‘Passaporte Verde’ – Europa decreta apartheid contra países pobres

 Diante da omissão do governo brasileiro, estudantes estão entregues à própria sorte O Parlamento Europeu aprovou no último dia 9 o chamado “passaporte verde”. O objetivo dessa medida é facilitar a circulação de pessoas dentro da União Europeia com um certificado digital que funcionará como um cartão de embarque de viagens, atestando se determinada pessoa já está com as doses completas de vacina contra a Covid-19, se está totalmente recuperada da doença ou ainda se possui teste de PCR negativo. Tal acordo teria vindo para reaquecer o turismo europeu no verão que se aproxima. Embora pareça um avanço para a movimentação interna de pessoas e configure uma imagem positiva se pensarmos os caminhos de superação da pandemia, decisões como essa representam também um fechamento da Europa para alguns países que não compõem o que eles definem como “lista verde”. A princípio, tendemos a ver como sensatos tais planos que combinam abertura gradual com manutenção de restrições para a contenção da atual pandemia. Porém, se olharmos mais a fundo veremos as desigualdades que tais projetos geopolíticos dos países ricos encerram. Até o início deste mês, 18% da população global tinha sido vacinada com pelo menos uma dose de vacina contra a Covid-19. Todavia, mediante uma comparação mais específica, temos um quadro bem desequilibrado: nos países desenvolvidos, aproximadamente 36% da população já recebeu ao menos uma dose da vacina, ao passo que em países asiáticos (excetuando-se a China) a vacinação atingiu apenas 7% da população; na América do Sul esse valor fica abaixo dos 6% e no continente africano esse montante cai para apenas 2%. Nesse quadro da vacinação, os países da União Europeia sozinhos representam mais de 12% do total de doses aplicadas no mundo . O Brasil, que já foi um líder global em matéria de vacinação, ocupava no dia 9 de junho o 72º lugar no ranking de aplicação das vacinas de Covid-19, comparando-se percentualmente a aplicação da primeira dose em 190 países. Se pensarmos no ritmo da vacinação, o cenário é ainda pior para o Brasil sob a égide do governo Bolsonaro: estamos em 89º. Esse é um dos pontos em que o passaporte da vacina afeta o Brasil diretamente. Cabe mencionar o caso de imigrantes com alta qualificação, de pesquisadores brasileiros que são totalmente penalizados, como mostra uma reportagem do Dom Total de 11 de maio a respeito de 34 pesquisadores que podem perder suas pesquisas de doutorado no exterior por não estarem vacinados contra a Covid-19. Trata-se de uma situação grave que explicita não apenas protocolos sanitários de outros países em relação à imigração de brasileiros, mas, sobretudo, a incompetência completa do governo Bolsonaro em assuntos externos. A imagem do Brasil no palco internacional foi completamente destruída pelo ex-chanceler Ernesto Araújo, que conduziu o Ministério das Relações Exteriores brasileiro de janeiro de 2019 a março deste ano. Ademais, no caso específico de pesquisadores que perderão seus estudos no exterior por não terem sido vacinados ou por outros impedimentos derivados do contexto pandêmico, soma-se a inépcia do Ministério da Educação que não propõe nenhuma negociação com universidades estrangeiras para o livre trânsito de estudantes. Ante o silêncio crasso do Itamaraty e as negligências do MEC, a internacionalização da pesquisa brasileira agoniza, com os pesquisadores abandonados à sua própria sorte. O máximo que o Ministério das Relações Exteriores oferece aos cidadãos brasileiros que estão em vista de irem ao exterior é um portal de notícias sobre restrições vigentes de entrada em cada país. Ou seja, nossa diplomacia se restringe a um boletim informativo, a uma compilação de informações que qualquer site comercial de viagens já faz. Somando-se à patente omissão do Itamaraty, no que diz respeito especificamente às relações Brasil-Europa, vemos que proibições em maior ou menor grau a profissionais e pesquisadores brasileiros já tinham sido criadas desde o início da pandemia na maioria dos países europeus, em decorrência do aparecimento de novas variantes do coronavírus. O exemplo mais severo é o do governo espanhol: desde o dia 2 de fevereiro deste ano, os voos que saem do Brasil em direção à Espanha só são permitidos caso estejam ocupados apenas por cidadãos ou residentes permanentes daquele país: estudantes e trabalhadores estão impedidos de voar . O fato das restrições espanholas a voos brasileiros se torna mais emblemático se pensado pela temática atual do “passaporte da vacina”, pois a Espanha segue proibindo brasileiros ainda que estejam vacinados. Para se ter uma ideia da rigidez desses impedimentos, até cônjuges ou parentes de pessoas que vivem em solo espanhol são proibidos de voar do Brasil à Espanha, mesmo tendo tomado as doses completas de alguma das vacinas aceitas pela União Europeia. Por outro lado, a Espanha retirou as barreiras para turistas vacinados de outros países e, curiosamente, abriu totalmente as fronteiras para viajantes do Reino Unido, que não precisam mais apresentar nenhum documento relacionado à Covid-19, como exame PCR negativo, certificado de vacinação ou de recuperação. Os interesses são bem claros: movimentar o turismo com pessoas advindas de países ricos. Além disso, o “passaporte da vacina” pode significar uma solução para a “crise migratória” no Velho Mundo: ele impede ou dificulta ao máximo a imigração legal de pessoas advindas de países pobres, ou seja, de países sem vacina contra a Covid-19. Quanto aos imigrantes “ilegais”, os europeus já resolvem esse problema em grande parte com os afogamentos no Mar Mediterrâneo. Em vista dessa intensificação das desigualdades que se formam no atual contexto mundial, é preciso defendermos uma ideia de cooperação internacional que vá muito além da propaganda construída pelos “países doadores de vacina”, que não seja reduzida à lógica da filantropia do G7. Nesse sentido, a consequência que vemos desse “novo normal” do “passaporte verde” no cenário geopolítico é o fechamento dos países desenvolvidos em blocos de privilegiados – um apartheid referendado pelo discurso médico da pandemia e apoiado pelas populações mais abastadas e vacinadas como uma medida sanitária necessária, a qual significa, na realidade, uma política de higienização global. Dom Total

Peru elege o professor Pedro Castillo; saiba quem é o presidente eleito do país andino

O presidente Jair Bolsonaro reconheceu a vitória “do cara do Foro de São Paulo” durante discurso em Anápolis (GO) O professor de esquerda Pedro Castillo, do partido Peru Livre, venceu a eleição presidencial contra a conservadora Keiko Fujimori. Com 99,868% dos votos apurados, Castillo ocupa o primeiro lugar, obtendo 50,194%, enquanto o representante do Fuerza Popular registra 49,806% do apoio. A distância entre os dois, agora a favor do ex-líder do Peru Livre, é de 67.559 votos e 0,389 pontos. O presidente Jair Bolsonaro lamentou a eleição “do cara do Foro de São Paulo”. A “Perdemos o Peru”, disse. “Perdemos agora o Peru. Voltou, ao que tudo indica, falta 1% de apuração lá, só um milagre para reverter, vai reassumir um cara do Foro de São Paulo. Olha a nova Constituinte do Chile”, reconheceu Bolsonaro em discurso em Anápolis (GO). Keiko perdeu no voto, portanto. Fujimori nunca mais, confirmaram os peruanos nas urnas. Quem é Pedro Castillo, o presidente eleito do Peru Pedro Castillo, 51 anos, é um professor do ensino primário com mestrado em psicologia educacional. Ele ganhou notoriedade em 2017 ao liderar uma greve de professores em várias regiões do país que durou 75 dias. Os manifestantes exigiam, entre outras coisas, um aumento salarial para professores peruanos. O símbolo da campanha de Castillo, um lápis gigante, mostra qual foi a pegada na sua caminhada eleitoral rumo à “Casa de Pizarro” –sede oficial do governo do Peru. Em sua campanha, que lhe garantiu a vitória no primeiro turno, ele propôs que educação e saúde sejam considerados direitos fundamentais dos peruanos, bem como o combate à corrupção –calcanhar de Aquiles de sua adversária, Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori. Castillo concorreu à Presidência do país andino pelo partido “Peru Libre”, que se define como uma agremiação marxista-leninista. O virtual presidente eleito é um “ex-rondero” (membro da ronda de camponeses, uma organização de defesa da comunidade). Subestimiado pela direita e pela esquerda, a candidatura de Castillo cresceu especialmente nas duas semanas que antecederam as eleições. O lema de Pedro Castillo na campanha foi “nunca mais um homem pobre em país rico!” Castillo propõe convocar uma nova Constituição Política, por meio de uma assembleia constituinte, para atribuir ao Estado um papel ativo como regulador do mercado. Nesse projeto, o virtual presidente peruano deseja a nacionalização de setores estratégicos como mineração, gás e petróleo.

Em edição especial, ‘The Economist’ critica Bolsonaro e vê ‘década sombria’

Cristo Redentor respira com uma máscara de oxigênio (Reprodução) Reportagem mostra situação do Brasil e diz que presidente quer destruir as instituições A revista britânica The Economist, uma das mais conceituadas publicações do mundo, traz nesta semana uma edição especial sobre o Brasil com uma série de críticas ao governo Jair Bolsonaro. Como em outras vezes que se referiu ao país, a revista traz na capa uma nova ilustração do Cristo Redentor, desta vez respirando com uma máscara de oxigênio. No especial, que é capa da revista sob o título ‘A década sombria do Brasil’, a revista descreve o presidente brasileiro como um homem que quer “destruir as instituições, não reformá-las”, “esmagou todas as tentativas” de uma exploração sustentável da Amazônia e revelou serem “falsos” todos os votos favoráveis à renovação política. Ao citar o apoio dos militares a seu governo, a revista diz que os generais que se aliaram a ele “esperavam fazer avançar a agenda do Exército” mas, “em vez disso, prejudicaram suas reputações” e afirma que, “sob Eduardo Pazuello, o Ministério da Saúde parecia uma ‘boca de fumo’ (escrito em português e traduzido) para hidroxicloroquina”. O especial termina com uma reportagem intitulada “Hora de ir”, que afirma que o futuro do país depende do resultado de 2022. O texto cita o apoio dos militares ao atual presidente, mas destaca o ônus aos generais em apoiar o presidente e os riscos de Bolsonaro, e seus apoiadores cada vez mais armados, não aceitarem um resultado adverso nas urnas. Em março de 2016, a revista deu a foto da então presidente Dilma Rousseff na capa, também com o mesmo título, “Hora de ir”. A reportagem aborda a dificuldade dos partidos de centro em encontrar um nome em comum para a disputa do pleito e, ao citar Lula, que lidera as pesquisas eleitorais, afirma que o ex-presidente “precisa mostrar como o manejo da pandemia custou vidas e formas de sustento, e como Bolsonaro governou para sua família e não para o Brasil”. Para a Economist, “o ex-presidente deve oferecer soluções, não ‘saudades’ (escrita em português e traduzida como nostalgia)” dos anos em que governou o país. Para a revista, “para voltar aos trilhos, o Brasil deve lidar com velhos problemas”, citando favorecimentos fiscais para a indústria e para funcionários públicos e leis tributárias e trabalhistas que distorcem ou desencorajam o investimento. A reportagem foi a locais como Camaçari, na Bahia, para mostrar o “sonho adiado” das pessoas que ascenderam à classe C ao longo dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva mas que, depois de uma série de problemas listados pela publicação (em especial as medidas econômicas adotadas no governo Dilma Rousseff), passaram a viver em um contexto de desemprego e queda de renda. O retrato é Vinícius Rabelo, um neto de plantadores de mandioca que trabalhou na fábrica (recém-fechada) da Ford na cidade e que, hoje, vive como motorista de Uber. A revista cita uma série de problemas que levaram a esse quadro, passando por uma falha do PT em não investir em uma infraestrutura que prometesse ganhos de longo prazo, a política econômica de Dilma, um controle de gastos nunca realizado pelo País e, por fim, a crise do coronavírus e a baixa taxa de vacinação. Porém, a revista aponta “vislumbres de esperança” com a agricultura em alta, as commodities voltando a terem preços em alta e, no caso de Camaçari, a transformação da cidade em um hub logístico entre Salvador e o oeste da Bahia. ‘Andando para trás’ Menos otimista é a reportagem “Andando para trás”, que aborda o fim da Operação Lava Jato sob o governo Bolsonaro e a aliança malsucedida entre o presidente e o juiz da operação, Sergio Moro “que estava orientando promotores inapropriadamente” durante as investigações. O texto descreve os retrocessos no País para o controle da corrupção, mesmo após toda a investigação feita a partir das delações de executivos da Odebrecht, e ainda cita os esforços do presidente, tensionando as instituições, para proteger os filhos de investigações criminais. A reportagem diz que o caso do “tratoraço”, revelado pelo Estadão, em que o Ministério do Desenvolvimento destinou até R$ 3 bilhões para compras suspeitas de superfaturamento para parlamentares, “minou as alegações de Bolsonaro de que não houve nenhum escândalo desde que ele assumiu o governo”. A Economist foi ainda para o Território Sete de Setembro, terra indígena na divisa entre Rondônia e Mato Grosso, na reportagem mais longa do especial, “Árvores de dinheiro”, que disseca os conflitos entre indígenas, madeireiros, garimpeiros e criadores de gado, tendo com a preservação da Amazônia como pano de fundo. A reportagem destaca que os povos residentes na região são os mais pobres do País, afirma que as oportunidades de renda a partir das atividades ilegais acabam atraindo mesmo os indígenas moradores das áreas protegidas e que faltam investimentos em pesquisa na região. O texto fala em “cruzada” lançada pelo ministro Ricardo Salles contra o Fundo Amazônia e relembra da reunião ministerial de abril do ano passado, em que ele sugeriu “ir passando a boiada” de desregulamentação enquanto a atenção da imprensa estava na covid-19 e dá exemplos desse esforço em alterações legais, citando a autorização para garimpo em territórios indígenas. Isso sem deixar de citar a perseguição a agentes da Polícia Federal que investigam Salles. Ao olhar para os demais políticos do País, no texto “Necessidade de reformas”, a publicação britânica diz que “Brasília está cheia de políticos jovens com ideias velhas”, citando frase da deputada federal Joênia Wapixana (Rede), primeira indígena do Congresso. O texto destaca que, depois dos protestos de 2013 e de 2016, que terminaram com o impeachment de Dilma, o parlamento brasileiro sofreu sua maior renovação, mas as expectativas de reformas políticas não se concretizaram. “Reformas mais profundas podem incluir distritos menores, regras de financiamento de campanha mais rígidas e admissão de candidatos independentes. Mas nada disso parece provável”, afirma a Economist. Ainda no campo político, a revista explora o fator do voto evangélico na disputa eleitoral, e analisa

Papa quer que Igreja ultrapasse divisões entre direita e esquerda

Santa Missa na solenidade de Pentecostes (Vatican Media) ‘Nem direita nem esquerda, mas harmonia na Igreja’, pede Francisco na Basílica de São Pedro A Igreja deve ultrapassar as divisões entre direita e esquerda, disse na manhã deste domingo (23) o papa na Basílica de São Pedro. Na homilia da missa de Pentecostes, Francisco afirmou que “se dermos ouvidos ao Espírito, deixaremos de nos focar em conservadores e progressistas, tradicionalistas e inovadores, de direita e de esquerda” pois, “se fossem estes os critérios, significava que a Igreja se esquecia do Espírito”. É que “o Paráclito impele à unidade, à concórdia, à harmonia das diversidades e faz-nos sentir parte do mesmo Corpo, irmãos e irmãs entre nós”. O papa refletiu sobre os efeitos consoladores do Espírito Santo e pediu aos fiéis para fazerem o mesmo à sua volta, “sem grandes discursos, mas aproximando-nos das pessoas; não com palavras empoladas, mas com a oração e a proximidade”. Porque hoje “é o tempo da consolação, é o tempo do anúncio feliz do Evangelho, mais do que do combate ao paganismo; é o tempo para levar a alegria do Ressuscitado, não para nos lamentarmos do drama da secularização; é o tempo para derramar amor sobre o mundo, sem abraçar o mundanismo; é o tempo para testemunhar a misericórdia, mais do que para inculcar regras e normas”. Francisco também aconselhou a viver o presente e não no passado ou no futuro. “O Paráclito afirma o primado do hoje, contra a tentação de fazer-se paralisar pelas amarguras e nostalgias do passado, ou de focar-se nas incertezas do amanhã e deixar-se obcecar pelos temores do futuro”, acrescentou. “Não há tempo melhor para nós: agora e aqui onde estamos é o único e irrepetível momento para fazer bem, fazer da vida uma dádiva. Vivamos no presente!” Regina Coeli Após a missa, o papa voltou a apelar à unidade da Igreja, antes da recitação da oração do Regina Coeli. “Na Igreja, há grupelhos que procuram sempre a divisão e se separam dos outros. Isto não é do espírito de Deus. O espírito de Deus é harmonia, é unidade, une as diferenças”, afirmou Francisco. O papa recordou a figura usada por “um bom cardeal, que foi arcebispo de Génova”: “que a Igreja é como um rio e o importante é estar dentro. Se vais para um lado ou para o outro lado não interessa, o Espírito Santo é que faz a unidade”. “E não olhes para as miudezas, em que tu estás de um lado e aquele do outro, ou este reza de um modo e aquele de outro modo… Isto não é de Deus. A Igreja é para todos”, concluiu Francisco. China Após a recitação do Regina Coeli, o papa pediu orações pelos católicos da China, que esta segunda-feira celebram a festa de Maria Auxiliadora, particularmente venerada no Santuário de Nossa Senhora de Sheshan, perto de Xangai. “Convido-vos a acompanhar, com a oração, os fiéis cristãos na China, os nossos caríssimos irmãos e irmãs, que tenho no mais fundo do meu coração. Que o Espirito Santo, protagonista da missão da Igreja no mundo, os guie e os ajude a ser portadores do alegre anúncio, testemunhas de bondade, de caridade, e construtores, na sua pátria, de justiça e de paz”, disse. Francisco deixou uma saudação ao “grande país” asiático, onde a Virgem Maria é venerada com “particular devoção” no Santuário de Sheshan e é invocada pelas famílias cristãs, “nas provações, nas esperanças da vida diária”. “Como é bom, como é necessário que os membros de uma família e de uma comunidade cristã estejam cada vez mais unidos no amor, na fé. Deste modo, os pais, os filhos, os avós, as crianças, pastores e fiéis podem seguir o exemplo dos primeiros discípulos, que na solenidade de Pentecostes eram unânimes na oração, com Maria, à espera do Espírito Santo”, acrescentou. Em setembro de 2018, Pequim e a Santa Sé assinaram um acordo sobre a nomeação dos bispos católicos, renovado em 2020. Francisco recordou ainda que Nossa Senhora Auxiliadora, celebrada a 24 de maio, é a padroeira principal da Família Salesiana, “que trabalha tanto, tanto na Igreja” em favor dos marginalizados e da juventude. “Que o Senhor os abençoe e os faça seguir em frente, com muitas vocações santas”, disse. Leia a íntegra da homimilia do santo padre para a Eucaristia de Pentecostes na Basílica de São Pedro em 23 de maio de 2021: Homilia “Virá o Paráclito, que Eu vos hei de enviar da parte do Pai” (cf. Jo 15, 26). Com estas palavras, Jesus promete aos discípulos o Espírito Santo, o dom supremo, o dom dos dons; e fala do Espírito, usando uma palavra particular, misteriosa: Paráclito. Debrucemo-nos hoje sobre esta palavra, que não é fácil de traduzir pois encerra vários significados. Substancialmente, Paráclito significa duas coisas: Consolador e Advogado. 1. O Paráclito é o Consolador. Todos nós, especialmente em momentos difíceis como este que estamos a atravessar, por causa da pandemia, procuramos consolações. Muitas vezes, porém, recorremos só a consolações terrenas, que depressa se extinguem, são consolações momentâneas. Hoje Jesus oferece-nos a consolação do Céu, o Espírito, o “Consolador perfeito” (Sequência). Qual é a diferença? As consolações do mundo são como os anestésicos: oferecem um alívio momentâneo, mas não curam o mal profundo que temos dentro. Insensibilizam, distraem, mas não curam pela raiz. Agem à superfície, ao nível dos sentidos, e dificilmente do coração. Com efeito, só dá paz ao coração quem nos faz sentir amados tal como somos. E o Espírito Santo, o amor de Deus, faz isso: como Espírito que é, age no nosso espírito, desce ao mais íntimo de nós mesmos. visita “o íntimo do coração”, pois é “das almas hóspede amável” (ibid.). É a ternura de Deus em pessoa, que não nos deixa sozinhos; e o facto de estar com quem vive sozinho, já é consolar. Irmã, irmão, se sentes a escuridão da solidão, se trazes dentro um peso que sufoca a esperança, se tens no coração uma ferida que queima, se não encontras a via

Vacinação contra Covid-19 aumenta a desigualdade no mundo e países pobres sequer iniciaram imunização

OMS estima que a lenta vacinação em alguns países pode prolongar a pandemia. (AFP Photo) Países ricos têm 15% da população mundial, mas concentram 45% de todas as doses disponíveis O avanço das campanhas de vacinação contra a Covid-19 no mundo, que bateu nesta semana a marca de 1,6 bilhão de doses aplicadas, ampliou a desigualdade entre países ricos e pobres. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os países de alta renda, com 15% da população mundial, compraram 45% de todas as vacinas disponíveis. Cerca de dez países, a maioria na África, sequer aplicaram uma única dose. O Chade é um deles. Com 15 milhões de habitantes, o país só deve receber as primeiras doses da Pfizer em junho. Médicos e enfermeiros ainda não foram vacinados. Também não começaram a vacinação Burkina Faso, Eritreia, Burundi e Tanzânia – que, em fevereiro, disse que não pretendia “aceitar” vacinas. Pequenas ilhas do Pacífico, como Vanuatu, também não iniciaram campanha de vacinação, mas têm menos urgência porque não registraram grandes surtos. O cenário preocupa especialistas. A OMS estima que a lenta vacinação em alguns países pode prolongar a pandemia. Os grandes laboratórios afirmam que seria possível imunizar a maioria da população mundial até o fim de 2021, mas especialistas alertam que países mais pobres podem conseguir terminar a inoculação apenas em 2024. O cenário favorece o surgimento de novas variantes, mais contagiosas e letais, como as cepas identificadas na África do Sul e na Índia, que podem ser resistentes às vacinas, comprometendo a imunidade em todo o mundo. “Nós já sabemos que uma variante, a sul-africana, é menos suscetível à proteção da vacina da AstraZeneca”, afirma o epidemiologista Chris Beyrer, da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins. “Enquanto as pessoas mais suscetíveis não forem imunizadas, o vírus continuará evoluindo, e isso pode minar a geração atual de vacinas”. As causas para a desigualdade no acesso às vacinas são muitas. A primeira, mais óbvia, é de ordem econômica. Países mais pobres têm dificuldades para comprar doses e enfrentam problemas de infraestrutura e distribuição. O ‘nacionalismo da vacina’, ou concentração de vacinas por parte de países ricos, é outra – como poucas vacinas foram aprovadas e a capacidade de produção é limitada, nações que conseguiram encomendar grandes estoques saíram na frente. Além disso, a logística é um grande problema. “As vacinas que usam RNA mensageiro (como Pfizer e Moderna) são muito eficientes e muito seguras. Mas são difíceis de fazer, armazenar, distribuir”, explica Beyrer. A quebra de patentes, posição agora defendida pelos EUA, não seria uma solução mágica, acredita. “É uma ciência muito avançada, e levantar as patentes não mudaria nada no curto e médio prazo, porque precisaria haver uma transferência significativa de tecnologia e de capacidade de construção (de laboratórios). É um investimento que vale a pena, mas levará tempo.” A preocupação se estende a países que já adquiriram vacinas, mas não conseguem acelerar suas campanhas. Quase 30, entre eles África do Sul, Austrália e Armênia, aplicaram a primeira dose em menos de 1% da população. Só 20 países ultrapassaram a marca de 50%. A imunização com vacinas de menor eficácia – como a russa Sputnik e a chinesa Sinovac – também pode ser um problema. “Há múltiplas vacinas agora, mas poucas têm alta eficácia. Temos casos como o do Chile, onde há alta cobertura, mas não há diminuição em taxas de infecção e hospitalização”, afirma Beyrer. Mais de 90% das doses administradas no país até o momento são da Coronavac. A falta de investimento em produção e distribuição de vacinas também têm consequências econômicas. De acordo com a Statista, empresa alemã especializada em mercado, a previsão é de que as principais economias do mundo registrem uma perda de 4,5% do PIB em razão da pandemia. Um estudo publicado em março na revista Science afirma que investimento extra no desenvolvimento e aplicação de vacinas poderia ter economizado trilhões de dólares em todo o mundo. De acordo com o estudo, se os governos tivessem investido para acelerar as campanhas em três meses, US$ 700 bilhões seriam economizados – ou US$ 1,3 trilhão, se forem contabilizados os custos de saúde, em um cálculo conservador. Algumas ações vêm sendo tomadas para reverter o cenário. O consórcio Covax, mecanismo da OMS para distribuição de vacinas, forneceu 71 milhões de doses, a maioria para países pobres. Alguns governos, como EUA e Suécia, anunciaram doações excedentes. Pfizer e União Europeia doaram 100 milhões de doses para países de baixa e média renda. Para a diretora do Departamento de Imunização da OMS, Katherine O’Brien, as medidas são bem-vindas, mas outras precisam ser tomadas. “A doação de países que compraram muitas doses precisa acontecer em grande escala”, afirma. “Eles também podem trabalhar com as empresas que fornecem as vacinas para que elas sejam prioritariamente entregues ao Covax.” O’Brien destaca que não há vacina suficiente para imunizar toda a população global. Por isso, defende prioridades. “Os meios de alocar vacinas precisam ser baseados em termos de necessidade e de impacto para a saúde pública, não em base de competição por contratos e em quem pode pagar”, afirma. Produtores de vacina, segundo ela, deveriam priorizar o compartilhamento de insumos com outros países, que também poderiam fabricar suas doses. Para O’Brien, o desenrolar das campanhas de vacinação amplia as desigualdades. “Se falharmos em responder à desigualdade que já existe em relação às vacinas, com certeza isso poderia tornar a desigualdade geral ainda pior”, afirma. “Nenhum país está salvo até que todos estejam a salvo.” Brasil Avanço da vacinação contra a Covid aumenta a desigualdade no mundo Para a professora do Coppead/UFRJ Cláudia Araújo, países menos desenvolvidos, como o Brasil, enfrentam desafios específicos. “Sofremos mais com questões de transporte e armazenagem do que países menores, mais desenvolvidos, que têm infraestrutura e estradas melhores”, afirma. “Temos dimensões continentais. Então, nosso grande desafio é manter as propriedades e a qualidade da vacina por todo o deslocamento dentro do território nacional.” Para ela, a pandemia evidenciou uma grande dependência em relação aos países mais ricos.

Número de mortes causadas pela Covid-19 pode ser três vezes maior que o relatado, diz OMS

 Vista aérea túmulos em cemitério de Manaus, de vítimas da covid-19 Foto (Michael Dantas/AFP) Relatório da entidade aponta que a Covid-19 provocou no ano passado pelo menos três milhões de mortes diretas ou indiretas O excesso de mortes provocado pela pandemia é entre duas e três vezes maior que os óbitos atribuídos à Covid-19 desde a detecção dos primeiros casos no fim de 2019 na China, afirmou a Organização Mundial da Saúde (OMS). Durante a publicação de seu relatório anual sobre as estatísticas de saúde no mundo, a OMS informou que a Covid-19 provocou no ano passado pelo menos três milhões de mortes diretas ou indiretas. Mas o balanço oficial de óbitos atribuídos ao coronavírus no fim de 2020 era de 1,8 milhão. “Isto corresponde a estimativas similares, que previam que o número total de mortes seria ao menos duas a três vezes maior que o balanço oficial de mortos por covid-19”, afirmou Samira Asma, vice-diretora geral responsável por dados na OMS. De acordo com os cálculos, a especialista acredita que a pandemia provocou até o momento “de seis a oito milhões” de mortes diretas e indiretas. “A pandemia de Covid constitui uma ameaça importante para a saúde e o bem-estar das populações de todo o mundo”, destacou. Samira Asma afirmou ainda que a OMS está trabalhando com os países para determinar qual é o “verdadeiro balanço humano da pandemia e, assim, estar melhor preparada para a próxima urgência”. A diferença entre os que especialistas denominam de “excesso de mortes” e o balanço oficial de óbitos vinculados à Covid-19 é provocada por vários fatores. Alguns países notificam as mortes com atraso, assim como algumas pessoas morrem sem passar por nenhum teste de diagnóstico. Outras falecem de outras doenças que não foram tratadas, por medo de comparecer ao centro de saúde ou por causa das medidas de confinamento. “O excesso de mortes nos apresenta uma imagem melhor, pois aponta os efeitos diretos e indiretos”, declarou William Msemburi, analista no departamento de dados da OMS. AFP

A direita sai derrotada da eleição Constituinte do Chile neste fim de semana

Os 96,2% dos votos apurados até a madrugada desta segunda (17) mostram que as duas frentes que aglutinam os candidatos da esquerda devem ficar com 52 assentos, seguida pelos candidatos independentes, que alcançaram juntos 48 cadeiras. Já a lista unificada da direita obteve 38. Há ainda 17 assentos reservados a representantes de povos indígenas. Esses números da eleição Constituinte foram divulgados pela DW Brasil. “A esquerda e chapas independentes, formadas por cidadãos que não são ligados a partidos políticos, devem garantir a maioria dos 155 assentos na Assembleia Constituinte, que irá redigir uma nova Carta Magna para substituir a atual, em vigor desde a ditadura de Augusto Pinochet”, informa a agência. O Chile encerrou neste domingo (16) um fim de semana histórico, com as mais importantes eleições desde 1970, quando foi eleito Salvador Allende, deposto por um golpe sangrento três anos depois. Os 14,9 milhões de chilenos aptos a votar elegeram, pela primeira vez, os governadores das 16 regiões administrativas do país – antes indicados pela presidência da República –, além de prefeitos e vereadores. E superaram, ainda, o legado de Augusto Pinochet ao eleger os 155 integrantes da Convenção Constituinte. A atual Carta Magna, de 1980, foi produto do regime neoliberal ditatorial liderado pelo general golpista. A assembleia constituinte é resultado de uma forte mobilização social na última década que culminou com as gigantescas manifestações populares de 2019. Clique aqui para ler a matéria na integra em “RBA”

Negacionista na pandemia, primeiro-ministro da Índia sofre derrota nas urnas

 Premiê mais poderoso em cinco décadas, Narendra Modi investiu pesado para conquistar o estado de Bengala Ocidental, mas foi castigado pela gestão da pandemia O partido do premiê da Índia, o nacionalista hindu BJP, sofreu um duro golpe nas urnas em Bengala Ocidental. “Não há como não associar esta derrota aos efeitos catastróficos da pandemia na Índia. Premiê mais poderoso em cinco décadas, Modi enfrenta agora os amargos reflexos do negacionismo: autorizou festivais religiosos com milhares de peregrinos e comandou, sem máscaras, gigantescos comícios eleitorais, enquanto a doença se alastrava”, escreve a jornalista Sandra Cohen no Globo. A imagem messiânica do primeiro-ministro, que assumiu o poder em 2014 e foi reeleito cinco anos depois, é transmutada pela fúria popular. O governo é acusado de inação e despreparo. E responsabilizado pela maior crise humanitária da Índia desde a independência, em hashtags, como #ModiMustResign e #ModiMadeDisaster, que proliferam nas redes sociais. Modi foi tachado de “superpropagador” do vírus pelo vice-presidente da Associação Médica Indiana, Navjot Dahiya: “Ele jogou ao vento todas as normas da Covid-19.” Críticos o acusam de priorizar as eleições em detrimento da pandemia e de afrouxar rapidamente os rígidos bloqueios para não perder votos.

Le Monde: o Brasil se afunda cada vez mais em uma tragédia sanitária

O Brasil, um dos principais epicentros da pandemia atualmente, enfrenta uma crise sanitária catastrófica. Mas, por trás da tragédia, um duelo político se trava pelo futuro do país. Quem fala a respeito, em podcast publicado nesta quinta-feira (29) no site de Le Monde, é Bruno Meyerfeld, correspondente do jornal francês no Brasil. “Enquanto um duelo político se desenha nos bastidores, o Brasil se afunda cada vez mais em uma tragédia sanitária”, diz Le Monde. De um lado, o jornal apresenta um presidente “coronacético e antivacina assumido”, autor de frases absurdas para desmoralizar a campanha contra a Covid-19. Do outro, o ex-presidente Lula, que se fez vacinar diante das câmeras e diz que Bolsonaro “tem que parar de ser ignorante”. “É o maior drama humanitário da história do Brasil”, diz Bruno Meyerfeld. Ele lembra que especialistas acreditam que o Brasil vai chegar aos 600 mil mortos até final de julho. “Ou seja, o dobro dos números atuais”. Meyerfeld conta sua experiência própria em visitar uma UTI de um hospital no Brasil. Ele disse ter ficado chocado ao ver uma ala inteira com pacientes de 30, 40, 50 anos. Ele se lembra especialmente de um jovem, entubado: Rafael, de 29 anos. Falta de vacinas Não se trata de falta de estrutura para a imunização, diz o repórter. “O Brasil foi um dos campeões da vacinação contra a H1N1 em 2009, vacinando 80 milhões de pessoas em 4 meses”, lembra. A falta de imunizantes se dá, como na França, pela dificuldade de produção. Mas o repórter ressalta que no Brasil, a política antivacina de Bolsonaro é outro freio para deter a pandemia. “Jair Bolsonaro é assumidamente contra a vacina. É um defensor inveterado da hidroxicloroquina, falando desde o início de ‘gripezinha’, da inutilidade das máscaras”, lembra Meyerfeld. Lula pode vencer Bolsonaro “Lula é um adversário muito sério, o único capaz de ganhar hoje de Bolsonaro”, diz o correspondente de Le Monde no Brasil. “Mas Lula também afasta muita gente e o ‘sistema’ teme a volta de um Lula vingativo”, reitera. “Encontrei Lula na prisão há algumas semanas, depois de ter sido inocentado. Ele é um animal político excepcional, é a maior fera política da história do Brasil. Ele se compara a Joe Biden, sonha claramente com a volta, mesmo que não assuma, por enquanto, ser candidato. Mas ele se comporta como se estivesse em campanha, dá para ver que ele sente saudades das multidões”, conta o jornalista. “O que pode influenciar a população?”, pergunta Le Monde. “Pode ser que até lá a maioria esteja vacinada e a pandemia não conte mais. O que vai estar em jogo é a política e, talvez, a ecologia. Bolsonaro perdeu apoio de Trump, e Biden é claramente a favor de proteger o meio ambiente. Isso pode ter impacto na campanha, mesmo que hoje o clima esteja totalmente ausente do cenário dominado pela pandemia e pela crise econômica”, conclui Bruno Meyerfeld. Por RFI  

Como os Estados Unidos usaram a Lava Jato para seus próprios fins

De acordo com o Le Monde, o objetivo central da operação Lava Jato era, desde o início, acabar com a ameaça representada pelo crescimento de empresas O que começou como a “maior operação contra a corrupção do mundo” e degenerou no “maior escândalo judicial do planeta” não passou, na realidade, de uma estratégia bem-sucedida dos Estados Unidos para minar a autonomia geopolítica brasileira. É o que revela o jornal francês Le Monde publicada neste sábado (10) e assinada por Nicolas Bourcier e Gaspard Estrada, diretor-executivo do Observatório Político da América Latina e do Caribe (Opalc) da universidade Sciences Po de Paris. De acordo com o Le Monde, o objetivo central da operação Lava Jato era, desde o início, acabar com a ameaça representada pelo crescimento de empresas brasileiras que punham em risco os interesses dos Estados Unidos. Tudo começou em 2007, durante o governo George W. Bush. As autoridades norte-americanas estavam incomodadas pela falta de cooperação dos diplomatas brasileiros com seu programa de combate ao terrorismo. O Itamaraty, sob o governo Lula, não estava disposto a embarcar na histeria dos EUA. Para contornar o desinteresse oficial, a embaixada dos EUA no Brasil passou a investir na tentativa de criar um grupo de experts locais, simpáticos a seus interesses e dispostos a aprender seus métodos, “sem parecer peões” num jogo, conforme indica um telegrama do embaixador Clifford Sobel a que o Le Monde teve acesso. Assim, naquele ano, Sergio Moro foi convidado a participar de um encontro, financiado pelo Departamento de Estado norte-americano – o equivalente a um Ministério das Relações Exteriores. O convite foi aceito – e Moro fez contato com diversos representantes do FBI, do Departament of Justice (DOJ) e do próprio Departamento de Estado dos EUA (equivalente ao Itamaraty). Para aproveitar a dianteira obtida, os EUA foram além e criaram um posto de “conselheiro jurídico” na embaixada brasileira, que ficou a cargo de Karine Moreno-Taxman, especialista em combate à lavagem de dinheiro e ao terrorismo. Por meio do “projeto Pontes”, os EUA garantiram a disseminação de seus métodos. Entre as iniciativas implantadas, há a criação de grupos de trabalho anticorrupção, a aplicação de sua doutrina jurídica (principalmente o sistema de recompensa para as delações) e o compartilhamento “informal” de informações sobre os processos – ou seja, fora dos canais oficiais. Qualquer semelhança com a Lava Jato não é mera coincidência. Em 2009, dois anos depois, Moreno-Taxman foi convidada a falar na conferência anual dos agentes da Polícia Federal brasileira, em Fortaleza. Diante de mais de 500 profissionais, a norte-americana ensinou os brasileiros a fazer o que os EUA queriam: “Em casos de corrupção, é preciso ir atrás do ‘rei’ de maneira sistemática e constante, para derrubá-lo”. “Para que o Judiciário possa condenar alguém por corrupção, é preciso que o povo odeie essa pessoa”, afirmou depois, sendo mais explícita. “A sociedade deve sentir que ele realmente abusou de seu cargo e exigir sua condenação”, completou, para não deixar dúvidas. O nome de Lula não foi citado nenhuma vez, mas, segundo a reportagem, estava na cabeça de todos os presentes, já que o escândalo do “mensalão” ocupava os noticiários do País. Segundo os autores, o PT não viu o monstro que estava sendo criado. As autoridades estrangeiras, com destaque para um grupo anticorrupção da OCDE, amplamente influenciado pelos EUA, começaram a pressionar o País por leis mais duras de combate à corrupção. Nesse contexto, Moro foi nomeado, em 2012, para integrar o gabinete de Rosa Weber, recém-indicada para o Supremo Tribunal Federal. Oriunda da Justiça do Trabalho, a ministra precisava de auxiliares com expertise criminal para auxiliá-la no julgamento. Moro, então, foi um dos responsáveis pelo polêmico voto defendendo “flexibilizar” a necessidade de provas em casos de corrupção. “Nos delitos de poder, quanto maior o poder ostentado pelo criminoso, maior a facilidade de esconder o ilícito – esquemas velados, distribuição de documentos, aliciamento de testemunhas. Disso decorre a maior elasticidade na admissão da prova de acusação”, afirmou a ministra em seu voto. O precedente foi levado ao pé da letra pelo juiz e pelos procuradores da Lava Jato anos depois, para acusar e condenar Lula no caso (sem provas) do tríplex. Em 2013, a pressão internacional fez efeito, e o Congresso brasileiro começou a votar a lei anticorrupção. Para não fazer feio diante da comunidade internacional, os parlamentares acabaram incorporando mecanismos previstos no Foreign Corrupt Practices Act (FCPA) – uma lei que permite que os EUA investiguem e punam fatos ocorridos em outros países. Para especialistas, essa legislação é instrumento de exercício de poder econômico e político dos norte-americanos no mundo. Em novembro daquele mesmo ano de 2013, o procurador geral adjunto do DOJ norte-americano, James Cole, anunciou que o chefe da unidade do FCPA viria imediatamente para o Brasil, com o intuito de “instruir procuradores brasileiros” sobre as aplicações do FCPA. A nova norma preocupou juristas já na época. O Le Monde cita uma nota de Jones Day prevendo que a lei anticorrupção traria efeitos deletérios para a Justiça brasileira, devido a seu caráter “imprevisível e contraditório”, além da ausência de procedimentos de controle. Diz o documento, “qualquer membro do Ministério Público pode abrir investigações em função de suas próprias convicções, com reduzidas possibilidades de ser impedido por uma autoridade superior”. Dilma Rousseff, já presidente à época, preferiu não dar razões para mais críticas ao seu governo, que só aumentavam, e sancionou a lei, apesar dos alertas. Em 29 de janeiro de 2014, a lei entrou em vigor. Em 17 de março, o procurador-geral da República da época, Rodrigo Janot, chancelou a criação da “força-tarefa” da Lava Jato. Desde o surgimento, o grupo atraiu a atenção da imprensa, narra o jornal. “A orquestração das prisões e o ritmo da atuação do Ministério Público e de Moro transformaram a operação em uma verdadeira novela político-judicial sem precedentes”, afirmam Bourcier e Estrada. No mesmo momento, a administração de Barack Obama nos EUA dava mostras de seu trabalho para ampliar a aplicação do FCPA e aumentar a jurisdição dos EUA no