Haiti precisa novamente de ajuda internacional – Por Isaac Risco*

Nos últimos anos, o Haiti se tornou um centro de contrabando de drogas da América do Sul para os Estados Unidos (Valerie Baeriswyl) Mais recente missão de paz de ONU deixou uma impressão ruim no país caribenho O Haiti está amaldiçoado, disseram alguns observadores nos últimos anos. É claro que esta não é uma explicação racional para a história particularmente trágica do extremamente pobre país caribenho. A frase reflete um pouco de perplexidade, pessimismo, diante da espiral aparentemente interminável de violência, pobreza e desastre na outrora rica colônia ultramarina francesa. Agora é o brutal assassinato do presidente que está mergulhando o Haiti ainda mais profundamente na crise. Leia também: Ai de ti, Haiti – Por José Couto Nogueira* Jovenel Moïse foi assassinado em sua casa em Porto Príncipe na noite de quarta-feira (7) por um comando de mercenários aparentemente estrangeiros. O pano de fundo do crime ainda é incerto. O assassinato é parte de um golpe de Estado? Ou Moïse, que era acusado de corrupção e agia cada vez mais de forma autoritária, foi vítima de uma guerra de gangues que ele mesmo fomentou? É pouco provável que haja respostas claras em breve. Porque o caos reina no Haiti – o país é, na verdade, um Estado fracassado há anos. Nas eleições presidenciais de 2015, muitos observadores e diplomatas tinham grandes esperanças para Moïse. O proprietário de uma plantação de bananas ganhou a votação – mas ela teve que ser repetida um ano depois devido a uma suposta fraude eleitoral. Moïse só pôde tomar posse em fevereiro de 2017, e seu governo nunca foi estável. Desde 2020 ele só governava por decreto, depois que o Parlamento foi dissolvido no final da legislatura e ninguém pôde ser eleito. De qualquer forma, não existe há muito tempo uma máquina estatal em funcionamento no Haiti. Violentos conflitos entre gangues aterrorizaram recentemente o povo de Porto Príncipe. Nos últimos anos, o país se tornou um centro de contrabando de drogas da América do Sul para os Estados Unidos. A comunidade internacional já teve que intervir no Haiti antes. Em 2004, as Nações Unidas enviaram a missão de paz da Minustah ao Caribe após a queda do então presidente Jean-Bertrand Aristide. Mas as tropas foram cercadas por escândalos: os capacetes azuis nepaleses levaram cólera para o país após o devastador terremoto de 2010, e muitos soldados foram acusados de abusos sexuais. Quando saiu de lá, em 2017, a missão de paz liderada pelo Brasil era odiada por partes da população. Apesar disso, está na hora de a comunidade internacional aprender com os erros do passado e dar ao país mais pobre das Américas um apoio renovado e mais eficaz. Porque um fracasso definitivo do Haiti não é do interesse de ninguém. DW *Jornalista da DW, Isaac Risco cobriu no Haiti a eleição de Jovenel Moïse pela agência de notícias DPA. O texto reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW
Spike Lee chama Bolsonaro de ‘mafioso sem moral’ durante Festival de Cannes

Principal homenageado do festival, Lee criticou Bolsonaro, Trump e Putin: ‘Este mundo é governado por gângsters’ Presidente do júri 74ª edição do Festival de Cannes, o cineasta americano Spike Lee criticou o presidente brasileiro Jair Bolsonaro (sem partido) durante a cerimônia de abertura, nesta terça-feira (6) na França. O chefe de estado brasileiro foi alvo junto do ex-presidente americano Donald Trump e do presidente russo Vladmir Putin. “Este mundo é governado por gângsteres”, disse Lee durante uma coletiva de imprensa. “O Agente Laranja [Donald Trump] , o Cara do Brasil [Bolsonaro] e o [presidente russo Vladimir] Putin. Eles são gângsters e farão o que quiserem. Eles não têm moral nem escrúpulos.” Lee também deplorou a brutalidade contra os negros em América. A tradicional coletiva de imprensa que antecedeu a abertura da maior competição de cinema do mundo imediatamente ganhou contornos políticos, em uma prévia do que pode ser a 74ª edição do festival, após seu cancelamento no ano passado devido à pandemia. Spike Lee é o grande homenageado desta edição do festival e inclusive estampa o pôster oficial. O diretor, de 64 anos, é o primeiro afro-americano a presidir o júri do festival, também composto pelo brasileiro Kleber Mendonça Filho, outro crítico de Bolsonaro. O júri decidirá quem levará a Palma de Ouro. Lee fez menção a ter exibido em Cannes, em 1989, o filme Faça a coisa certa, sobre a violência contra os negros nos Estados Unidos. “Quando vemos como o irmão Eric Garner e o rei George Floyd foram mortos, linchados… podemos pensar que depois de 30 malditos anos, os negros poderiam parar de ser caçados como animais”. O diretor americano, Spike Lee, que preside o júri da 74ª edição do Festival de Cannes: ‘Este mundo é governado por gângsteres’ (Valery Haché/AFP) Cinemateca Mas Lee não foi o único a associar o cinema à militância: os demais membros do júri também usaram da palavra nesse sentido. O diretor brasileiro Kleber Mendonça Filho lembrou a pandemia que vive o país, com mais de meio milhão de mortes por Covid-19. “Segundo dados técnicos, se o governo tivesse feito a coisa certa, 350 mil vidas teriam sido salvas”. Lamentou também o “fechamento há mais de um ano da Cinemateca Brasileira, com 90 mil títulos e todos os técnicos e especialistas demitidos”. “É uma forma muito clara de reprimir a cultura e o cinema”, afirmou Kleber Mendonça, que considera que “uma das formas de resistir é passar a informação e falar sobre ela”. Já as mulheres do júri, que são a maioria, exigiram mais igualdade na indústria. “Mesmo dentro de uma cultura tão masculina, fazemos filmes diferentes, explicamos as histórias de uma outra maneira. Vamos ver o que acontece” com um júri de cinco mulheres e quatro homens, observou a atriz americana Maggie Gyllenhaal. Cannes 2021 Com o musical Annette, Adam Driver e Marion Cotillard na abertura, o Festival de Cannes programou o maior número de filmes em sua mostra oficial em comparação com as últimas edições, apesar das rígidas condições sanitárias. A Palma de Ouro será disputada por cineastas renomados, como o americano Wes Anderson, o holandês Paul Verhoeven, o iraniano Asghar Farhadi e diretores que já receberam o prêmio máximo em Cannes, como o italiano Nanni Moretti e o tailandês Apichatpong Weerasethakul. O festival, que não foi realizado no ano passado devido à pandemia, deseja recuperar o tempo perdido: 24 filmes, rodados antes e durante a pandemia, estão na mostra oficial – o maior número dos últimos anos. Paralelamente, o Festival concederá nesta terça-feira a Palma de Ouro honorária à atriz e diretora Jodie Foster, que compareceu a Cannes pela primeira vez ainda adolescente, há 45 anos, para apresentar Taxi driver, de Martin Scorsese. Nele, contracenou com Robert De Niro. As celebridades poderão tirar a máscara e posar para as câmeras no tapete vermelho, mas a organização do festival estabeleceu estritas condições de acesso. Europeus vacinados, ou com imunidade natural, devem apresentar o documento de saúde reconhecido pela UE, enquanto os demais participantes devem ser submetidos a um teste de PCR a cada 48 horas. As salas não terão, no entanto, limite de capacidade. Dom Total
Manobra de juiz eleitoral impede proclamação do novo presidente e crise se agrava

O presidente eleito Pedro Castilho sofre campanha de difamação de conservadores (Gian Masko/AFP) Magistrado que analisa recursos sobre fraude declina, aumentando a incerteza política A incerteza cresceu ainda mais no Peru após um dos magistrados do Júri Nacional Eleitoral (JNE) anunciar que declinou de continuar no cargo, com o aparente objetivo de impedir o órgão de proclamar o esquerdista Pedro Castillo como vencedor do segundo turno das eleições presidenciais. O movimento do juiz que avaliava os recursos com alegações de fraude apresentados pela candidata de direita Keiko Fujimori para evitar sua derrota deixou o organismo sem quórum e complicou o caminho para a aguardada proclamação dos resultados. “Foi iniciada uma avaliação legal para que se permita tomar medidas imediatas para salvaguardar a democracia e evitar que se afete a conclusão do processo eleitoral após a declinação irrevogável apresentada pelo magistrado Luis Arce na noite de quarta-feira”, segundo anunciou o JNE. Legalmente, o juiz não pode renunciar enquanto não finalizar o atual processo eleitoral, por isso ele utilizou a palavra “declinar” para não continuar com seu trabalho. Um grupo de políticos conservadores pediu nesta quinta-feira ao presidente Francisco Sagasti que solicite à Organização dos Estados Americanos (OEA) para auditar a eleição apertada de 6 de junho. Castillo venceu Keiko por 44 mil votos de acordo com a contagem oficial, mas o JNE precisa decidir sobre os recursos apresentados pela candidata antes de proclamar um vencedor. Na tentativa de desbloquear o impasse, o JNE solicitou ao Ministério Público a designação de um novo membro daquele órgão para evitar “afetar o ápice do processo eleitoral”. O JNE optou por suspender o exercício do cargo a Arce e manifestou seu repúdio às expressões ofensivas constantes na sua carta de desistência, na qual afirma que tudo parecia estar consumado há muito tempo em favor de Castillo. O juiz justificou ainda sua decisão dizendo que ela era uma ação para evitar que seus votos minoritários fossem usados para validar falsas deliberações constitucionais que, segundo ele, são decisões com claras tendências políticas. Observadores atestam correção A decisão de Arce parece estar em sintonia com setores políticos que insistem em denunciar o que chamam de fraude em detrimento de Keiko, embora os Estados Unidos e a OEA tenham afirmado que o processo eleitoral peruano foi limpo e justo. Antes de proclamar o vencedor, o JNE estava fazendo um progresso lento na resolução de todas as solicitações e recursos apresentados por Keiko, e já havia negado a maioria deles. Luis Arce era o único dos quatro magistrados do JNE que até então havia apoiado a tese infundada de Keiko sobre uma suposta fraude. A chefe do Judiciário, Elvia Barrios, pediu uma solução pacífica para o novo obstáculo no processo de proclamação do novo presidente e alertou contra qualquer alternativa antidemocrática. “O ‘declínio’ do magistrado Luis Arce constitui um ataque frontal ao Estado de Direito que visa colocar em risco a democracia”, tuitou José Miguel Vivanco, chefe da ONG Human Rights Watch para as Américas. Na terça-feira, os Estados Unidos destacaram em nota do Departamento de Estado que as eleições peruanas são um modelo de democracia na região e afirmaram apoiar que as autoridades eleitorais tenham tempo para processar e publicar os resultados de acordo com a legislação peruana. No entanto, o lado de Fujimori continua a afirmar que houve fraude e tem procurado bloquear – ou pelo menos atrasar – a proclamação do vencedor com vários pedidos ao JNE, enquanto militares reformados manifestam-se nas ruas e convocam as Forças Armadas para impedir que Castillo assuma o controle, a quem também chamam de comunista. No Peru, a palavra comunista está associada ao terror causado pelo Sendero Luminoso da guerrilha maoísta (que operou entre 1980-2000), ideia que Keiko e seus apoiadores promoveram durante a campanha.
Marco sombrio de 500 mil mortes e protestos: a tragédia brasileira na imprensa internacional

Milhares de pessoas protestaram contra o presidente Jair Bolsonaro em todos os estados brasileiros no sábado (19/6), mesmo dia em que o país alcançou o marco de meio milhão de mortos na pandemia. Protesto contra governo do presidente Jair Bolsonaro neste sábado (19) em Brasília — Foto: REUTERS/Adriano Machado O trágico número de 500 mil brasileiros mortos em decorrência da covid-19 registrados no sábado (19/6) e os protestos contra o presidente Jair Bolsonaro ocuparam as páginas dos principais veículos internacionais neste fim de semana. A cobertura da imprensa internacional sobre os 500 mil mortos no Brasil e as marchas afirma que há uma indignação crescente dos brasileiros contra o presidente Jair Bolsonaro – apontado, nos protestos, como culpado pelo número alto de vítimas da pandemia no país. Também retrata a situação “crítica” do Brasil, onde a vacinação lenta e o descontrole do vírus pode levar a uma terceira onda e um número maior de mortos pelo vírus. “Brasil ultrapassa marco sombrio de 500 mil mortes por covid-19 em meio a protestos contra a resposta de Bolsonaro”, diz o título de reportagem do jornal britânico The Independent. O jornal britânico The Independent retrata as manifestações no Brasil no dia em que se atingiu 500 mil mortes por Covid-19. — Foto: Reprodução No sábado (19/06), mesmo dia em que o Brasil alcançou 500 mil mortes na pandemia, milhares de pessoas em todos os 26 Estados do Brasil, além do Distrito Federal e cidades do exterior, saíram em manifestações contra Bolsonaro. “Críticos dizem que a rejeição de Bolsonaro às restrições à covid-19, como medidas de distanciamento social e uso de máscaras, e sua promoção de tratamentos refutados, como a hidroxicloroquina, são em parte responsáveis pelo enorme número de mortes no país e pela lenta campanha de vacinação”, diz a reportagem do Independent. O jornal britânico The Guardian registrou em reportagem que os protestos contra Bolsonaro têm ganhado “impulso” em meio a uma curva ascendente de casos de covid-19 no país. “O presidente brasileiro, que subestimou a pandemia e resistiu às medidas de contenção, está sendo investigado no Congresso porque seu governo ficou para trás na aquisição de vacinas, mas incentivou o uso de drogas ineficazes como a cloroquina”, registrou o jornal. O jornal britânico The Guardian registrou que manifestações contra o presidente Bolsonaro tem ganhado impulso. — Foto: Reprodução A BBC destacou como o Brasil alcançou 500 mil mortes em meio a uma situação “crítica”, com uma crise que pode piorar pela vacinação lenta e o início do inverno. “O vírus continua a se espalhar enquanto o presidente Jair Bolsonaro se recusa a apoiar medidas como o distanciamento social.” O portal do jornal BBC destacou que o Brasil alcançou 500 mil mortes em meio a uma situação “crítica”. — Foto: Reprodução. O espanhol El País publicou reportagem no sábado (19/6) destacando como os “meio milhão de mortos” por covid-19 compõem o segundo maior número do mundo. “O triste marco de 500.000 mortos é chocante. O único país onde mais pessoas perderam a vida devido à doença foram os Estados Unidos”, diz o texto, em que há vozes de brasileiros que perderam entes queridos. O espanhol El País destacou como os “meio milhão de mortos” por covid-19 compõem o segundo maior número do mundo. — Foto: Reprodução “A perda de meio milhão de vidas no Brasil ocorre em um momento em que o governo de Jair Bolsonaro é pressionado por uma investigação do Senado sobre a condução da pandemia”, destaca o El País. “Os depoimentos coletados na investigação do Senado também mostram que por negligência o governo parou de negociar e comprar vacinas em 2020, quando o Bolsonaro ignorou dezenas de e-mails da farmacêutica Pfizer oferecendo seu produto.” A informação de que o Brasil se tornou o segundo país do mundo a superar 500 mil mortos por covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos, também foi destaque no jornal The Times of Israel. The Times of Israel também destacou que o Brasil é o segundo país a atingir a marca de 500 mil mortos. — Foto: Reprodução No americano The Washington Post, uma reportagem da Associated Press mostra como manifestantes foram às ruas em diversas cidades do Brasil no dia em que o Brasil chegou a 500 mil mortes por covid-19 – “uma tragédia que muitos críticos atribuem à tentativa do presidente Jair Bolsonaro de minimizar a doença”. The Washington Post mostra como manifestantes foram às ruas em diversas cidades do Brasil no dia em que o Brasil chegou a 500 mil mortes por covid-19. — Foto: Reprodução. Uma reportagem da Al Jazeera apontou como há especialistas que dizem que o número de mortes por covid-19 no Brasil deve crescer ainda mais. Também registrou as críticas que o governo Bolsonaro enfrenta por ter “perdido oportunidades de comprar vacinas”. “Manifestantes em todo o país criticaram o governo pelo alto número de mortos e pediram a saída do presidente”, diz a reportagem. Reportagem da Al Jazeera apontou como há especialistas que dizem que o número de mortes por covid-19 no Brasil deve crescer ainda mais. — Foto: Reprodução. “Brasil superou os 500 mil mortos por coronavírus e manifestantes repetem marcha contra Jair Bolsonaro”, diz o título de reportagem do jornal argentino El Clarín. O texto destacou um tuíte do atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, lamentando as “500 mil vidas perdidas” e dizendo estar trabalhando “incansavelmente para vacinar todos os brasileiros no menor tempo possível”. Nas principais cidades do país, diz o Clarín, “milhares de pessoas voltaram a sair às ruas para protestar contra Bolsonaro, a quem chamam de ‘genocida’ por sua política sanitária”. “Brasil superou os 500 mil mortos por coronavírus e manifestantes repetem marcha contra Jair Bolsonaro”, diz o título de reportagem do jornal argentino El Clarín. — Foto: Reprodução. Via G1
‘Passaporte Verde’ – Europa decreta apartheid contra países pobres

Diante da omissão do governo brasileiro, estudantes estão entregues à própria sorte O Parlamento Europeu aprovou no último dia 9 o chamado “passaporte verde”. O objetivo dessa medida é facilitar a circulação de pessoas dentro da União Europeia com um certificado digital que funcionará como um cartão de embarque de viagens, atestando se determinada pessoa já está com as doses completas de vacina contra a Covid-19, se está totalmente recuperada da doença ou ainda se possui teste de PCR negativo. Tal acordo teria vindo para reaquecer o turismo europeu no verão que se aproxima. Embora pareça um avanço para a movimentação interna de pessoas e configure uma imagem positiva se pensarmos os caminhos de superação da pandemia, decisões como essa representam também um fechamento da Europa para alguns países que não compõem o que eles definem como “lista verde”. A princípio, tendemos a ver como sensatos tais planos que combinam abertura gradual com manutenção de restrições para a contenção da atual pandemia. Porém, se olharmos mais a fundo veremos as desigualdades que tais projetos geopolíticos dos países ricos encerram. Até o início deste mês, 18% da população global tinha sido vacinada com pelo menos uma dose de vacina contra a Covid-19. Todavia, mediante uma comparação mais específica, temos um quadro bem desequilibrado: nos países desenvolvidos, aproximadamente 36% da população já recebeu ao menos uma dose da vacina, ao passo que em países asiáticos (excetuando-se a China) a vacinação atingiu apenas 7% da população; na América do Sul esse valor fica abaixo dos 6% e no continente africano esse montante cai para apenas 2%. Nesse quadro da vacinação, os países da União Europeia sozinhos representam mais de 12% do total de doses aplicadas no mundo . O Brasil, que já foi um líder global em matéria de vacinação, ocupava no dia 9 de junho o 72º lugar no ranking de aplicação das vacinas de Covid-19, comparando-se percentualmente a aplicação da primeira dose em 190 países. Se pensarmos no ritmo da vacinação, o cenário é ainda pior para o Brasil sob a égide do governo Bolsonaro: estamos em 89º. Esse é um dos pontos em que o passaporte da vacina afeta o Brasil diretamente. Cabe mencionar o caso de imigrantes com alta qualificação, de pesquisadores brasileiros que são totalmente penalizados, como mostra uma reportagem do Dom Total de 11 de maio a respeito de 34 pesquisadores que podem perder suas pesquisas de doutorado no exterior por não estarem vacinados contra a Covid-19. Trata-se de uma situação grave que explicita não apenas protocolos sanitários de outros países em relação à imigração de brasileiros, mas, sobretudo, a incompetência completa do governo Bolsonaro em assuntos externos. A imagem do Brasil no palco internacional foi completamente destruída pelo ex-chanceler Ernesto Araújo, que conduziu o Ministério das Relações Exteriores brasileiro de janeiro de 2019 a março deste ano. Ademais, no caso específico de pesquisadores que perderão seus estudos no exterior por não terem sido vacinados ou por outros impedimentos derivados do contexto pandêmico, soma-se a inépcia do Ministério da Educação que não propõe nenhuma negociação com universidades estrangeiras para o livre trânsito de estudantes. Ante o silêncio crasso do Itamaraty e as negligências do MEC, a internacionalização da pesquisa brasileira agoniza, com os pesquisadores abandonados à sua própria sorte. O máximo que o Ministério das Relações Exteriores oferece aos cidadãos brasileiros que estão em vista de irem ao exterior é um portal de notícias sobre restrições vigentes de entrada em cada país. Ou seja, nossa diplomacia se restringe a um boletim informativo, a uma compilação de informações que qualquer site comercial de viagens já faz. Somando-se à patente omissão do Itamaraty, no que diz respeito especificamente às relações Brasil-Europa, vemos que proibições em maior ou menor grau a profissionais e pesquisadores brasileiros já tinham sido criadas desde o início da pandemia na maioria dos países europeus, em decorrência do aparecimento de novas variantes do coronavírus. O exemplo mais severo é o do governo espanhol: desde o dia 2 de fevereiro deste ano, os voos que saem do Brasil em direção à Espanha só são permitidos caso estejam ocupados apenas por cidadãos ou residentes permanentes daquele país: estudantes e trabalhadores estão impedidos de voar . O fato das restrições espanholas a voos brasileiros se torna mais emblemático se pensado pela temática atual do “passaporte da vacina”, pois a Espanha segue proibindo brasileiros ainda que estejam vacinados. Para se ter uma ideia da rigidez desses impedimentos, até cônjuges ou parentes de pessoas que vivem em solo espanhol são proibidos de voar do Brasil à Espanha, mesmo tendo tomado as doses completas de alguma das vacinas aceitas pela União Europeia. Por outro lado, a Espanha retirou as barreiras para turistas vacinados de outros países e, curiosamente, abriu totalmente as fronteiras para viajantes do Reino Unido, que não precisam mais apresentar nenhum documento relacionado à Covid-19, como exame PCR negativo, certificado de vacinação ou de recuperação. Os interesses são bem claros: movimentar o turismo com pessoas advindas de países ricos. Além disso, o “passaporte da vacina” pode significar uma solução para a “crise migratória” no Velho Mundo: ele impede ou dificulta ao máximo a imigração legal de pessoas advindas de países pobres, ou seja, de países sem vacina contra a Covid-19. Quanto aos imigrantes “ilegais”, os europeus já resolvem esse problema em grande parte com os afogamentos no Mar Mediterrâneo. Em vista dessa intensificação das desigualdades que se formam no atual contexto mundial, é preciso defendermos uma ideia de cooperação internacional que vá muito além da propaganda construída pelos “países doadores de vacina”, que não seja reduzida à lógica da filantropia do G7. Nesse sentido, a consequência que vemos desse “novo normal” do “passaporte verde” no cenário geopolítico é o fechamento dos países desenvolvidos em blocos de privilegiados – um apartheid referendado pelo discurso médico da pandemia e apoiado pelas populações mais abastadas e vacinadas como uma medida sanitária necessária, a qual significa, na realidade, uma política de higienização global. Dom Total
Peru elege o professor Pedro Castillo; saiba quem é o presidente eleito do país andino

O presidente Jair Bolsonaro reconheceu a vitória “do cara do Foro de São Paulo” durante discurso em Anápolis (GO) O professor de esquerda Pedro Castillo, do partido Peru Livre, venceu a eleição presidencial contra a conservadora Keiko Fujimori. Com 99,868% dos votos apurados, Castillo ocupa o primeiro lugar, obtendo 50,194%, enquanto o representante do Fuerza Popular registra 49,806% do apoio. A distância entre os dois, agora a favor do ex-líder do Peru Livre, é de 67.559 votos e 0,389 pontos. O presidente Jair Bolsonaro lamentou a eleição “do cara do Foro de São Paulo”. A “Perdemos o Peru”, disse. “Perdemos agora o Peru. Voltou, ao que tudo indica, falta 1% de apuração lá, só um milagre para reverter, vai reassumir um cara do Foro de São Paulo. Olha a nova Constituinte do Chile”, reconheceu Bolsonaro em discurso em Anápolis (GO). Keiko perdeu no voto, portanto. Fujimori nunca mais, confirmaram os peruanos nas urnas. Quem é Pedro Castillo, o presidente eleito do Peru Pedro Castillo, 51 anos, é um professor do ensino primário com mestrado em psicologia educacional. Ele ganhou notoriedade em 2017 ao liderar uma greve de professores em várias regiões do país que durou 75 dias. Os manifestantes exigiam, entre outras coisas, um aumento salarial para professores peruanos. O símbolo da campanha de Castillo, um lápis gigante, mostra qual foi a pegada na sua caminhada eleitoral rumo à “Casa de Pizarro” –sede oficial do governo do Peru. Em sua campanha, que lhe garantiu a vitória no primeiro turno, ele propôs que educação e saúde sejam considerados direitos fundamentais dos peruanos, bem como o combate à corrupção –calcanhar de Aquiles de sua adversária, Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori. Castillo concorreu à Presidência do país andino pelo partido “Peru Libre”, que se define como uma agremiação marxista-leninista. O virtual presidente eleito é um “ex-rondero” (membro da ronda de camponeses, uma organização de defesa da comunidade). Subestimiado pela direita e pela esquerda, a candidatura de Castillo cresceu especialmente nas duas semanas que antecederam as eleições. O lema de Pedro Castillo na campanha foi “nunca mais um homem pobre em país rico!” Castillo propõe convocar uma nova Constituição Política, por meio de uma assembleia constituinte, para atribuir ao Estado um papel ativo como regulador do mercado. Nesse projeto, o virtual presidente peruano deseja a nacionalização de setores estratégicos como mineração, gás e petróleo.
Em edição especial, ‘The Economist’ critica Bolsonaro e vê ‘década sombria’

Cristo Redentor respira com uma máscara de oxigênio (Reprodução) Reportagem mostra situação do Brasil e diz que presidente quer destruir as instituições A revista britânica The Economist, uma das mais conceituadas publicações do mundo, traz nesta semana uma edição especial sobre o Brasil com uma série de críticas ao governo Jair Bolsonaro. Como em outras vezes que se referiu ao país, a revista traz na capa uma nova ilustração do Cristo Redentor, desta vez respirando com uma máscara de oxigênio. No especial, que é capa da revista sob o título ‘A década sombria do Brasil’, a revista descreve o presidente brasileiro como um homem que quer “destruir as instituições, não reformá-las”, “esmagou todas as tentativas” de uma exploração sustentável da Amazônia e revelou serem “falsos” todos os votos favoráveis à renovação política. Ao citar o apoio dos militares a seu governo, a revista diz que os generais que se aliaram a ele “esperavam fazer avançar a agenda do Exército” mas, “em vez disso, prejudicaram suas reputações” e afirma que, “sob Eduardo Pazuello, o Ministério da Saúde parecia uma ‘boca de fumo’ (escrito em português e traduzido) para hidroxicloroquina”. O especial termina com uma reportagem intitulada “Hora de ir”, que afirma que o futuro do país depende do resultado de 2022. O texto cita o apoio dos militares ao atual presidente, mas destaca o ônus aos generais em apoiar o presidente e os riscos de Bolsonaro, e seus apoiadores cada vez mais armados, não aceitarem um resultado adverso nas urnas. Em março de 2016, a revista deu a foto da então presidente Dilma Rousseff na capa, também com o mesmo título, “Hora de ir”. A reportagem aborda a dificuldade dos partidos de centro em encontrar um nome em comum para a disputa do pleito e, ao citar Lula, que lidera as pesquisas eleitorais, afirma que o ex-presidente “precisa mostrar como o manejo da pandemia custou vidas e formas de sustento, e como Bolsonaro governou para sua família e não para o Brasil”. Para a Economist, “o ex-presidente deve oferecer soluções, não ‘saudades’ (escrita em português e traduzida como nostalgia)” dos anos em que governou o país. Para a revista, “para voltar aos trilhos, o Brasil deve lidar com velhos problemas”, citando favorecimentos fiscais para a indústria e para funcionários públicos e leis tributárias e trabalhistas que distorcem ou desencorajam o investimento. A reportagem foi a locais como Camaçari, na Bahia, para mostrar o “sonho adiado” das pessoas que ascenderam à classe C ao longo dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva mas que, depois de uma série de problemas listados pela publicação (em especial as medidas econômicas adotadas no governo Dilma Rousseff), passaram a viver em um contexto de desemprego e queda de renda. O retrato é Vinícius Rabelo, um neto de plantadores de mandioca que trabalhou na fábrica (recém-fechada) da Ford na cidade e que, hoje, vive como motorista de Uber. A revista cita uma série de problemas que levaram a esse quadro, passando por uma falha do PT em não investir em uma infraestrutura que prometesse ganhos de longo prazo, a política econômica de Dilma, um controle de gastos nunca realizado pelo País e, por fim, a crise do coronavírus e a baixa taxa de vacinação. Porém, a revista aponta “vislumbres de esperança” com a agricultura em alta, as commodities voltando a terem preços em alta e, no caso de Camaçari, a transformação da cidade em um hub logístico entre Salvador e o oeste da Bahia. ‘Andando para trás’ Menos otimista é a reportagem “Andando para trás”, que aborda o fim da Operação Lava Jato sob o governo Bolsonaro e a aliança malsucedida entre o presidente e o juiz da operação, Sergio Moro “que estava orientando promotores inapropriadamente” durante as investigações. O texto descreve os retrocessos no País para o controle da corrupção, mesmo após toda a investigação feita a partir das delações de executivos da Odebrecht, e ainda cita os esforços do presidente, tensionando as instituições, para proteger os filhos de investigações criminais. A reportagem diz que o caso do “tratoraço”, revelado pelo Estadão, em que o Ministério do Desenvolvimento destinou até R$ 3 bilhões para compras suspeitas de superfaturamento para parlamentares, “minou as alegações de Bolsonaro de que não houve nenhum escândalo desde que ele assumiu o governo”. A Economist foi ainda para o Território Sete de Setembro, terra indígena na divisa entre Rondônia e Mato Grosso, na reportagem mais longa do especial, “Árvores de dinheiro”, que disseca os conflitos entre indígenas, madeireiros, garimpeiros e criadores de gado, tendo com a preservação da Amazônia como pano de fundo. A reportagem destaca que os povos residentes na região são os mais pobres do País, afirma que as oportunidades de renda a partir das atividades ilegais acabam atraindo mesmo os indígenas moradores das áreas protegidas e que faltam investimentos em pesquisa na região. O texto fala em “cruzada” lançada pelo ministro Ricardo Salles contra o Fundo Amazônia e relembra da reunião ministerial de abril do ano passado, em que ele sugeriu “ir passando a boiada” de desregulamentação enquanto a atenção da imprensa estava na covid-19 e dá exemplos desse esforço em alterações legais, citando a autorização para garimpo em territórios indígenas. Isso sem deixar de citar a perseguição a agentes da Polícia Federal que investigam Salles. Ao olhar para os demais políticos do País, no texto “Necessidade de reformas”, a publicação britânica diz que “Brasília está cheia de políticos jovens com ideias velhas”, citando frase da deputada federal Joênia Wapixana (Rede), primeira indígena do Congresso. O texto destaca que, depois dos protestos de 2013 e de 2016, que terminaram com o impeachment de Dilma, o parlamento brasileiro sofreu sua maior renovação, mas as expectativas de reformas políticas não se concretizaram. “Reformas mais profundas podem incluir distritos menores, regras de financiamento de campanha mais rígidas e admissão de candidatos independentes. Mas nada disso parece provável”, afirma a Economist. Ainda no campo político, a revista explora o fator do voto evangélico na disputa eleitoral, e analisa
Papa quer que Igreja ultrapasse divisões entre direita e esquerda

Santa Missa na solenidade de Pentecostes (Vatican Media) ‘Nem direita nem esquerda, mas harmonia na Igreja’, pede Francisco na Basílica de São Pedro A Igreja deve ultrapassar as divisões entre direita e esquerda, disse na manhã deste domingo (23) o papa na Basílica de São Pedro. Na homilia da missa de Pentecostes, Francisco afirmou que “se dermos ouvidos ao Espírito, deixaremos de nos focar em conservadores e progressistas, tradicionalistas e inovadores, de direita e de esquerda” pois, “se fossem estes os critérios, significava que a Igreja se esquecia do Espírito”. É que “o Paráclito impele à unidade, à concórdia, à harmonia das diversidades e faz-nos sentir parte do mesmo Corpo, irmãos e irmãs entre nós”. O papa refletiu sobre os efeitos consoladores do Espírito Santo e pediu aos fiéis para fazerem o mesmo à sua volta, “sem grandes discursos, mas aproximando-nos das pessoas; não com palavras empoladas, mas com a oração e a proximidade”. Porque hoje “é o tempo da consolação, é o tempo do anúncio feliz do Evangelho, mais do que do combate ao paganismo; é o tempo para levar a alegria do Ressuscitado, não para nos lamentarmos do drama da secularização; é o tempo para derramar amor sobre o mundo, sem abraçar o mundanismo; é o tempo para testemunhar a misericórdia, mais do que para inculcar regras e normas”. Francisco também aconselhou a viver o presente e não no passado ou no futuro. “O Paráclito afirma o primado do hoje, contra a tentação de fazer-se paralisar pelas amarguras e nostalgias do passado, ou de focar-se nas incertezas do amanhã e deixar-se obcecar pelos temores do futuro”, acrescentou. “Não há tempo melhor para nós: agora e aqui onde estamos é o único e irrepetível momento para fazer bem, fazer da vida uma dádiva. Vivamos no presente!” Regina Coeli Após a missa, o papa voltou a apelar à unidade da Igreja, antes da recitação da oração do Regina Coeli. “Na Igreja, há grupelhos que procuram sempre a divisão e se separam dos outros. Isto não é do espírito de Deus. O espírito de Deus é harmonia, é unidade, une as diferenças”, afirmou Francisco. O papa recordou a figura usada por “um bom cardeal, que foi arcebispo de Génova”: “que a Igreja é como um rio e o importante é estar dentro. Se vais para um lado ou para o outro lado não interessa, o Espírito Santo é que faz a unidade”. “E não olhes para as miudezas, em que tu estás de um lado e aquele do outro, ou este reza de um modo e aquele de outro modo… Isto não é de Deus. A Igreja é para todos”, concluiu Francisco. China Após a recitação do Regina Coeli, o papa pediu orações pelos católicos da China, que esta segunda-feira celebram a festa de Maria Auxiliadora, particularmente venerada no Santuário de Nossa Senhora de Sheshan, perto de Xangai. “Convido-vos a acompanhar, com a oração, os fiéis cristãos na China, os nossos caríssimos irmãos e irmãs, que tenho no mais fundo do meu coração. Que o Espirito Santo, protagonista da missão da Igreja no mundo, os guie e os ajude a ser portadores do alegre anúncio, testemunhas de bondade, de caridade, e construtores, na sua pátria, de justiça e de paz”, disse. Francisco deixou uma saudação ao “grande país” asiático, onde a Virgem Maria é venerada com “particular devoção” no Santuário de Sheshan e é invocada pelas famílias cristãs, “nas provações, nas esperanças da vida diária”. “Como é bom, como é necessário que os membros de uma família e de uma comunidade cristã estejam cada vez mais unidos no amor, na fé. Deste modo, os pais, os filhos, os avós, as crianças, pastores e fiéis podem seguir o exemplo dos primeiros discípulos, que na solenidade de Pentecostes eram unânimes na oração, com Maria, à espera do Espírito Santo”, acrescentou. Em setembro de 2018, Pequim e a Santa Sé assinaram um acordo sobre a nomeação dos bispos católicos, renovado em 2020. Francisco recordou ainda que Nossa Senhora Auxiliadora, celebrada a 24 de maio, é a padroeira principal da Família Salesiana, “que trabalha tanto, tanto na Igreja” em favor dos marginalizados e da juventude. “Que o Senhor os abençoe e os faça seguir em frente, com muitas vocações santas”, disse. Leia a íntegra da homimilia do santo padre para a Eucaristia de Pentecostes na Basílica de São Pedro em 23 de maio de 2021: Homilia “Virá o Paráclito, que Eu vos hei de enviar da parte do Pai” (cf. Jo 15, 26). Com estas palavras, Jesus promete aos discípulos o Espírito Santo, o dom supremo, o dom dos dons; e fala do Espírito, usando uma palavra particular, misteriosa: Paráclito. Debrucemo-nos hoje sobre esta palavra, que não é fácil de traduzir pois encerra vários significados. Substancialmente, Paráclito significa duas coisas: Consolador e Advogado. 1. O Paráclito é o Consolador. Todos nós, especialmente em momentos difíceis como este que estamos a atravessar, por causa da pandemia, procuramos consolações. Muitas vezes, porém, recorremos só a consolações terrenas, que depressa se extinguem, são consolações momentâneas. Hoje Jesus oferece-nos a consolação do Céu, o Espírito, o “Consolador perfeito” (Sequência). Qual é a diferença? As consolações do mundo são como os anestésicos: oferecem um alívio momentâneo, mas não curam o mal profundo que temos dentro. Insensibilizam, distraem, mas não curam pela raiz. Agem à superfície, ao nível dos sentidos, e dificilmente do coração. Com efeito, só dá paz ao coração quem nos faz sentir amados tal como somos. E o Espírito Santo, o amor de Deus, faz isso: como Espírito que é, age no nosso espírito, desce ao mais íntimo de nós mesmos. visita “o íntimo do coração”, pois é “das almas hóspede amável” (ibid.). É a ternura de Deus em pessoa, que não nos deixa sozinhos; e o facto de estar com quem vive sozinho, já é consolar. Irmã, irmão, se sentes a escuridão da solidão, se trazes dentro um peso que sufoca a esperança, se tens no coração uma ferida que queima, se não encontras a via
Vacinação contra Covid-19 aumenta a desigualdade no mundo e países pobres sequer iniciaram imunização

OMS estima que a lenta vacinação em alguns países pode prolongar a pandemia. (AFP Photo) Países ricos têm 15% da população mundial, mas concentram 45% de todas as doses disponíveis O avanço das campanhas de vacinação contra a Covid-19 no mundo, que bateu nesta semana a marca de 1,6 bilhão de doses aplicadas, ampliou a desigualdade entre países ricos e pobres. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os países de alta renda, com 15% da população mundial, compraram 45% de todas as vacinas disponíveis. Cerca de dez países, a maioria na África, sequer aplicaram uma única dose. O Chade é um deles. Com 15 milhões de habitantes, o país só deve receber as primeiras doses da Pfizer em junho. Médicos e enfermeiros ainda não foram vacinados. Também não começaram a vacinação Burkina Faso, Eritreia, Burundi e Tanzânia – que, em fevereiro, disse que não pretendia “aceitar” vacinas. Pequenas ilhas do Pacífico, como Vanuatu, também não iniciaram campanha de vacinação, mas têm menos urgência porque não registraram grandes surtos. O cenário preocupa especialistas. A OMS estima que a lenta vacinação em alguns países pode prolongar a pandemia. Os grandes laboratórios afirmam que seria possível imunizar a maioria da população mundial até o fim de 2021, mas especialistas alertam que países mais pobres podem conseguir terminar a inoculação apenas em 2024. O cenário favorece o surgimento de novas variantes, mais contagiosas e letais, como as cepas identificadas na África do Sul e na Índia, que podem ser resistentes às vacinas, comprometendo a imunidade em todo o mundo. “Nós já sabemos que uma variante, a sul-africana, é menos suscetível à proteção da vacina da AstraZeneca”, afirma o epidemiologista Chris Beyrer, da Escola de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins. “Enquanto as pessoas mais suscetíveis não forem imunizadas, o vírus continuará evoluindo, e isso pode minar a geração atual de vacinas”. As causas para a desigualdade no acesso às vacinas são muitas. A primeira, mais óbvia, é de ordem econômica. Países mais pobres têm dificuldades para comprar doses e enfrentam problemas de infraestrutura e distribuição. O ‘nacionalismo da vacina’, ou concentração de vacinas por parte de países ricos, é outra – como poucas vacinas foram aprovadas e a capacidade de produção é limitada, nações que conseguiram encomendar grandes estoques saíram na frente. Além disso, a logística é um grande problema. “As vacinas que usam RNA mensageiro (como Pfizer e Moderna) são muito eficientes e muito seguras. Mas são difíceis de fazer, armazenar, distribuir”, explica Beyrer. A quebra de patentes, posição agora defendida pelos EUA, não seria uma solução mágica, acredita. “É uma ciência muito avançada, e levantar as patentes não mudaria nada no curto e médio prazo, porque precisaria haver uma transferência significativa de tecnologia e de capacidade de construção (de laboratórios). É um investimento que vale a pena, mas levará tempo.” A preocupação se estende a países que já adquiriram vacinas, mas não conseguem acelerar suas campanhas. Quase 30, entre eles África do Sul, Austrália e Armênia, aplicaram a primeira dose em menos de 1% da população. Só 20 países ultrapassaram a marca de 50%. A imunização com vacinas de menor eficácia – como a russa Sputnik e a chinesa Sinovac – também pode ser um problema. “Há múltiplas vacinas agora, mas poucas têm alta eficácia. Temos casos como o do Chile, onde há alta cobertura, mas não há diminuição em taxas de infecção e hospitalização”, afirma Beyrer. Mais de 90% das doses administradas no país até o momento são da Coronavac. A falta de investimento em produção e distribuição de vacinas também têm consequências econômicas. De acordo com a Statista, empresa alemã especializada em mercado, a previsão é de que as principais economias do mundo registrem uma perda de 4,5% do PIB em razão da pandemia. Um estudo publicado em março na revista Science afirma que investimento extra no desenvolvimento e aplicação de vacinas poderia ter economizado trilhões de dólares em todo o mundo. De acordo com o estudo, se os governos tivessem investido para acelerar as campanhas em três meses, US$ 700 bilhões seriam economizados – ou US$ 1,3 trilhão, se forem contabilizados os custos de saúde, em um cálculo conservador. Algumas ações vêm sendo tomadas para reverter o cenário. O consórcio Covax, mecanismo da OMS para distribuição de vacinas, forneceu 71 milhões de doses, a maioria para países pobres. Alguns governos, como EUA e Suécia, anunciaram doações excedentes. Pfizer e União Europeia doaram 100 milhões de doses para países de baixa e média renda. Para a diretora do Departamento de Imunização da OMS, Katherine O’Brien, as medidas são bem-vindas, mas outras precisam ser tomadas. “A doação de países que compraram muitas doses precisa acontecer em grande escala”, afirma. “Eles também podem trabalhar com as empresas que fornecem as vacinas para que elas sejam prioritariamente entregues ao Covax.” O’Brien destaca que não há vacina suficiente para imunizar toda a população global. Por isso, defende prioridades. “Os meios de alocar vacinas precisam ser baseados em termos de necessidade e de impacto para a saúde pública, não em base de competição por contratos e em quem pode pagar”, afirma. Produtores de vacina, segundo ela, deveriam priorizar o compartilhamento de insumos com outros países, que também poderiam fabricar suas doses. Para O’Brien, o desenrolar das campanhas de vacinação amplia as desigualdades. “Se falharmos em responder à desigualdade que já existe em relação às vacinas, com certeza isso poderia tornar a desigualdade geral ainda pior”, afirma. “Nenhum país está salvo até que todos estejam a salvo.” Brasil Avanço da vacinação contra a Covid aumenta a desigualdade no mundo Para a professora do Coppead/UFRJ Cláudia Araújo, países menos desenvolvidos, como o Brasil, enfrentam desafios específicos. “Sofremos mais com questões de transporte e armazenagem do que países menores, mais desenvolvidos, que têm infraestrutura e estradas melhores”, afirma. “Temos dimensões continentais. Então, nosso grande desafio é manter as propriedades e a qualidade da vacina por todo o deslocamento dentro do território nacional.” Para ela, a pandemia evidenciou uma grande dependência em relação aos países mais ricos.
Número de mortes causadas pela Covid-19 pode ser três vezes maior que o relatado, diz OMS

Vista aérea túmulos em cemitério de Manaus, de vítimas da covid-19 Foto (Michael Dantas/AFP) Relatório da entidade aponta que a Covid-19 provocou no ano passado pelo menos três milhões de mortes diretas ou indiretas O excesso de mortes provocado pela pandemia é entre duas e três vezes maior que os óbitos atribuídos à Covid-19 desde a detecção dos primeiros casos no fim de 2019 na China, afirmou a Organização Mundial da Saúde (OMS). Durante a publicação de seu relatório anual sobre as estatísticas de saúde no mundo, a OMS informou que a Covid-19 provocou no ano passado pelo menos três milhões de mortes diretas ou indiretas. Mas o balanço oficial de óbitos atribuídos ao coronavírus no fim de 2020 era de 1,8 milhão. “Isto corresponde a estimativas similares, que previam que o número total de mortes seria ao menos duas a três vezes maior que o balanço oficial de mortos por covid-19”, afirmou Samira Asma, vice-diretora geral responsável por dados na OMS. De acordo com os cálculos, a especialista acredita que a pandemia provocou até o momento “de seis a oito milhões” de mortes diretas e indiretas. “A pandemia de Covid constitui uma ameaça importante para a saúde e o bem-estar das populações de todo o mundo”, destacou. Samira Asma afirmou ainda que a OMS está trabalhando com os países para determinar qual é o “verdadeiro balanço humano da pandemia e, assim, estar melhor preparada para a próxima urgência”. A diferença entre os que especialistas denominam de “excesso de mortes” e o balanço oficial de óbitos vinculados à Covid-19 é provocada por vários fatores. Alguns países notificam as mortes com atraso, assim como algumas pessoas morrem sem passar por nenhum teste de diagnóstico. Outras falecem de outras doenças que não foram tratadas, por medo de comparecer ao centro de saúde ou por causa das medidas de confinamento. “O excesso de mortes nos apresenta uma imagem melhor, pois aponta os efeitos diretos e indiretos”, declarou William Msemburi, analista no departamento de dados da OMS. AFP