Temer vira “réu fantasma”, mas não de Moro

– O Supremo Tribunal Federal deu hoje uma no cravo e outra na ferradura. – Autorizou o seguimento do processo da JBS contra Rodrigo Rocha Loures, Geddel Vieira Lima e Eduardo Cunha. Como, até prova em contrário Michel “Tem de Manter Isso, Viu” Temer está na ponta deste rolo, o processo tem tudo para ser hilariante. Imaginem o interrogatório, reduzido “a termos”: QUE, no dia tal de abril, por ordem de (não pode falar o nome dele) procurou o senhor Ricardo Saud para dele receber uma mochila com R$ 500 mil para ser entregue a (não pode falar o nome dele) como parte do pagamento de um acordo para que a Petrobras vendesse mais barato gás para a usina elétrica da JBS. QUE, no dia seguinte, recebeu um telefonema de (não pode falar o nome dele) para que acertasse um encontro do Palácio do Jaburu…. Mas os ministros, por seis a quatro, decidiram que, neste caso, a jurisdição universal de Sérgio Moro não se aplica – e ninguém entende porque se aplicaria -, enviando o processo para a Justiça Federal de Brasília. Luís Roberto Barroso prestou-se ao papel ridículo de usar um trocadilho na sessão para falar do medo que políticos teriam de serem julgados pelo juiz Sergio Moro, na 13ª Vara Federal de Curitiba. “É o que vem sendo denominado periculum in Moro”, disse fazendo trocadilho com a expressão “periculum in mora”, usada para definir urgência em decisões judiciais. Chega a dar vergonha que um Ministro do STF faça “brincadeirinha” com o princípio do juiz natural – fundamento essencial do Estado de Direito – como a demonstrar o estado de miséria moral de nossa Suprema Corte. Não tenho, é obvio, qualquer simpatia pelos réus – nem pelo “réu-fantasma” Temer – mas é impossível atinar qual é a ligação do caso com a Lava Jato para que se repita o ardiloso ato de Rodrigo Janot de, no Supremo, invocar uma suposta conexão que entregasse o caso a Luiz Edson Fachin, seu “ministro de confiança”. Quando um palerma não sabe distinguir seus sentimentos em relação aos réus da letra da lei, coloca até mesmo um ser desprezível como Temer como vítima do arbítrio. Via Fernando Brito – Tijolaço
Meu nome é Arena, mas pode me chamar de MDB

– O Governo Michel temer parece estar decidido a, em tempo recorde, roubar-nos tudo, até a memória. – É o que faz com essa “mudança” de nome do PMDB para MDB, onde muitos dos que temos perto dos 60 anos andamos no passado, porque era o único lugar onde se podia andar, na oposição ao regime autoritário, com menos chance de “sumir no caminho”. Principalmente nós, de esquerda, que tínhamos militância de esquerda, clandestina, com coisas que soariam ridículas hoje: codinomes, “pontos” (encontros cronometrados), “finanças” (na faculdade, cineclubes, feiras de livros e outras formas de garantir a sobrevivência de quem estava na ilegalidade). O MDB, ao menos aqui no Rio, nos dava algum espaço de militância legal, assumida, ainda que difícil, porque era Chagas Freitas o dono do partido e nos sobrava o gueto assegurado pelo pessedista Amaral Peixoto. Consolávamo-nos pensando que o chaguismo – conservador e pró-regime – era um fenômeno local e que o PMDB “autêntico” era ou seria maioria nacional. “Ameaçou” ser, em 1978, mas logo refluiu para seu lugar conservador, com o surgimento, em 1982, do PDT de Brizola e do PT de Lula. O MDB ficou velho, porque era a “geléia geral”, mas só renegou a frase de Ulysses Guimarães e virou velhaco com o governo Sarney. Agora, velhacos como Romero Jucá, Moreira Franco e Michel Temer reeditam a velha sigla. Que é tudo, menos o velho “Movimento Democrático Brasileiro”. É a paralisia, é o autoritarismo e é o entreguismo. Precisa mudar de nome, porque, direita que é agora, precisa tentar mudar de cara, como a Arena-PFL-DEM já mudou tantas vezes que nem se lembra mais quem é. E vão por aí os Pode, Podemos, Novo, Patriotas e outros que tais. O que sustenta o velho Brasil tem de se vestir de novo, de tempos em tempos, para que continue a ser velho e finja ser diferente do que já não nos serve mais. Desculpem-me os politcamente corretos, mas não dá para deixar de lembrar o antológico samba dos “Demônios da Garoa”: “Eu perguntei então seu nome, você me disse, as amiga me chamam Crarice, mas meu nome é Claudionor“. Via Fernando Brito – Tijolaço
Argentina vira praça de guerra contra reformas

Dezenas de milhares de trabalhadores foram às ruas Buenos Aires para protestarem contra a proposta de reforma da Previdência de Maurício Macri Agência Brasil – A violência registrada do lado de fora da sede do Congresso da Argentina por enfrentamentos entre grupos de manifestantes e a polícia se agravou nesta segunda-feira (18) durante a sessão que discute a polêmica reforma da Previdência no país proposta pelo governo, enquanto a oposição pede que a sessão seja suspensa. Segundo o jornal Página 12, por volta das 18h (19h em Brasília) o saldo era de 81 feridos. De acordo com o Ministério da Saúde do país, mais de 60 pessoas foram atendidas em hospitais. A situação chegou a tal ponto que, apesar da determinação de que a segurança no entorno do Congresso caberia somente à polícia de Buenos Aires, o contingente não foi suficiente e decidiu-se pela intervenção de agentes da Polícia Federal e da Gendarmaria, uma força de natureza militar que responde diretamente ao Executivo nacional. Antes do início da sessão, às 14h locais (15h em Brasília), manifestantes convocados por organizações sociais e sindicais atiraram pedras e garrafas contra os policiais. Também lançaram rojões e fizera barricadas com as grades que cercam o Palácio Legislativo. Depois disso, a polícia começou a disparar balas de borracha e a usar gás de pimenta. Os incidentes ocorrem depois que, na quinta-feira passada (14), quando o projeto seria discutido em outra sessão, houve um enfrentamento entre gendarmes e manifestantes que deixou dezenas de feridos e vários detidos. Sessão tensa Enquanto a violência aumentava do lado de fora do Congresso, deputados de oposição pediam a suspensão da sessão. “Pedimos que reflitam. É uma situação grave, gravíssima. Tomemos a decisão de suspender esta sessão como forma de evitar a violência na Argentina”, disse o deputado opositor Agustín Rossi, da coalizão kirchnerista Frente para a Vitória. O pedido para suspender a sessão também ganhou o apoio de alguns aliados de Macri, como a deputada governista Elisa Carrió, da coalizão do presidente. Ela, no entanto, fez ressalvas sobre a organização das manifestações contra a reforma da previdência. “Eu pedi a suspensão da sessão, mas peço que todas essas manifestações e o que está ocorrendo do lado de fora seja observado pelo promotor penal e pelo juiz que está lidando com a conspiração institucional”, disse a deputada. “Estamos fazendo discurso entre nós e lá fora há uma batalha campal”, alertou a deputada Cecilia Moreau, do partido Unidos por uma Nova Argentina. “O que vemos é a resposta repressiva do governo frente a alguns grupos. Estamos vendo agentes sem identificação arrastando pessoas pelas ruas. A responsabilidade é do presidente da nação, Maurício Macri”, afirmou o deputado Guillermo Carmona, do partido Frente para a Vitória. No entanto, o presidente da Câmara, Emílio Monzó, da coalizão Cambiemos, base da administração Macri, decidiu manter a sessão e às 19h (20h em Brasília) o texto começou a ser discutido. O Cambiemos conseguiu o quórum de pelo menos 130 parlamentares para a sessão, após um um acordo que incluiu o apoio do partido Justicialistas, do bloco radical, e de governadores de 11 províncias, como Missiones, Córdoba, Chaco, Tucumán e Entre Ríos. Um dos principais pontos do projeto é a mudança da fórmula para calcular os reajustes das aposentadorias. Segundo o governo, a reforma permitirá que os aposentados ganhem mais em 2018. A oposição e os sindicatos discordam do governo, alegando que haverá cortes nos setores mais vulneráveis. Mudança nas regras A proposta em votação muda a forma de cálculo do reajuste das aposentadorias. A argumentação é que essa nova fórmula, acrescida de abonos que seriam concedidos em 2018, vai beneficiar os aposentados. A oposição e organizações sindicais discordam e alegam que a fórmula vai trazer perdas salariais frente à evolução da inflação. A reforma faz parte de um pacto fiscal assinado em novembro por 23 dos 24 governadores da Argentina e Macri. O governo federal repassará recursos às províncias que, em troca, economizarão através de mudanças no sistema previdenciário. Nesta segunda-feira (18), a Confederação Geral do Trabalho, a maior central operária da Argentina, convocou uma greve geral de 24 horas em todo país. Para que os trabalhadores possam voltar aos seus lares, a paralisação no sistema de transporte começará de forma integral após a meia-noite desta segunda-feira
LULA LIDERA ATÉ EM SÃO PAULO. ALCKMIN É O TERCEIRO

– O detalhamento da mais recente pesquisa CUT/Vox Populi sobre a corrida presidencial mostra que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera com folga até mesmo no estado de São Paulo, principal reduto do PSDB. – No plano nacional, em um cenário com cinco postulantes à Presidência, Lula lidera com 45% do voto estimulado, seguido por Bolsonaro (15%), Marina Silva (7%), Alckmin (6%) e Ciro Gomes (3%). Brancos e nulos somam 14%. Não responderam 11% dos entrevistados. Em São Paulo, no cenário de 10 postulantes, Lula segue na liderança com 28% do voto estimulado. Na sequência, vem Bolsonaro (14%) e Alckmin (9%). Marina Silva e Joaquim Barbosa somam, cada um, 4% das intenções. Ciro Gomes tem 1% e os demais candidatos não chegaram a pontuar. Brancos, nulos e indecisos somam 40%. No voto espontâneo, em que não é apresentado o nome dos candidatos, Lula também lidera com 28% do votoso eleitores paulistas, seguido por Jair Bolsonaro (com os mesmos 15%) e Alckmin (11%). Marina Silva tem 5% das intenções de voto e Ciro Gomes, 2%. Brancos, nulos e indecisos somam 40%. No voto espontâneo, Alckmin também figura em terceiro lugar. No Brasil, Lula lidera com 38% das menções, seguido por Bolsonaro (11%), Alckmin e Marina Silva, com 2% cada um deles. Em São Paulo, o petista segue na dianteira com 26%, à frente de Bolsonaro (11%) e do governador paulista (5%). A ex-ministra Marina Silva segue em 2% das intenções. O Vox Populi consultou, de 9 a 12 de dezembro, 2 mil brasileiros com mais de 16 anos de idade, residentes em 118 municípios de todos os estados e do Distrito Federal, em áreas urbanas e rurais. A margem de erro é de dois pontos percentuais, estimada em um intervalo de confiança de 95%.
Montes Claros amplia Ecocrédito para proteger florestas e nascentes

Com o objetivo de premiar e incentivar produtores rurais a preservar e recuperar áreas de relevante interesse ambiental, a Prefeitura de Montes Claros ampliou o Ecocrédito, um programa de crédito ambiental que deve ser utilizado para incentivar a preservação de recursos naturais, a proteção de nascentes, no melhoramento das condições ambientais da fauna e flora. O Ecocrédito premia, para cada hectare preservado, um bônus de R$ 166,15 por ano de crédito destinado à conservação ambiental. O produtor que adere ao programa é recompensado por conservar nascentes e áreas de preservação permanente. A compensação é feita com a entrega de cédulas, descontadas no pagamento de tributos municipais – IPTU, ISS, ITBI e Taxas Municipais. Pode também usar para pagar lances em leilões de bens do município ou em pagamento por serviços voltados à preservação ambiental. As cédulas podem ser usadas como moeda em compras em qualquer loja – de adubo ou defensivos, por exemplo. Compete ao comerciante usá-las no recolhimento de impostos na prefeitura. Para o prefeito Humberto Souto, essa lei é um avanço para Montes Claros. “O ecocrédito ajudará a cidade a enfrentar os impactos causados pela seca, e é por isso que a Prefeitura acredita neste importante programa na preservação ambiental, que gera receita para produtores rurais do município que cuidam de matas e nascentes e adotam práticas conservacionistas de agricultura. E mais, além do bônus, o município ainda disponibilizará arames para o cercamento das nascentes, que beneficia o produtor, o município e o meio ambiente.”, comentou Souto. Fonte: Ascom/Prefeitura de Montes Claros
Saluzinho, o herói assustador que resistiu ao cerco militar

– Camponês viveu seis dias em uma gruta até negociar sua rendição; imprensa tratou posseiro como ‘fera’, e ele acabou virando um ‘bicho papão’ – Saluzinho não tinha histórico de enfrentamento ao regime militar, mas ficou com fama de assassino Por Bernardo Miranda – Jornal O Tempo “O Demônio é o latifúndio”. Era a frase repetida pelo camponês Salustiano Gomes Ferreira, o Saluzinho, que virou lenda no Norte de Minas após enfrentar sozinho mais de 60 agentes da ditadura militar enquanto se escondia dentro de uma gruta por seis dias. Sua história é destacada no relatório final da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg) como uma das vítimas da perseguição contra trabalhadores rurais que lutavam por terras. Após a resistência, Saluzinho ficou preso no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em Belo Horizonte. Ele virou tema de música da região, e seu nome passou a ser utilizado para amedrontar crianças desobedientes. Na prisão, leu “Grande Sertão: Veredas” e passou a considerar a obra de João Guimarães Rosa como uma narrativa de sua vida pessoal. Saluzinho era posseiro de um terreno em Serra do Gato, no município de Varzelândia. No dia 17 de novembro de 1967, jagunços do fazendeiro Oswaldo Alves Antunes e policiais militares foram até sua casa para expulsá-lo da terra sem mandado judicial. Com uma espingarda velha, ele atingiu um jagunço e um militar, o que fez os demais desistirem de continuar a expulsão. De um simples camponês sem histórico de envolvimento em atos de resistência à ditadura, Saluzinho se transformou em um dos subversivos mais procurados da região. Com uma garrucha, um revólver 38 e duas espingardas, ele se embrenhou no sertão e se refugiou em uma gruta. Durante os três primeiros dias de perseguição, 15 PMs fizeram o cerco a Saluzinho. Eles abriram fogo, houve revide e um militar foi ferido. Os policiais tentaram incendiar a gruta com gasolina e, em seguida, usaram dinamite para desmoroná-la, mas Saluzinho resistiu. A perseguição virou notícia no Jornal “O Estado de São Paulo”, e o Dops enviou uma força especializada de 40 homens para prender o camponês. Eles utilizaram lançadores de bombas de gás por várias vezes, o que também não surtiu efeito. Ao sexto dia de cerco e com ampla cobertura da imprensa nacional, Saluzinho negociou sua rendição. “Ele não tinha confiança em polícia, tanto que a resistência dele foi maior porque ele sabia que, se saísse (da gruta), ia ser assassinado. Então ele batalhou para ter um processo de negociação, para poder não morrer ali. Quer dizer que ele também tinha consciência, e que aquilo era desproporcional”, contou Carlos Melgaço Valadares, que ficou preso no Dops junto com Saluzinho. Depois de se entregar, o camponês foi colocado na caçamba de um caminhão, que circulou por Montes Claros. Segundo o relatório da Covemg, a polícia exibiu o camponês para mostrar que havia prendido o criminoso mais perigoso do Norte de Minas. Após a prisão, os jornais passaram a tratar Saluzinho como “comunista, invasor de terras, uma fera, assassino incontrolável que tem prazer em matar”, embora ele não tivesse nenhum envolvimento político. Isso contribuiu para sua história ser contada e recontada na região por anos e ser conhecida até hoje. Porém, essa fama serviu mais para estigmatizá-lo, o que o levou a viver escondido após ser inocentado das acusações e libertado. Saluzinho morreu na miséria em 1990. Em Varzelândia, mães usam seu nome para amedrontar os filhos: “Ô, meu filho, vai pra dentro. A noite, né? Sai da rua, sai da rua, que Saluzinho vem aí, Saluzinho vem aí!”. 109 foram mortos ou “sumiram” O relatório da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg) revelou que foram mortos ou tiveram o desaparecimento forçado no Estado 109 camponeses durante a ditadura militar. O número é quase 50% maior do que o que havia nos registros anteriores sobre o período: 76 vítimas. Uma característica diferente da repressão na área urbana é que a maioria das mortes no campo aconteceu durante os anos 1980, quando o governo militar estava enfraquecido. “Tal resultado decorre de vários fatores. O primeiro deles é que, em algumas regiões, o movimento de sindicalização foi retomado mais intensamente nos anos 1980, quando houve diminuição da intervenção do Estado nos órgãos de classe e a organização política ao autoritarismo contestava o poder dos coronéis”, avalia o relatório final da Covemg. Outra hipótese é que a repressão no campo não era denunciada durante a primeira década da ditadura. Mulher foi torturada para informar paradeiro do marido Para descobrir o paradeiro de Saluzinho, policiais prenderam sua mulher e posseiros vizinhos, que foram torturados para que indicassem o esconderijo do camponês. Há a suspeita de que a morte de sua companheira tenha sido provocada pelas sequelas do espancamento que sofreu. “O sargento pegou uma tábua de bater sabão, me chamou de sem-vergonha, ladrona (sic) e criminosa e bateu muito em minha mão”, contou à época a mulher do camponês, Dulce Gonçalves Pereira, a um jornal da região. Na entrevista, ela disse que foi torturada de outra forma, mas que não contaria porque ficaria “avexada”. Mais tarde, seu filho revelou que a mãe teve os mamilos queimados e que sua morte precoce teria ocorrido em razão das sequelas da tortura. Ela morreu quando Saluzinho ainda estava preso. O próprio camponês acreditava que a mulher morrera em decorrência da violência que sofreu. “Ele não teve dúvida em falar que a esposa morreu jovem, ao 42 anos, em função das torturas que sofreu. Ele deu até o nome do médico, Dr. Pedro Santos, de Januária, que a teria atendido antes de ela falecer e teria constatado que ela teve ferimentos graves em função da tortura”, disse à Comissão da Verdade em Minas o ex-assessor sindical Luiz Antonio Chaves, que conheceu Saluzinho. Apesar dos relatos, a comissão não conseguiu encontrar documentos que pudessem comprovar a causa da morte de Dulce para que ela fosse considerada vítima da ditadura. MAIS VÍTIMASDurval de Souza.
Níveis alarmantes de desigualdade no Brasil

O 1% mais rico do Brasil fica com 27% da renda nacional. Os 10% mais ricos, com 55% – Um estudo coordenado pelos franceses Thomas Piketty, autor do best-seller O Capital no século XXI, e Lucas Chancel, da Paris School of Economics, mostrou que a desigualdade de renda no Brasil, a depender do critério utilizado, é a maior do mundo ou tem padrões equivalentes aos verificados em regiões como o Oriente Médio e a África Subsaariana. Homem dorme na favela Nova Holanda, no complexo da Maré, no Rio de Janeiro, em 13 de dezembro. Desigualdade e pobreza marcam a imagem do Brasil Divulgado na quinta-feira 14, o Relatório Mundial de Desigualdade revelou que, em 2016, o Brasil ficava em segundo lugar em um ranking de desigualdade se considerada a fatia da renda nacional capturada pelos 10% mais ricos da população. Por aqui, 55% da renda fica com essa parcela da população, número igual ao da Índia (55%) e equivalente ao da África Subsaariana (54%), atrás apenas do Oriente Médio (61%). O bloco Estados Unidos e Canadá (47%), Rússia (46%), China (41%) e Europa (37%) aparecem na sequência. Também nesta quinta, foi divulgada a base de dados do relatório. Nela, é possível ver que o 1% mais rico do Brasil fica com 27,8% da renda nacional segundo os critérios usados. É um resultado referente ao ano de 2015, o maior entre todos os países pesquisados com dados para períodos semelhantes. Atrás do Brasil aparecem Turquia (23,4%), Iraque (22%), Índia (21,7%), Colômbia (20,4%), Estados Unidos e Rússia (20,2%), África do Sul (19,2%) e Egito (19,1%) Para os autores do estudo, o Brasil, ao lado do Oriente Médio e da África Subsaariana formam a “fronteira da desigualdade”. São locais onde nunca houve um regime igualitário como os de Estados Unidos e Europa após a Segunda Guerra Mundial, e nos quais a desigualdade segue “relativamente estável em níveis extremamente altos”. A estabilidade se concentra nessas regiões, diz o estudo, enquanto as desigualdades aumentaram profundamente no mundo desde a década de 1980, em particular nos Estados Unidos. “As desigualdades aumentaram em quase todas as regiões do mundo”, afirma o relatório, que compara de maneira inédita a distribuição da riqueza a nível mundial e sua evolução em quase quatro décadas. Este fenômeno, no entanto, aconteceu com ritmos diferentes, de acordo com as regiões, afirmam os coordenadores do estudo, que apontam um forte aumento das desigualdades nos Estados Unidos, mas também na China e na Rússia, países cujas economias registraram uma significativa liberalização durante os anos 1990. De acordo com o relatório, a parte da riqueza nacional nas mãos de 10% dos contribuintes mais ricos passou de 21% a 46% na Rússia e de 27% a 41% na China, entre 1980 e 2016. Nos Estados Unidos e Canadá, este índice passou de 34% a 47%, enquanto na Europa foi registrado um aumento mais moderado (de 33% a 37%). Divergência extrema No Oriente Médio, as desigualdades estão “sem dúvida subestimadas”, destaca o relatório, que menciona uma contradição entre as estatísticas oficiais dos países do Golfo e alguns aspectos de sua política econômica, como o crescente recurso a trabalhadores estrangeiros mal remunerados. Em termos de evolução, a divergência é “extrema entre a Europa ocidental e os Estados Unidos, que tinham níveis de desigualdade comparáveis em 1980, mas se encontram atualmente em situações radicalmente diferentes”, destaca o estudo, realizado com a colaboração de mais de 100 pesquisadores de 70 países. Em 1980, a parte da riqueza nacional nas mãos de 50% dos contribuintes mais pobres era quase idêntica nas duas regiões: 24% na Europa ocidental e 21% nos Estados Unidos. Desde então, o índice permaneceu estável, a 22%, no lado europeu e caiu a 13% nos Estados Unidos. Um fenômeno que se explica, de acordo com Thomas Piketty, pela “queda das rendas da menor faixa” nos Estados Unidos, mas também por uma “desigualdade considerável na área de educação e uma tributação cada vez menos progressiva” neste país. “Isto mostra que as políticas públicas têm um forte impacto nas desigualdades”, completa. Margens de manobra A principal vítima desta dinâmica, segundo o relatório, baseado em 175 milhões de dados fiscais e estatísticas resultantes do projeto wid.world (wealth and income database), é a “classe média mundial”. Entre 1980 e 2016, o 1% dos mais ricos obteve 27% do crescimento mundial. Os 50% mais receberam apenas 12% da riqueza, mas viram sua renda aumentar significativamente. O que não aconteceu com as pessoas entre as duas categorias, cujo “crescimento da renda foi frágil”. Estas desigualdades vão aumentar ou diminuir no futuro? Em seu estudo, os autores antecipam um novo crescimento até 2050, com base nas atuais tendências. A participação do patrimônio dos mais ricos aumentaria assim de 33% a 39%, enquanto a classe média mundial veria sua participação no patrimônio cair de 29% a 27%. “Tal evolução não é, no entanto, inevitável”, explicam os autores. De acordo com as projeções, as desigualdades aumentarão caso os países sigam a tendência atual nos Estados Unidos, mas podem registrar uma leve queda caso repitam a trajetória da União Europeia. “Há margens de manobra. Tudo dependerá das decisões tomadas”, conclui Thomas Piketty, que considera necessário um “debate público” sobre as questões. * Com Carta Capital e informações da AFP
Fórum Alternativo Mundial da Água

– Movimentos sociais defendem luta contra privatização da água – A luta contra a privatização das empresas públicas de abastecimento de água e saneamento foi defendida por convidados em audiência da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa na última quinta-feira (14/12). O objetivo era lançar o Fórum Alternativo Mundial da Água (Fama) 2018, que será realizado de 17 a 22 de março de 2018, em Brasília (DF). O Fama ocorre como contraponto ao 8º Fórum Mundial da Água, considerado oficial, e que também ocorrerá em Brasília, de 18 a 23 de março. O tema do Fama é a luta contra a privatização e a comercialização da água. O autor do requerimento para a realização da reunião, deputado Rogério Correia (PT), reforçou o risco de mercantilização da água. Para ele, a privatização de usinas da Cemig, ocorrida neste ano, já significa o controle de empresas internacionais sobre esse recurso natural. Ele lembrou que a América Latina sempre exerceu o papel de fornecedora de matéria-prima para as grandes potências e que a água será o próximo recurso natural alvo de interesse.O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Purificação e Distribuição de Água e em Serviços de Esgotos (Sindágua-MG), José Maria dos Santos, disse que as empresas de energia estão sendo privatizadas e que a água agora está sendo visada. “Temos que defender nossos rios e nossa água das empresas multinacionais”, afirmou.Segundo ele, o fórum alternativo está sendo organizado pelos movimentos sociais para confrontar a política de privatização do governo federal e o interesse das multinacionais. “O desafio dos movimentos sociais é manter públicas as empresas que cuidam da nossa água”, concluiu. Recursos naturais Para a presidente regional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Beatriz Cerqueira, o que está em jogo no fórum oficial é a presença de grandes empresas internacionais, que querem comprar os recursos naturais, e o governo federal, que quer vendê-los.“Temos que nos articular, porque em pouco tempo a quantidade de água que chega nas nossas casas não estará mais no nosso controle. A luta pela água está intimamente ligada à luta contra o golpe que enfrentamos”, afirmou. Lutar pela água é defender a soberania nacional A representante da Coordenação Estadual do Movimento dos Atingidos por Barragens, Aline Ruas, afirmou que a realização do fórum alternativo é necessária para defender a soberania nacional. “A água está em disputa e precisamos garantir o nosso controle sobre ela”, disse.Aline Ruas lembrou que o País tem grande abundância de água e possui os dois maiores aquíferos do mundo. Segundo ela, o fórum oficial está sendo realizado em Brasília justamente por conta do interesse das grandes empresas internacionais pelo potencial hídrico do Brasil. “O objetivo é tornar a água uma mercadoria, mas a água é um direito das pessoas”, considerou.O deputado federal Padre João (PT-MG) defendeu a importância de que Minas Gerais chegue com uma proposta concreta, construída pelo poder público, pelos sindicatos e pelos movimentos sociais, para apresentar no fórum alternativo. Para ele, a responsabilidade de todos pela produção e consumo de água é um assunto que deve ser debatido. Vargem das Flores pode sofrer alteração no zoneamento A representante do Comitê de Defesa de Vargem das Flores, Cristina Maria de Oliveira, falou sobre a luta da comunidade para defender e preservar a represa, diante de projeto da Prefeitura de Contagem (Região Metropolitana de Belo Horizonte) que pode alterar o zoneamento da região.Ela explicou que a Vargem das Flores foi criada na década de 1960 para atender 700 mil habitantes. Entretanto, a partir dos anos 1980, a Prefeitura de Contagem teria estimulado a ocupação urbana, com a criação de bairros, além dos loteamentos irregulares que começaram a surgir.Segundo ela, a situação pode piorar agora devido a uma proposta da Prefeitura de Contagem de alterar o plano diretor do município. Cristina de Oliveira explicou que o objetivo é eliminar a área rural do município, o que viabilizaria a ocupação da parte rural da Vargem das Flores por indústrias e empreendimentos imobiliários.De acordo com ela, essa ocupação poderia gerar um impacto enorme, secando a represa e eliminando a flora e a fauna, já que a projeção é de que mais 900 mil pessoas passem a habitar a região em 50 anos. Na reunião, as entidades presentes aprovaram uma moção de apoio à defesa da represa. Rio Doce Já o representante indígena Giovani Krenak falou sobre a situação da população do Vale do Rio Doce, após a contaminação das águas com o rompimento da barragem de rejeitos de Fundão, da mineradora Samarco, no episódio que ficou conhecido como tragédia de Mariana (Região Central do Estado). Para ele, a privatização do uso da água já está acontecendo, pois devido à atuação das mineradoras, foi tirado o direito da população de nadar no rio.A vice-presidente da comissão, deputada Celise Laviola (PMDB), lamentou o ocorrido e se solidarizou com a população da região do Rio Doce. Com assessoria do deputado Rogério Correia
No tribunal, os pobres não votam

Com números, André Singer mostra os sinais que vêm do povão, diante do embrulho em que as aventuras político-judiciais nos meteram e ameaçam nos envolver de vez, na sala de sessões do TRF-4, onde trêes homens – bem-postos e com as vidas resolvidas – se substituirão a 120 milhões de eleitores brasileiros. Lulismo e antilulismoAndré Singer, na Folha O crescimento da candidatura Lula recolocou a luta de classes, ainda que refratada pela forma “ricos versus pobres”, no centro da conjuntura. Em vinte meses de acusações, denúncias e condenação –multiplicada incessantemente pela mídia–, o ex-presidente duplicou as intenções de voto. Para desespero dos que planejavam sacá-lo de cena de uma vez por todas. Em março de 2016, no auge da campanha feita para tirar Dilma do Planalto, Lula alcançou o máximo de rejeição e o mínimo de adesão. Recusado, desde 2002, por cerca de um terço do eleitorado, o líder petista chegou, então, a ter 57% contra si. Era o momento em que as gravações divulgadas por Sergio Moro alcançavam o grande público e as manifestações pelo impeachment reuniam multidões. De lá para cá, contudo, Lula começou, de novo, a crescer. É como se, lenta e continuamente, a insatisfação causada pelo governo Temer tivesse escoado em direção àquele que simboliza um período de melhora, sobretudo para os mais pobres. É deles que veio a ressurreição do lulismo. No ponto álgido do antilulismo, apenas 23% dos que estavam na base da pirâmide de renda continuavam fiéis ao criador da Bolsa Família. Agora, 45% dos que recebem até dois salários mínimos familiares mensais voltaram a depositar esperanças no ex-mandatário. O índice não está longe dos 55%, nessa faixa de renda, que optavam por Lula contra Alckmin às vésperas do primeiro turno de 2006, quando o realinhamento se fixou. Em paralelo, a rejeição a Lula, que havia atingido 49% da população mais sofrida em março de 2016, mostrando que a onda antiDilma contaminara, também ali, a figura do antecessor, refluiu, agora, para 27%. Para que se tenha uma ideia da diferença, entre os mais ricos a rejeição é hoje de 63%! Isto é, se conversarmos com três pessoas da faixa de renda superior, duas dirão que não sufragam Lula em hipótese alguma. Se repetirmos a experiência com o escalão mais baixo, não é certo que encontremos um com a mesma certeza. Devido à resistência lulista, Jair Bolsonaro, que se coloca como o campeão do antilulismo, tem crescido. Ao vocalizar o “Lula nunca mais”, o ex-militar radical atrai, neste momento, os dois sujeitos de renda mais alta que, na conversa fictícia acima, dizem as piores coisas do antigo presidente. Não significa que votarão no parlamentar carioca em 7 de outubro de 2018, mas dado o horror ao lulismo, prestam atenção às atrocidades que ele diz a cada dia. Rara vez o popular e o antipopular se confrontaram com tanta nitidez na história do país. A próxima batalha terá por cenário, em janeiro, o Tribunal Federal Regional da Quarta Região. Só que lá, os pobres não votam. * André Singer é cientista político e professor da USP, onde se formou em ciências sociais e jornalismo. Via Fernando Brito – Tijolaço.
Lula vence no primeiro turno, diz pesquisa

O ex-presidente Lula disparou nas pesquisas e venceria as eleições de 2018 já no primeiro turno. É o que diz sondagem do Data Poder 360, do jornalista Fernando Rodrigues, divulgada nessa sexta-feira (15). É o primeiro levantamento eleitoral após o TRF-4 marcar para o dia 24 de janeiro o julgamento do petista no caso do tríplex do Guarujá (SP). De acordo com o Data Poder 360, Lula venceria a disputa em todos os cenários possíveis no 1º e 2º turnos. O tucano Geraldo Alckmin e o capitão do Exército na reserva, Jair Bolsonaro, ambos com o mesmo desempenho, seriam abatidos nas urnas por Lula com a mesma facilidade. Alckmin perderia num eventual segundo turno para Lula por 41% a 28% e Bolsonaro seria derrotado pelo petista por 41% a 30%.Marina Silva tem 10% das intenções de voto. Ciro Gomes tem 6%. O DataPoder360 entrevistou 2.210 pessoas em 177 cidades, entre os dias 8 e 11 de dezembro. A margem de erro é de 2,6 pontos percentuais, para mais ou para menos.