminhados ao Haiti para auxiliar nas investigações, confirmaram porta-vozes das duas nações. A ação, ocorrida na madrugada da última quarta-feira (7), deixou também a esposa do presidente haitiano, Martine Moïse, gravemente ferida. Ela foi transferida para um hospital e Miami e segue internada. Leia também: Ai de ti, Haiti – Por José Couto Nogueira* Haiti precisa novamente de ajuda internacional – Por Isaac Risco*
Ai de ti, Haiti – Por José Couto Nogueira*

O ex-presidente do Haiti, Jovenel Moise, com sua esposa e primeira-dama, Martine Moise, em 23 de maio de 2018, em Porto Príncipe (Hector Retamala/AFP) Pouco se fala do país mais pobre do Hemisfério Ocidental; só quando acontece alguma desgraça maior, no meio da desolação permanente. Agora foi o assassinato do presidente Jovenel Moïse, de 53 anos, por tantos motivos que ninguém sabe se teria sido apenas um (droga?), ou vários. O mundo cresce e o Haiti esmorece; sempre foi assim. O ex-presidente do Haiti, Jovenel Moise, com sua esposa e primeira-dama, Martine Moise, em 23 de maio de 2018, em Porto Príncipe A última vez que nos lembramos de falar no Haiti foi aquando do terremoto devastador de 2010, ou da epidemia de cólera que se lhe seguiu. Também houve protestos sobre a forma como a bem-intencionada ajuda humanitária das Nações Unidas desapareceu sem mostrar qualquer benefício para a população. Ninguém sabe se os bilhões foram absorvidos pelas autoridades locais e importadas (houve um corpo de intervenção liderado pelo Brasil), ou pelas ONGs que se multiplicaram no terreno. Nove mil milhões de dólares desapareceram de todas as maneiras possíveis, e hoje o país continua tão pobre e desesperado como em 2010. Leia também Haiti precisa novamente de ajuda internacional – Por Isaac Risco* Certamente não falamos no Haiti das inúmeras vezes que a política local, completamente disléxica, produziu revoluções e mudanças de presidente. Ao contrário da fome, que perturba o mundo todo, mas ninguém no mundo faz nada, a situação política não parece interessar nem os norte-americanos, que mandaram no país durante a época em que se metiam em tudo o que mexesse ao Sul do Rio Grande. Atualmente, para quem queira saber os pormenores, só há dez dos trinta membros do Senado porque os outros terminaram os mandantos há mais de um ano, o parlamento não tem ninguém, porque os mandatos acabaram o ano passado, e o presidente do Supremo Tribunal acaba de morrer de Covid. O judiciário também está paralizado, com os juízes em greve para chamar a atenção para o perigo que a carreira representa. As gangues que entretanto se formaram não levam a bem condenações em tribunal, nos poucos casos que chegam a julgamento. Segundo a opinião de Didier Le Bret, ex-embaixador francês no Haiti, está tudo na mão do Primeiro Ministro interino, Claude Joseph. Interino, porquê? Porque foi demitido há dois dias pelo presidente asssassinado, o sétimo durante os anos Möise, e o seu substituto, Ariel Henry, neurocirurgião, ainda não tomou posse. Möise governava por decreto há mais de um ano e deixou passar o calendário de eleição presidencial, pelo que era, na prática, um ditador. A presente situação data da eleição de Michel Martelly em 2011, com uma deterioração geral da segurança. Serviços básicos nunca houve, ou o pouco que havia desapareceu no terremoto de 2010. Martelly aguentou e reprimiu diversas revoltas e conseguiu terminar o mandato, passado a presidência para Möise, em 2015. Moïse era precisamente um dos envolvidos no escândalo dos dinheiros internacionais. Exportador de banana, teria emitido faturas falsas para cobrir desvios do dinheiro enviado pelas Nações Unidas. A eleição foi complicadíssima, tanto que ele só tomou posse 14 meses depois de eleito. A oposição nunca levou a sua vitória a bem, o que provocou uma paralização dos serviços públicos, mesmo a tempo para a chegada da pandemia de Covid-19. Aliás, o Haiti é o único país do mundo com zero vacinados, depois de ter recusado a oferta de AstraZeneca dentro do programa Covax, alegando que não era segura (Por favor, não ria. Isto é um dramalhão sem espaço para humor). É interessante notar que o Haiti foi o primeiro país da América Central a conquistar a independência, em 1803, quando os escravos se revoltaram, derrotaram as tropas enviadas por Napoleão e massacraram todos os colonos que os exploravam sem dó. Mas, ao contrário de outros países que mais tarde também conseguiram tornar-se independentes, não havia uma classe média para substituir os senhores franceses. O herói da resistência, Toussaint Louverture (os haitianos costumam ter nomes que parecem inspirados no Asterix), foi morto em combate. Quem conseguiu a vitória final foi o seu lugar-tenente, Jacques Dessalines, mas, como retaliação, a França e a Europa colocaram o país na lista negra, exigindo compensação às famílias dos colonos que tinham escapado. Durante 60 anos o país permaneceu isolado na sua miséria e ignorância, sem quadros nem maneira de os arranjar. Até ao princípio do século 20, houve 20 presidentes, sendo 16 depostos ou assassinados. Finalmente, em 1915, chegaram os norte-americanos, que governaram direta ou indiretamente até 1946, quando permitiram a eleição do primeiro presidente negro, Dusmarsais Estimé. Mais agitação, até surgir o primeiro populista moderno, François Duvalier, eleito em 1957, e que governou com mão de ferro. Com os seus famigerados tontons macutes, Papa Doc manteve-se vitaliciamente e passou o saque para o filho, conhecido como Baby Doc, em 1971. Mas o Baby era sobretudo um menino mimado, educado na Suiça (sim, educado na Suiça) e não soube lidar com a violência necessária para manter o poder, embora se esforçasse bastante. Exilou-se na França em 1986, quando a situação se tornou insustentável. Para encurtar uma longa e dolorosa história, em 1994 os norte-americanos mandaram tropa e impuseram o padre salesiano Jean-Bertrand Aristide, que se aguentou até 2004. Levado quase à força pelos marines, Aristide exilou-se na África do Sul. As Nações Unidas criaram uma Missão para a Estabilização no Haiti (Minustah) constituida por militares de vários países e comandada pelos brasileiros. Em 2010 aconteceu o terremoto. Entretanto, muitos haitianos tinham emigrado para os Estados Unidos, sobretudo quando da grande fome da década de 1980. Lá conheceram duas instituições muito específicas, a violência armada e as gangs de narcotráfico. Muitos acabaram por voltar e nos últimos anos a violência no país tem passado rapidamente da política para o gangsterismo. Regularmente são asssinados estrangeiros das ONGs que ainda insistem em ajudar e a violência entre grupos armados, que incluem militares, não pára de crescer. Por