Por que a maioria dos evangélicos apoia o bolsonarismo sionista?

Por Jair de Souza* As últimas sondagens produzidas pela enquestadora Quaest a pedido da rede Globo voltaram a evidenciar uma situação já detectada nas anteriores: o grupo social mais afinado com o bolsonarismo em oposição ao governo de Lula está composto de pessoas vinculadas a igrejas evangélicas neopentecostais adeptas do chamado sionismo cristão. Este último é um movimento político de extrema direita surgido nos Estados Unidos que representa na prática os interesses mais reacionários do imperialismo estadunidense e do colonialista Estado de Israel. Como sabemos, o sionismo cristão não tem absolutamente nada a ver com a simbologia representada pela figura de Jesus. A não ser pelo uso canalhesco de seu nome para atrair incautos para suas igrejas-empresa, Jesus passa muito longe dessas instituições. Após as duras palavras de Lula em condenação dos crimes de genocídio praticados contra o povo palestino pelo sionista Estado de Israel, nossa mídia corporativa, inteiramente associada ao imperialismo estadunidense e ao colonialismo israelense, decidiu pôr em movimento um plano para desgastar a imagem de Lula. A sondagem encomendada pela Globo parece ter tudo a ver com esta pretensão. Afora o fato de que a coleta dos dados tenha sido efetuada no dia da manifestação unificada do bolsonarismo e nos dois dias seguintes à mesma, as perguntas foram formuladas do jeito que a Globo gosta. Porém, a despeito dessas manipulações, os resultados revelam algumas preocupações reais que precisam ser consideradas por parte do campo popular. Assim, a enquete constatou um forte desgaste do governo Lula em relação a sondagens anteriores. A principal explicação para tal fenômeno se deveria à imensa insatisfação das comunidades evangélicas com as críticas de Lula ao Estado de Israel. É que os teóricos, ou melhor, marqueteiros, do sionismo cristão trouxeram para o Brasil as teorias criadas nos Estados Unidos que dizem que defender o Estado de Israel em quaisquer circunstâncias é um dever de todo cristão. E os que estão empenhados na campanha para desgastar a imagem de Lula querem fazer valer a ideia de que seu grande erro teria sido traçar um paralelo entre os crimes do Estado de Israel contra as crianças palestinas e os crimes do nazismo contra os judeus na Europa. Como é sabido, os sionistas israelenses, os sionistas brasileiros e toda a mídia capitalista de nosso país não admitem de modo algum que se faça qualquer comparação dos crimes que os sionistas israelenses estão praticando contra o povo palestino com aqueles que o nazismo hitlerista cometeu contra vários outros grupos humanos, incluindo milhões de judeus europeus. Em outras palavras, por mais que os sionistas israelenses matem como os nazistas alemães matavam, por mais que os sionistas israelenses submetam milhões de pessoas à fome e à privação das mais mínimas condições de vida, exatamente como os nazistas de Hitler submetiam, é estritamente proibido fazer qualquer menção a esta escancarada coincidência. Em vista de que, na atualidade, são os evangélicos que formam o mais numeroso componente da base de sustentação do bolsonarismo-sionismo em nosso país, muitos dos lutadores do campo popular andam em busca de formas que possam afastar pelo menos uma parcela significativa de seus integrantes da influência nefasta dessa ideologia de extrema direita que atua para garantir os interesses do grande capital e do imperialismo. Quais seriam as concessões passíveis de serem aceitas? O que teria necessariamente que ser rejeitado? Vamos tentar produzir alguma argumentação em relação a isto. Primeiramente, gostaria de recordar a nossos leitores o que foi feito pela centro-esquerda social-democrata na Europa nas últimas décadas do século passado para reverter um estado de derrotas constantes para as forças direitistas. Ali, partidos como British Labour Party (Partido Trabalhista Britânico) e o SPD (Partido Social-democrata Alemão) e outros decidiram fazer estudos aprofundados sobre as aspirações dos eleitores de seus países para, a partir dos dados coletados, poder oferecer aos votantes aquilo que eles esperavam receber. O resultado dessa atitude foi o retorno ao poder de várias dessas agremiações e, como consequência, os partidos social-democratas europeus são atualmente, em muitas ocasiões, até mais reacionários do que os tradicionais partidos de direita. Reino Unido e Alemanha são bons exemplos disto. O que eu quis deixar evidente no parágrafo anterior é que a atitude de sondar o eleitorado para descobrir o que vai pela sua cabeça e, então, oferecer-lhe aquilo que vai ao encontro disto não passa de um comportamento de gritante oportunismo, algo indigno de um partido que tenha por meta alterar as bases de injustiças do sistema político em questão. Há um excelente documentário sobre este tema produzido pelo jornalista inglês Adam Curtis, da BBC. Estou me referindo a The Century of Self, disponível no Youtube, também com legendas em português (O Século do Ego). Aqui em nosso país, o debate se dá quanto a que fazer para ganhar o voto de, pelo menos, uma parcela significativa dos evangélicos e, com isto, impedir que as forças de extrema direita, em especial o bolsonarismo, continuem sendo as escolhas preferenciais dos eleitores vinculados a esta ramificação do cristianismo. Muitos atribuem a origem deste crescimento da base de sustentação da extrema direita ao surgimento das redes digitais de comunicação, já que eles teriam aprendido a dominar com muito mais habilidade ferramentas do tipo Whatsapp, Facebook, Instagram, Twitter, Youtube, etc. Porém, precisamos ter consciência de que jamais teríamos condições de competir em pé de igualdade com a extrema direita neste quesito. Todas as grandes plataformas que sustentam essas redes são de propriedade de bilionários que, evidentemente, não costumam ser defensores das propostas populares. Por isso, nós jamais teremos acesso aos algoritmos estratégicos de maneira equivalente ao que ocorre com os extremistas de direita, os mais ferrenhos apoiadores do neoliberalismo e dos interesses do grande capital. Por outro lado, o fato de estar amplamente inferiorizado na posse e domínio dos meios de comunicação não é nenhuma novidade para a esquerda brasileira. Por muito tempo, antes de que as redes digitais viessem à tona, estivemos inteiramente à mercê dos grandes conglomerados de comunicação, sem a mínima condição de competir em pé de igualdade.
A nova mentira de Ciro Gomes, o Jim Jones do sertão

Ciro falou num debate recente que já está devendo 5 milhões de reais em processos judiciais, quase sempre motivados por xingamentos pesados contra figuras públicas. A justiça bloqueou suas contas e de sua esposa. Mas parece que ele quer mais. Ele insiste em contar mentiras contra Lula. Essa história dos precatórios é picaretagem pura. Ciro nem sabe do que está falando, mas agora, com a teimosia pirracenta que o caracteriza irá levar mais esse delírio suicida até o final. É o Jim Jones do sertão. Vai acabar tomando outro processo de alguém. Suas grosserias no Ceará fizeram o PDT implodir no estado, perdendo quase todos seus prefeitos e deputados (que vão sair assim que tiver janela). Seus irmãos se distanciaram, horrorizados com sua loucura. Cid Gomes apoia Lula e Elmano com bom senso e equilíbrio. Seus seguidores não têm mais ideologia coerente. Tornaram-se violentos contra o PDT (que paga o salário de Ciro) e não tem qualquer perspectiva política ou eleitoral. Oscilam entre um esquerdismo delirante e agressivo de DCE, e uma onda reacionária e exagerada contra os “identitários”. Ciro se tornou um dos mais violentos e nefastos quadros da antipolítica. Não a toa virou o palhaço favorito da extrema direita. Em seu ódio descontrolado a Lula e ao PT, Ciro Gomes atacou seu próprio partido nessa última entrevista à CNN. Seus irmãos, ele já vem atacando desde o ano passado com a babaquice de “facada nas costas” e “traição“. Suas críticas ao governo são tão carregadas de ressentimento, inveja, rancor, que ele fica parecendo personagem de um romance barato. Eu votei em Ciro em 2018, mantive uma simpatia por ele em 2019 e 2020, até que ele surtou completamente, e virou essa besta fera, que só fala besteira, fica se autoelogiando em toda entrevista de maneira patética, abusando de uma retorica barulhenta, vulgar, com excesso de adjetivos, e xingando Lula descontroladamente. Agora está claro que Ciro se tornou um golpista, disposto a assumir qualquer risco, para si e para o país, em nome da destruição de Lula e do PT. Perdeu qualquer estribeira ética, qualquer senso de responsabilidade política. Seu ódio é tão irracional que parece disposto a destruir seu partido, sua militância, seu estado, seu país, tudo em nome de uma vingança ensandecida, pois na cabeça foi vítima de um grande complô maligno liderado por Lula, Caetano Veloso e a Mynd. Não estou brincando, é isso que pensa este neo-ciro do ódio. Mais um pouco e ele estaria no 8 de janeiro, quebrando tudo ao lado dos terroristas. Mas ele se tornou sobretudo patético, pois diz que não quer saber de política, mas agora não para de bajular o PSDB cearense, um partido completamente apagado e sem voto no estado, além de infestado de terra planistas, negacionistas e ultra reacionários. Sua última aparição foi por esses dias, num comício de pré-candidatura de uma pequena cidade do Ceará, onde o grupo de Ciro aposta pesado pra indicar um vice numa chapa encabeçada pelo PSDB. Via O Cafezinho
STF está a apenas um voto de decidir pela descriminalização do porte de maconha

O Plenário do Supremo Tribunal Federal suspendeu mais uma vez nesta quarta-feira (6/3) o julgamento que vai decidir sobre a descriminalização do porte de maconha e estabelecer balizas para diferenciar tráfico e uso pessoal. O ministro Dias Toffoli pediu vista. Até o momento, o julgamento está 5 a 3 pela descriminalização. Dos cinco votos da corrente vencedora até agora, quatro entendem que devem ser presumidos como usuários aqueles que guardam, adquirem, têm em depósito, transportam ou trazem consigo até 60 gramas de maconha, ou seis plantas fêmeas. O tribunal analisa o crime previsto no artigo 28 da Lei de Drogas, que fixa penas para quem “adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização”. A discussão é feita no julgamento do Recurso Extraordinário 635.659. Em tese, as penas previstas na norma não levariam à prisão, mas, no máximo, às demais consequências de um processo penal. Na prática, no entanto, a falta de distinção clara pode fazer — e tem feito — com que usuários sejam classificados como traficantes, ficando sujeitos a penas privativas de liberdade. Prevalece até o momento o voto do lministro Gilmar Mendes, relator do caso. De início, ele propôs a descriminalização da posse de qualquer droga, mas depois reajustou o voto para que a interpretação se aplique apenas ao uso da maconha. Votaram com o relator os ministros Edson Fachin, Luís Roberto Barroso, Alexandre de Moraes e Rosa Weber (hoje aposentada). O ministro Cristiano Zanin divergiu. Para ele, o artigo 28 da Lei de Drogas é constitucional. O magistrado propôs, no entanto, a diferenciação entre tráfico e uso. Para ele, pessoas com até 25 gramas devem ser presumidas como usuárias, não traficantes. Zanin foi seguido pelos ministros André Mendonça e Kassio Nunes Marques. Voto do relator Gilmar apresentou seu voto em agosto de 2015. Para ele, “a criminalização da posse de drogas para uso pessoal conduz à ofensa à privacidade e à intimidade do usuário. Está-se a desrespeitar a decisão da pessoa de colocar em risco a própria saúde”. O voto do relator se baseia no argumento da Defensoria Pública de São Paulo, autora do recurso julgado. A alegação dos defensores paulistas é que o artigo 28 da Lei de Drogas é inconstitucional por violar o direito fundamental à intimidade e à privacidade. Eles também afirmam que criminalizar o uso de drogas viola o princípio da lesividade, segundo o qual só podem ser consideradas criminosas as condutas que afetem bens jurídicos de terceiros ou coletivos. De acordo com o relator, o direito de personalidade “não está limitado a determinados domínios da vida”. Ele se aplica, segundo o ministro, “a diferentes modos de desenvolvimento do sujeito, como o direito à autodeterminação, à autopreservação e à autoapresentação”. “Nossa Constituição consagra a dignidade da pessoa humana e o direito à privacidade, à intimidade, à honra e à imagem. Deles pode-se extrair o direito ao livre desenvolvimento da personalidade e à autodeterminação”, sustentou Gilmar. Depois do voto do relator, os ministros Barroso e Fachin votaram pela descriminalização do porte de maconha, ainda em 2015. O caso, então, foi paralisado por pedido de vista do ministro Teori Zavascki, morto em acidente de avião em 2017. O julgamento foi retomado em 2 de agosto de 2023, com o voto-vista de Alexandre, que propôs a fixação de parâmetros objetivos para diferenciar usuários de maconha e traficantes. Após novo pedido de vista, feito pelo ministro André Mendonça, o caso foi retomado nesta quarta-feira. Voto de Alexandre de Moraes Alexandre apresentou um denso voto, baseado principalmente em estudo feito pela Associação Brasileira de Jurimetria. O levantamento conclui, por exemplo, que jovens, negros e analfabetos são considerados traficantes com maior frequência, mesmo quando presos com quantidade de droga inferior à apreendida com pessoas acima dos 30 anos, brancas e com ensino superior. Pessoas analfabetas, por exemplo, são consideradas traficantes quando presas com uma média de 32 gramas de maconha, enquanto a média para pessoas com ensino superior é de 49 gramas, de acordo com a pesquisa. Alexandre também destacou que a falta de parâmetros claros para diferenciar usuários e traficantes levou a uma discricionaridade “exagerada” das autoridades policiais, do Ministério Público e do Judiciário. “Triplicou-se em seis anos o número de presos por tráfico de drogas, mas não triplicamos o número de presos brancos, com mais de 30 anos e ensino superior, e, sim, o de pretos e pardos sem instrução e jovens. É preciso garantir a aplicação isonômica da Lei de Drogas para evitar que, em virtude de nível de instrução, idade, condição econômica e cor da pele, você possa portar mais ou menos maconha”, disse o ministro. Para Alexandre, a quantidade é um critério importante, mas não o único. De acordo com o ministro, outros pontos devem ser considerados na hora de diferenciar o usuário do traficante, como as condições observadas no momento da prisão (se a pessoa foi pega vendendo) ou se itens como balança e cadernos de anotação indicam que o abordado é traficante, entre outros. Segundo o ministro, a quantidade, nos casos envolvendo pouca droga, cria apenas uma “presunção relativa”, não servindo, sozinha, para qualificar tráfico ou uso. “Em muitos flagrantes, os únicos elementos descritivos são a quantidade e o testemunho da autoridade policial. É preciso que isso seja mais bem trabalhado e que se analisem outros fatos, como a apreensão de instrumentos como celulares e balanças e as circunstâncias de apreensão.” O ministro propôs a seguinte tese de repercussão geral: 1) Não tipifica o crime previsto no artigo 28 da Lei 11.343/2006 a conduta de adquirir, guardar, ter em depósito, transportar ou trazer consigo, para consumo pessoal, a substância entorpecente maconha, mesmo sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar; 2) Nos termos do parágrafo 2º do artigo 28 da Lei 11.343/2006, será presumido usuário aquele que adquirir guardar, ter em depósito, transportar ou trazer consigo de 25 a 60 gramas de maconha ou seis plantas fêmeas; 3) A presunção do item anterior é relativa, não estando a autoridade policial e seus
Moraes proíbe Bolsonaro e ex-ministros de irem a eventos das Forças Armadas

Decisão inclui Braga Netto, Augusto Heleno, Paulo Sergio Nogueira e Anderson Torres, além de Valdemar Costa Neto O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), proibiu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ex-ministros do seu governo, como Braga Netto (Casa Civil e Defesa), Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Paulo Sergio Nogueira (Defesa) e Anderson Torres (Justiça), de participarem de eventos das Forças Armadas. A decisão, proferida na quinta-feira (7), envolve investigados por uma suposta tentativa de golpe de Estado antes, durante e depois das eleições de 2022, em que Bolsonaro perdeu a reeleição para o atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ela também alcança o presidente do partido de Bolsonaro, Valdemar Costa Neto (PL), que foi preso na Operação Tempus Veritatis. Moraes proibiu os investigados de irem a “cerimônias, festas ou homenagens realizadas no Ministério da Defesa, na Marinha, na Aeronáutica, no Exército e nas Polícias Militares”. Em caso de descumprimento da decisão judicial, todos estão sujeitos a multa de R$ 20 mil. A Polícia Federal (PF) investiga se Bolsonaro e seus ex-ministros tentaram dar um golpe de Estado e abolir o estado democrático de direito no Brasil em 2022, após o então presidente ser derrotado nas urnas por Lula. Além de ex-ministro da Defesa e da Casa Civil, Braga Netto também foi candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro e também está inelegível até 2030
Março das Mulheres | Conheça a verdadeira história do 8 de março

Pesquisadora afirma que a origem da data foi propositalmente dissociada da luta das trabalhadoras da União Soviética Todos os anos, divulga-se a história de que o Dia Internacional da Mulher surgiu em homenagem a 129 operárias estadunidenses de uma fábrica têxtil que morreram carbonizadas, vítimas de um incêndio intencional no dia 8 de março de 1957, em Nova York. Segundo a versão que circula no senso comum, o crime teria ocorrido em retaliação a uma série de greves e levantes das trabalhadoras. Embora essa seja a narrativa mais conhecida, quando se fala sobre a origem da data comemorativa, ela não é verdadeira. O primeiro registro remete a 1910. Durante a II Conferência Internacional das Mulheres em Copenhague, na Dinamarca, Clara Zetkin, feminista marxista alemã, propôs que as trabalhadoras de todos os países organizassem um dia especial das mulheres, cujo primeiro objetivo seria promover o direito ao voto feminino. A reivindicação também inflamava feministas de outros países, como Estados Unidos e Reino Unido. No ano seguinte, em 25 de março, ocorreu um incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, em Nova York, que matou 146 trabalhadores — incluindo 125 mulheres, em sua maioria mulheres imigrantes judias e italianas, entre 13 e 23 anos. A tragédia fez com que a luta das mulheres operárias estadunidenses, coordenada pelo histórico sindicato International Ladies’ Garment Workers’ Union (em português, União Internacional de Mulheres da Indústria Têxtil), crescesse ainda mais, em defesa de condições dignas de trabalho. As russas soviéticas também tiveram um papel central no estabelecimento do 8 de março como data comemorativa e de lutas. Por “Pão e paz”, no dia 8 de março de 1917, no calendário ocidental, e 23 de fevereiro no calendário russo, mulheres tecelãs e mulheres familiares de soldados do exército tomaram as ruas de Petrogrado (hoje São Petersburgo). De fábrica em fábrica, elas convocaram o operariado russo contra a monarquia e pelo fim da participação da Rússia na I Guerra Mundial. A revolta se estendeu por vários dias, assumindo gradativamente um caráter de greve geral e de luta política. Ao final, eliminou-se a autocracia russa e possibilitou-se a chegada dos bolcheviques ao poder. A atuação de mulheres russas revolucionárias como Aleksandra Kollontai, Nadiéjda Krúpskaia, Inessa Armand, Anna Kalmánovitch, Maria Pokróvskaia, Olga Chapír e Elena Kuvchínskaia, é considerada imprescindível para o início da revolução. “A história real do 8 de março é totalmente marcada pela história da luta socialista das mulheres, que não desvincula a batalha pelos direitos mais elementares — que, naquele momento, era o voto feminino — da batalha contra o patriarcado e o sistema capitalista”, ressalta a historiadora Diana Assunção, integrante do coletivo feminista Pão e Rosas. A pesquisadora explica que houve uma articulação histórica para esvaziar o conteúdo político do 8 de março, transformá-lo em “uma data simbólica inofensiva” e em um nicho de mercado, apagando sua origem operária. “No dia da mulher, compram-se flores e presentes para as mulheres. Tentam esconder o conteúdo subversivo do significado desse dia, que é questionar o patriarcado. Tentam esconder que a luta das mulheres sempre esteve vinculada à luta socialista, perigosa para o status quo”, acrescenta Assunção. Em 1921, na Conferência Internacional das Mulheres Comunistas, o dia 8 de março foi aceito como dia oficial de lutas, em referência aos acontecimentos de 1917. A data foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975. Retornar às origens A cada 8 de março, as mulheres trazem à tona questionamentos sobre a hipocrisia em torno das homenagens que recebem apenas nessa data. Em todos os dias do ano, o gênero feminino é o principal alvo da violência e da desigualdade. Em resposta, trabalhadoras em todo o mundo se organizam cada vez mais pela defesa de seus direitos. Em 2017 e 2018, elas organizaram uma greve internacional com adesão de 40 países, com o lema “Se nossas vidas não importam, que produzam sem nós”. Assunção comemora o “resgate de um método de luta da classe operária de enfrentamento aos patrões e aos capitalistas”. “O que estamos vendo é justamente que a revolta e a luta de classes têm rosto de mulher a nível internacional, com a luta a que estamos assistindo nos últimos anos, com essa verdadeira primavera feminista no mundo inteiro, com enormes marchas. Mas, agora, com uma cara cada vez mais operária”, ressalta. “As mulheres são metade da classe operária, e as mulheres negras estão mostrando que são linha de frente em vários processos de luta”. A historiadora avalia que é importante resgatar a verdadeira origem do Dia Internacional da Mulher, pois, segundo ela, foram as proletárias que avançaram efetivamente em medidas concretas para atacar os pilares que sustentam a opressão às mulheres. “Mais do que nunca, precisamos da organização dos trabalhadores com as mulheres à frente, mostrando que são vanguarda, inclusive da classe operária. Enfim, sacudindo os movimentos, os sindicatos, com toda força expressada internacionalmente”, enfatiza. Assunção possui grandes expectativas para o 8 de março de 2019, comemorado com mobilizações em dezenas de países e em todos os estados do Brasil. “O oito de março que estamos vivendo agora precisa ser internacional, como parte da luta por uma paralisação internacional de mulheres, que enfrente o Bolsonaro [PSL], que enfrente todos os presidentes da extrema direita. Essa é a perspectiva que deveria ser levada à diante. Por Marielle e por todas as mulheres assassinadas. É preciso entender que o capitalismo é uma suja prisão, e que precisamos lutar por uma nova sociedade”, defende a pesquisadora, ressaltando, mais uma vez, o legado das mulheres revolucionárias. Via Brasil de Fato
Governo derrotado e oposição fortalecida: o saldo das comissões na Câmara

A eleição dos deputados bolsonaristas Caroline de Toni (PL-SC), na presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), e Nikolas Ferreira (PL-MG), para presidir a Comissão de Educação da Câmara dos Deputado expôs uma grave fratura na base de apoio do governo do presidente Lula (PT) na Casa. Após horas de negociação, o partido do presidente Lula não conseguiu reverter os nomes que buscava evitar nos colegiados tidos como fundamentais para o andamento de projetos do governo na Câmara. Na escolha das comissões, o governo saiu derrotado. “Só quero que isso acabe logo”, disse o deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG), um dos poucos petistas que circularam pelos corredores das comissões, enquanto o processo estava paralisado por horas na tarde desta quarta-feira (6). Foram horas seguidas de pauta travada. Embora a sala da CCJ seja a primeira no corredor das comissões, era lá no fundo do longo passadiço que a confusão eclodiu. Com Nikolas Ferreira indicado pelo PL para presidir a Educação, o governo ligou o alerta, e decidiu que iria trabalhar por uma manobra regimental para adiar a votação de todas as comissões. O PL não recuou, e a crise foi instalada, reverberando em todos os colegiados, que tiveram os trabalhos paralisados. Por horas a fio, as salas das comissões só registraram presença de jornalistas e assessores, que ficavam informando por meio de mensagens os passos da comissão de Educação aos respectivos chefes. Enquanto isso, o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, recebia em seu gabinete alguns parlamentares e disparava o recado: o governo não estava disposto a aceitar, no comando de comissões, parlamentares da base que assinaram o pedido impeachment de Lula. O requerimento de impeachment foi apresentado dias após Lula associar, em entrevista coletiva, os ataques de Israel à Faixa de Gaza ao Holocausto contra os judeus, comandado por Adolf Hitler. O governo de Israel reagiu e declarou o presidente persona non grata no país. Capitaneado pela deputada Carla Zambelli (PL-SP), o pedido de impeachment tem a maioria das assinaturas vindas de deputados do PL, principal partido de oposição. Há, contudo, parlamentares do PP e do PSD que assinam o documento. Ambos os partidos têm representantes na Esplanada dos Ministérios. “Nem sei o que tenho de fazer ainda”, disse o líder do PSD na Casa, Antonio Brito (BA), que chegou ao plenário no final da tarde. Diante da negativa do PL para recuar em meio à pressão, quem teve de recuar foi o PT. Sem comissões instaladas, até mesmo projetos do governo poderiam ficar ameaçados de atraso, já que demandam análise dos colegiados. Para evitar os prejuízos, o PT chegou a dizer, nos bastidores, que aceitaria Nikolas Ferreira na Educação. Mas não queria Caroline de Toni na CCJ. Acabou que o governo perdeu os dois espaços de presidência. Deputada mais oposicionista do Congresso Nacional em 2023, Caroline de Toni garantiu o comando do colegiado mais importante da Casa. Ela, que poucas horas antes, estava em um evento do PL Mulheres, acusando o governo de ter se “apropriar das crianças das famílias”, afirmou em seu discurso que terá como prioridade a qualidade dos projetos de lei em tramitação, e não a quantidade. Ela acredita haver um ritmo excessivo de normas aprovadas anualmente pelo Congresso Nacional, e defende que uma redução desse ritmo em prol da segurança jurídica. “Acredito que nós temos que ter metas de qualidade e de necessidade conforme os principais pleitos da sociedade”, disse. Via: Congresso em Foco
TSE cassa 96 prefeitos por compra de voto, ficha suja e abuso de poder desde 2020

O cumprimento da Lei da Ficha Limpa figura como o principal motivo para a cassação, seguido pela compra de votos e o abuso de poder econômico e político A sete meses das eleições municipais, levantamento feito pelo GLOBO aponta que pelo menos 96 prefeitos eleitos em 2020 perderam seus mandatos, o equivalente a dois chefes de Executivo por mês desde que assumiram seus postos. O cumprimento da Lei da Ficha Limpa figura como o principal motivo para a cassação, seguido pela compra de votos e o abuso de poder econômico e político. O estado com o maior número de trocas é São Paulo. Já os partidos que mais perderam municípios foram o MDB e o PSDB. Para especialistas, apesar da morosidade da Justiça e os muitos recursos apresentados pelas defesas dos políticos, o número de cassações é considerado expressivo. De acordo com o levantamento, que teve como base informações divulgadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a realização de eleições suplementares, 56 prefeitos eleitos em 2020 foram enquadrados na Lei da Ficha Limpa. As irregularidades que levaram à inelegibilidade dos candidatos passaram pela rejeição de contas de governos anteriores, condenações por improbidade administrativa, danos ao Erário e penas criminais, além do uso irregular dos meios de comunicação. “Resultado expressivo” A compra de votos também desponta como uma prática enraizada nas eleições municipais. Ao menos 15 investigações resultaram em cassação. Já o abuso de poder político e econômico, como gastos de campanha que superaram o previsto pela legislação eleitoral, renderam 12 cassações. Há também entre os motivos para as condenações questões como irregularidades na prestação de contas de campanha e nos registros de candidaturas e partidos. A desincompatibilização de cargos públicos fora do prazo determinado pela legislação e os chamados grupos familiares — quando parentes diretos são eleitos e configuram um terceiro mandato consecutivo, o que é proibido — também pesaram nas decisões da Justiça Eleitoral.
A Justiça lhe espera, diz Cappelli sobre investigação de Bolsonaro

Presidente da ABDI afirmou que os acampamentos realizados por apoiadores de Bolsonaro foram autorizados e protegidos pelas Forças Armadas. O presidente da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), Ricardo Cappelli, disse que o general Freire Gomes disse o “óbvio” em seu depoimento à PF (Polícia Federal) na última 6ª feira (1º.mar.2024). Em publicação em seu perfil no X, Cappelli, que já foi secretário-executivo do Ministério da Justiça e Segurança Pública, afirmou que os acampamentos realizados por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foram autorizados e protegidos pelas Forças Armadas. “Faça um teste. Tente montar uma barraca na frente de um QG do Exército. Você não dura 5 minutos. O general Freire Gomes revelou o óbvio: os acampamentos golpistas foram autorizados e protegidos pelo então comandante supremo das Forças Armadas: Jair Bolsonaro. A justiça lhe espera”, escreveu. O depoimento de Freire Gomes está mantido sob sigilo. Segundo relatório da PF, o general Freire Gomes e o comandante da FAB (Força Aérea Brasileira), o brigadeiro Baptista Junior, teriam resistido à ideia de golpe de Estado. Contudo, no documento, a corporação diz ser necessário avançar nas investigações para apurar uma possível conduta omissiva dos militares. Em conversas obtidas pela PF, Walter Souza Braga Netto, candidato a vice na chapa de Bolsonaro, chamou Freire Gomes de “cagão” ao saber que ele não aceitou participar do suposto plano de golpe de Estado.
Bolsonaristas pagaram para impulsionar denúncias falsas sobre Marajó

Políticos bolsonaristas pagaram para impulsionar postagens com denúncias falsas sobre um suposto esquema de exploração infantil no Arquipélago do Marajó (PA). O tema viralizou nas redes depois da apresentação da cantora Aymeê Rocha, que denunciou abusos contra crianças na região em um reality show gospel, no dia 15 de fevereiro. Famosos e influenciadores passaram a compartilhar o vídeo da apresentação e conteúdos falsos ou , que trazem desinformação sobre a região. Ilha de Marajó se tornou o assunto mais pesquisado no Google no Brasil em 21 de fevereiro. Segundo a Agência Pública apurou, a partir do dia 24 de fevereiro, políticos bolsonaristas patrocinaram postagens repercutindo as denúncias no Instagram e no Facebook. Ao menos seis políticos investiram até R$ 100 para alavancar esses conteúdos: os deputados federais Luciano Galego (PL), do Maranhão, e Maurício Neves (PP), de São Paulo, o deputado estadual do Pará e ex-superintendente regional do Incra Coronel Neil (PL), a vereadora de Navegantes (SC) Lú Bittencourt (PL), os vereadores de São Paulo Reinaldo Digilio (PRB) e Lucas Ferreira (sem partido). Ao todo, as publicações renderam quase 80 mil impressões, que é a quantidade de vezes que o anúncio apareceu para usuários do Facebook e Instagram. A postagem que mais teve impressões foi a do deputado estadual Coronel Neil (PL). A propaganda circulou de 24 a 26 de fevereiro, rendendo aproximadamente 10 mil impressões. De acordo com uma pesquisa do NetLab/UFRJ, o deputado estadual também impulsionou anúncios para convocar caravanas para ato pró-Bolsonaro na avenida Paulista, no último domingo (25). Na publicação sobre o Marajó, o Coronel Neil aproveita a apresentação da cantora gospel para falar da sua atuação na região. O vídeo usa várias fotos dele ao lado da senadora e ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos Damares Alves. A vereadora Lú Bittencourt conseguiu aproximadamente 8 mil impressões no post patrocinado, em que reproduz o vídeo da apresentação de Aymeê Rocha. O conteúdo começou a circular no dia 26 de fevereiro e foi direcionado a moradores de Santa Catarina. A vereadora também fez outras postagens sobre as supostas denúncias de exploração infantil no Marajó. No dia 27 de fevereiro, ela postou novamente o vídeo da apresentação. As duas postagens semelhantes patrocinadas pelo vereador Lucas Ferreira mobilizam apoio para o Instituto Akachi, que ganhou fama ao mobilizar uma campanha de arrecadação de doações para combater a exploração infantil no Marajó. Os conteúdos circularam a partir de 23 de fevereiro, conquistando cerca de 10 mil impressões. O Akachi informa, em sua página na internet, que trabalha com crianças vítimas de violência. O instituto tem sido indicado por influenciadores e políticos – como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) – para receber doações para o Marajó via Pix. Em nenhuma das divulgações, porém, fica claro que a organização pertence a uma corrente evangélica e tem como um dos donos um pastor e ex-candidato bolsonarista. Henrique Krigner é um dos sócios do Akachi e diretor da ONG, que tem sede em Pariquera-Açu, em São Paulo. Ele é uma das principais lideranças da igreja evangélica Zion Church e do Dunamis Movement, que promove cursos, eventos e ações voltadas a disseminar a fé principalmente entre jovens. Krigner é um dos organizadores do The Send Brasil, um dos principais eventos de música gospel do país, que recebeu críticas por fazer doutrinação política de jovens evangélicos e teve a presença do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2020. Krigner foi candidato a vereador de São Paulo em 2020 pelo Partido Progressista (PP), da base do ex-presidente. Recebeu mais de 16 mil votos, mas não se elegeu. “Bolsonarista convicto, ele não diz em suas redes sociais se concorrerá novamente nas eleições deste ano, mas comentários em suas postagens parecem já estar em clima de torcida”, diz um deles, na semana passada. Em 2020, apesar de ser um estreante na política, ele foi um dos candidatos que mais receberam doações – mais de R$ 920 mil, sendo R$ 650 mil de seu partido. O restante do dinheiro para a candidatura do político veio, em boa parte, de grandes empresários, como o ex-secretário de Desestatização do governo Bolsonaro e dono da Localiza, Salim Mattar, e o bilionário Hélio Seibel, um dos donos da gigante de insumos para marcenaria Leo Madeiras e um dos maiores acionistas da Dexco (Deca e Duratex). Outro doador é o fundador da Zion e Dunamis, o pastor Teo Hayashi, que doou R$ 15 mil ao colega de igreja. Krigner gastou quase tudo o que recebeu na campanha. A quinta maior despesa que teve, no entanto, foi com a Big Wave Media, uma produtora de vídeos da qual também é sócio. Em 2018, ele foi um dos representantes da Zion Church em uma sessão solene na Assembleia Legislativa de São Paulo que homenageou Sarah Hayashi, fundadora da igreja. O evento foi presidido pelo então deputado e hoje prefeito de Americana Chico Sardelli, também aliado de Bolsonaro. Em 2022, Sarah Hayashi recebeu a Medalha da Ordem do Mérito Princesa Isabel, uma honraria criada pelo governo Bolsonaro, das mãos de Damares Alves, ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. Em 2022, o líder da Zion Teo Hayashi estava ao lado de Silas Malafaia e outros pastores pop em um vídeo para declarar apoio a Bolsonaro no início da sua campanha à reeleição. A Pública entrou em contato com os políticos que impulsionam conteúdos relacionados às denúncias sobre o Marajó, mas não recebeu resposta até a publicação. Krigner e Akachi não responderam até a publicação. A igreja Zion, o Marajó e Damares Um dos representantes da Zion, o pastor Lucas Hayashi, já publicou um vídeo, em 2019, sobrevoando o Marajó supostamente a convite de Damares. “Representando a sociedade civil por meio da Zion Church e do Dunamis Movement, fomos até a Ilha do Marajó, lá no Pará, com o objetivo de analisar as demandas da saúde, educação e assim contribuir com o Governo Federal, juntamente com o Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos e a ministra Damares Alves, e com o programa Abrace Marajó”, disse. Damares Alves
Somente 20% das mulheres brasileiras conhecem bem a Lei Maria da Penha

É o que mostra Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher Apenas duas em cada dez mulheres se sentem bem informadas em relação à Lei Maria da Penha, que criou mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher e foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. Os dados fazem parte da 10ª edição da Pesquisa Nacional de Violência Contra a Mulher, realizada pelo Observatório da Mulher Contra a Violência (OMV) e o Instituto DataSenado, ambos do Senado. A sondagem é bianual e foi divulgada nesta quarta-feira (28) em Brasília. Ela envolveu entrevistas por telefone com 21.787 mulheres de 16 anos ou mais entre os dias 21 de agosto a 25 de setembro do ano passado. Esta é primeira edição do levantamento que traz dados por estado. O estudo atualiza, também pela primeira vez, o Mapa Nacional da Violência de Gênero, projeto viabilizado pelo OMV, o Instituto Avon e a organização Gênero e Número, que cobre questões de gênero e raça no Brasil e na América Latina desde 2016. Na avaliação de Beatriz Accioly, coordenadora de Parcerias do Instituto Avon, o que chama bastante a atenção na pesquisa é que a Lei Maria da Penha é conhecida pela população brasileira de maneira geral, mas quando se pergunta o quanto as pessoas sabem da lei, sobretudo as mulheres, percebe-se que o conhecimento ainda é muito pequeno. “É quase de ouvir falar. Não dá segurança de saber exatamente o que a lei garante em termos de direitos e o que ela muda de fato”, disse Beatriz à Agência Brasil. Ela explicou que a pesquisa alerta para a necessidade de entender não só o que as pessoas já ouviram falar sobre a lei, mas o quanto elas conhecem nos detalhes, o quanto esse conhecimento têm a ver com os seus próprios direitos. De acordo com o estudo, mesmo nas localidades onde há maior conhecimento entre a população feminina sobre a Maria da Penha, o índice é muito baixo, passando pouco de 30%. É o caso do Distrito Federal (33%), Paraná (29%) e Rio Grande do Sul (29%). “O conhecimento está muito longe de ser o ideal”, afirmou Beatriz. As mulheres das regiões Norte e Nordeste são as que afirmam conhecer menos a Lei Maria da Penha, principalmente no Amazonas (74%), Pará (74%), Maranhão (72%), Piauí (72%), em Roraima (71%) e no Ceará (71%). Diagnóstico Para a coordenadora de Parcerias do Instituto Avon, o diagnóstico mostra que ainda não se conversa tanto sobre a lei quanto é necessário. “É preciso furar a bolha”. O objetivo é aumentar a parcela da população com conhecimento sobre a legislação. Isso pode ser feito a partir da construção de medidas educativas e de conscientização sobre leis, recursos e políticas públicas voltadas para o enfrentamento à violência de gênero, afirma Daniela Grelin, diretora executiva do Instituto Avon. Para ela, o maior conhecimento é fundamental para que as mulheres brasileiras possam reivindicar seus direitos, além de interromper ciclos de abusos e agressões. A coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência, do Senado, Maria Teresa Prado, destaca que a pesquisa constitui ferramenta que pode auxiliar os legisladores na criação de leis, políticas públicas e programas que funcionem de fato e que sejam mais adequados às especificidades de cada estado. Segundo Beatriz Accioly, todos os senadores e senadoras vão receber um relatório específico de seu estado, com diagnóstico do território. “É necessário que a gente alerte os parlamentares para o fato de que esse problema de violência familiar contra a mulher é um dos mais graves. É preciso que eles conheçam a realidade de seus estados e possam cobrar das autoridades locais mudanças de atuação para reverter a situação”. A presidente e diretora de conteúdo da Gênero e Número, Vitória Régia da Silva, lembrou que a dificuldade em reconhecer situações de violência e a falta de conhecimento dos próprios direitos podem impedir que as vítimas tenham acesso aos serviços da rede de proteção. Por isso, é preciso mudar esse cenário. Índice Em relação ao grau de conhecimento sobre os serviços que integram a rede de proteção à mulher, há equilíbrio entre as unidades federativas brasileiras. A delegacia da mulher é o serviço mais conhecido entre elas (95%), enquanto a Casa da Mulher Brasileira, por sua vez, é conhecida por somente 38% das entrevistadas. A pesquisa identificou também que o índice nacional de mulheres que declaram ter solicitado medidas protetivas para a sua segurança é de 27%, à exceção do Rio Grande do Sul, onde 41% das mulheres que sofreram violência com base no gênero solicitaram medidas protetivas. Beatriz Accioly avaliou, entretanto, que embora o Rio Grande do Sul, junto com Paraná e o Distrito Federal, sejam os locais onde o grau de conhecimento das mulheres sobre a Lei Maria da Penha é “menos pior” no Brasil, ainda há muito a avançar. “Esses dados mostram que as pessoas sabem que a lei existe. Mas elas precisam conhecer os seus instrumentos, as suas ferramentas, como utilizar a lei e transformá-la em direito difuso”, disse Beatriz. Mapa Lançado em novembro de 2023, o Mapa Nacional da Violência de Gênero é uma plataforma interativa que reúne os principais dados nacionais públicos e indicadores de violência contra as mulheres, incluindo a Pesquisa Nacional de Violência contra as Mulheres, mais longa série de estudos sobre o tema no país. Legislação A Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006, tornou mais rigorosas as penas contra crimes de violência doméstica. O nome da lei é uma homenagem a Maria da Penha Maia, farmacêutica e bioquímica cearense que sofreu diversas tentativas de homicídio por parte do marido. Em maio de 1983, ele deu um tiro em Maria da Penha, que ficou paraplégica. Após aguardar a decisão da Justiça por 15 anos e sem resultado, ela entrou com uma ação contra o país na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Esse foi o primeiro relato sobre violência doméstica feito ao órgão na América Latina. Em 2001, o Estado