O purgatório bolsonariano – Por Wanderley Guilherme dos Santos

 Transpondo a linguagem truculenta de ideias do século XIX para o reacionarismo megalomaníaco do século XXI, o candidato eleito projeta um governo de ocupação em guerra contra o século XX. Depois da Segunda Guerra Mundial começou a derrubada de preconceitos contra o voto feminino, a proteção ao trabalho, organizações sindicais, o pluralismo político-partidário, a laicidade do Estado. Pelo fim do século, a crescente participação extraparlamentar de movimentos em defesa de minorias raciais, religiosas, do meio ambiente, da universalização dos direitos civis, da equiparação profissional entre mulheres e homens, conquistaram legitimidade e proteção constitucional. Pois a preferência do presidente eleito e do suposto núcleo duro de sua campanha (filhos, Paulo Guedes e o presidente do PSL, partido cujos novíssimos representantes aparentam haver consumido doses industriais de LSD), todos são pelo desmantelamento de tudo isso. Aos berros e pela profusão de ameaças físicas, busca o alvará para se estabelecer como o primeiro governo civil e brutamontes da história recente. Ou muito me engano ou esta não era a intenção da vastíssima maioria de seus cinquenta e tantos milhões de votos. Sem racionalizações depois dos fatos, duvido que o modesto nicho de personagens, todos periféricos, dominasse desde o primeiro dia uma genial estratégia de campanha, derivada de sofisticada análise sociológica dos subterrâneos da sociedade brasileira. É provável que a possibilidade de vitória habitasse o mesmo cômodo dos sonhos impossíveis de milhares de candidatos derrotados à Câmara de Deputados e às Assembleias estaduais. Sem apoio empresarial, recursos humanos e meios convencionais de comunicação (que só perderam poder na análise tosca dos muito apressados), enfurnados nas guerrilhas das redes sociais, o candidato patinou durante semanas até ser identificado e adotado como intérprete da rebelião contra os políticos tradicionais, novos ou velhos (João Amoedo e Guilherme Boulos foram tão desprezados quanto Marina Silva e Geraldo Alckmin). Durante grande parte do processo eleitoral todos pensavam que Jair Bolsonaro seria derrotado por qualquer um dos famosos. O PT esmerou-se na tese de que, na hora H, isto é, quando Lula o indicasse, seu poste ganharia as eleições. O que ninguém percebeu até tarde é que aquelas multidões rebeladas buscavam um poste para derrotar o PT. Por isso os nomes tradicionais não serviam, já haviam sido derrotados mais de uma vez. Jair Bolsonaro foi o poste que derrotou o PT. Até o empresariado demorou a entender que o apoio surpreendente a Bolsonaro, a partir do meio da campanha, não era a seu fascismo de fancaria, a seu evidente desconhecimento de economia, história, relações internacionais, leis, qualquer coisa. O apoio era ao antipetismo selvagem e, por extensão, a todas as nuances do que lhe parece, sem discernimento seguro, “esquerda”. Um poste derrotou o PT e, com ele, toda a esquerda democrática. O candidato eleito parece ter consciência da inadequação ao que se espera de um presidente da República. Por trás do socorro a citações religiosas está a insegurança de quem não sabe o que responder senão a perguntas que propiciem declarações violentas contra isto ou este. A maioria delas, inviáveis sem prévio golpe de estado. Daí a terceirização do poder, a entrega de blocos do Estado a nomes que o protejam da responsabilidade de decisão autônoma. Daí a hesitação, idas e vindas e demoras sobre que políticas a praticar. Vitorioso em uma campanha vazia de propósitos específicos, sem dominar o que significa ser conservador, descobre que ameaças não governam, nem farão com que seus ministros sigam opiniões estapafúrdias como desafiar a China, ofender gratuitamente o mundo árabe ou liberar policiais para assassinatos impunes. Um presidente fraco, com um estado desarticulado em blocos de poder, comandados por personagens sem traquejo nas negociações democráticas, tem tudo para assegurar a instabilidade atual. É o purgatório em que viveremos, nós e seus eleitores. Via: O Cafezinho

Hoje é dia de rememorar o grande clássico entre Cassimiro e Ateneu

 Quase duas décadas depois, o clássico Ateneu versus Cassimiro volta a movimentar a cidade. A ideia do reencontro nasceu da diretoria do Broca, que entendeu que essa fosse a melhor maneira para inaugurar o novo gramado do Estádio João Rebello, que passou e deve seguir com inúmeras reformas. A partida tem importante valor por ser um marco no ressurgimento do Ateneu, que há anos luta pela sobrevivência. Por Carlos Castro Jr. – Jornal O Norte  Gratidão ao clube e aos seus fundadores fez com que Didi Canivete jogasse apenas pelo Ateneu por toda a carreira Mesmo iniciando pelo Ateneu, Nicomedes fez história ao defender o Cassimiro de Abreu por pelo menos 16 anos A reportagem de O NORTE colocou frente a frente Didi Canivete e Nicomedes para um bate-papo. Eles fizeram dupla de zaga no Ateneu entre 1962 e 1964, mas são marcados por caminhos diferentes. Durante anos os duelos entre o Broca e o Mais Querido foram marcados por uma rivalidade sadia, mas que obrigavam os organizadores a dividir o estádio em dois, para que as torcidas pudessem acompanhar os jogos. A partida era truncada, pesada, de muita força e também de muito talento. Craques como Jomar e Nilson Espoletão faziam de tudo e mais um pouco para deixar para trás zagueiros como Didi Canivete e Nicomedes. Didi conta, por exemplo, que para parar Jomar tinha que chegar junto. “Jomar? Bom de bola. Era difícil. Para marcar ele era só no cacete”. “Eu tenho muito amor pelo Ateneu. Tive oportunidade de sair, mas decidi ficar” Didi Canivete – Ex-jogador do Ateneu ÚNICO TIMEJogador e torcedor, Didi Canivete não abriu mão e vestiu apenas a camisa do Broca por toda a carreira. Defendeu as cores do Ateneu por 18 anos, de 1954 a 1972, passando desde as categorias de base até o profissional. Já não bastasse uma mistura de emoções ao retornar ao campo onde fez história, Didi completa 78 anos no dia do clássico. “Eu tenho muito amor pelo Ateneu né? Tive oportunidade de sair, com direito a receber um bom dinheiro, mas decidi ficar”. Quando surgiu a equipe do Ipê, várias propostas chegaram a cativar Didi, que optou por ficar, já que acreditava “dever muita obrigação a Toninho Rebello” –ex-prefeito de Montes Claros e um dos fundadores do clube. Defendendo o Broca, Didi lembrou diversos jogos importantes. Os duelos contra os grandes da capital eram corriqueiros e, aqui, enfrentaram também clubes de outros estados. O Vasco da Gama, por exemplo, veio desafiar as duas equipes montes-clarenses. O time carioca passou por um, mas esbarrou no outro. “Sempre que vinha um grande de fora enfrentava tanto o Ateneu quanto o Cassimiro. No domingo, o Vasco fez 3 a 0 no Cassimiro e nós (Ateneu) enfrentamos o time carioca na quarta-feira à noite, e devolvemos o placar. Vencemos também por 3 a 0”, conta Didi, lembrando que os jogos davam muita renda, já que a cidade se mobilizava para ver a partida. “A torcida vivia o jogo a semana inteira. Todos os clássicos eram difíceis e bem prestigiados”  Nicomedes – Ex-jogador de Cassimiro e Ateneu ENTREGAJá Niccomedes, assim como Didi, foi banqueiro, e chegou depois a se formar em Letras e lecionar na Unimontes. Jogar em sua época requeria a prática de mais de uma atividade. Segundo Nicó, futebol não dava o dinheiro que se ganha hoje. Aos 74 anos e com muita história para contar, Nicomedes aproveitou para desabafar e não entende o porquê, então, jogadores profissionais atualmente não rendem o esperado. “A gente vê os jogadores que viajam em bons aviões, têm nutricionista, fisiologista, todo o amparo de saúde e ficam reclamando de dor nos músculos. Ora, isso não tem condições. Como queriam então que a gente viajando de ônibus, com bancos duros e coma mínima estrutura pudesse chegar e jogar no dia seguinte?”, indagou. Inconformado com o corpo mole de jogadores na atualidade, Nicó vê que, mesmo com as adversidades, na sua época todos deixavam tudo que tinham dentro de campo. Contou ainda sobre a dificuldade em lutar pela bola durante o clássico. “Cassimiro x Ateneu sempre era diferente. Não era uma rivalidade doentia, mas sim sadia. A torcida vivia o jogo a semana inteira. Todos os clássicos eram muito difíceis e bem prestigiados”, lembra Nicó. O mesmo Ipê, que tentou mas não convenceu Didi, tirou Nicomedes do Ateneu e pôs fim à parceria dos dois zagueiros em 1964. Tempos depois, Nicó, por mais que tenha vestido a camisa de Ipê e Ateneu, fez muita história defendendo o “Mais Querido”. “Eu joguei mais tempo no Cassimiro, mesmo me formando no Ateneu. Foram 16 anos de clube, talvez essa ligação (com o Cassimiro) seja maior pelo tempo que vesti essa camisa”, disse Nicó. RETOMADAA cidade que já foi berço para grandes atletas tenta recuperar agora a força no esporte. Para Nicó, geralmente os bons dirigentes e entusiastas do futebol local são pessoas que não têm muitos recursos financeiros para investir e a cidade perde muito sem esse investimento. Ainda de acordo com o ex-atleta, a volta do Ateneu é um grande passo nesse processo. Mesmo que cotados para jogar como titulares por suas equipes, Didi e Nicó não sabem se vão a campo no domingo. Acreditam que já fizeram muito, por vários anos, e que agora, relembrar e reunir a velha guarda é o suficiente. Mesmo assim, Nicó não abre mão de uma coisa: “Quero pelo menos dar o pontapé inicial em uma das partidas”. E será atendido. Quem quiser ver esses dois craques e muitos outros, basta ir ao jogo comemorativo deste domingo, no Campo Ateneu, a partir das 8h. As entradas são limitadas e ao preço de R$ 10, com direito a um chaveiro personalizado

Como um presidente pode interferir no Enem? Por Carol Castro

 Contrariado com o conteúdo da última prova, Bolsonaro promete mudanças no exame  O Enem deixou a família Bolsonaro enfurecida. A prova de humanas, no domingo 4, trouxe questões sobre nazismo, escravidão, ditadura militar, feminismo, preconceitos raciais, com redação sobre manipulação de dados na internet. E um texto especialmente incômodo: um dialeto secreto usado por gays e travestis. Os quatro homens da família – Jair e os filhos Flávio, Carlos e Eduardo – acusaram o exame de cobrar questões com “viés ideológico”, alguns deles ecoaram acusações de ser uma prova petista. E prometeram mudanças a partir de 2019. “Qual a razão de incluir ideologia e politicagem nos testes que medem o conhecimento dos nossos alunos? Não devemos fabricar militantes, mas preparar o jovem para que se torne um bom profissional no futuro. O modelo atual não funciona, temos péssimos indicativos. É preciso mudar!”, escreveu Jair Bolsonaro em seu Twitter. O modelo atual, na verdade, funciona com tanta credibilidade que mais de 30 universidades estrangeiras usam a nota do Enem como forma de seleção – entre elas a Universidade de Coimbra, em Portugal. “O Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira] agiu corretamente. Não foi um ato de resistência, não se trata de um veiculo de resistência. Apenas fez jus ao que se deve fazer em uma prova: perguntar aos estudantes qual é o grau de conhecimento deles sobre fatos históricos, processos e fenômenos sociais”, explica o educador e cientista político Daniel Cara. Não há ligação com partidos políticos – nem na escolha das questões, nem na elaboração de cada uma delas. De acordo com o Inep, professores se inscrevem por meio de um edital de chamada pública para colaborar com a criação de novas perguntas. Os colaboradores, então, passam por um curso de capacitação para entender as matrizes do Inep, que seguem a Base Nacional Comum Curricular. Na sequência, alguns poucos funcionários do órgão avaliam e testam as questões. Se forem aprovadas, entram para o Banco Nacional de Itens. E, na sequência, são pré-testadas para avaliar o grau de dificuldade da questão. “É uma questão de sigilo complexa, com um grupo pequeno de pessoas fazendo a prova”, explica Pilar Lacerda, ex-secretária de Educação Básica do Ministério da Educação. Com tanto sigilo, os técnicos do Inep ganham independência – tanto de qualquer Presidente da República, quanto da chefia do órgão, nomeado pelo ministro da educação. Para cumprir a promessa de mudar as provas do Enem, Bolsonaro teria trabalho. Segundo ex-funcionários do MEC envolvidos com a reformulação do exame, o presidente eleito teria de pedir ao ministro de educação para convocar uma nova comissão e refazer o banco de itens – e, nesse caso, vetar questões como a do tal dialeto LGBTQI+. Um dos nomes cotados para assumir a pasta é o do general Aléssio Ribeiro. E ele já defendeu que a “história verdadeira” dos anos de ditadura seja contada nas escolas – assim como o criacionismo. Mas para mudar questões nessas áreas, que fogem dos currículos, precisaria dar novas diretrizes à Base Nacional Curricular. Ou ignorá-la. “O Enem cobra conhecimento consolidado, algo contra o qual Bolsonaro quer agir. Ele quer ir contra o consenso histórico, contra as linhas gerais elaboradas no longo processo de construção cientifica no Brasil e no mundo”, explica Cara. “Além de interferir no banco de questões, vai ter de interferir no conteúdo das escolas. E você não desconstrói o conhecimento consolidado de um dia para o outro”, conclui. No cenário mais nebuloso, sem seguir os processos de construção do exame, o presidente poderia intervir na escolha das questões e montagem das provas. Aí sim de forma mais autoritária, com arbitrariedade sobre os membros do Inep. “Seguindo regras, nem o ministro, nem a presidente do Inep, nem a secretaria executiva podem influir na prova. Se o fizerem, quebram o sistema de controle, de idoneidade e transparência do próprio Enem”, explica Cara. “Isso tira a credibilidade e passa a ser uma prova de governo, não de estado. O Enem vem sendo aperfeiçoado desde o período FHC. E passou a dar acesso à universidade, democratizando o processo. Para que isso continue é preciso manter essa política”, completa Lacerda. Se ninguém mais confiar nas avaliações cobradas pelo Enem, qualquer universidade pode deixar de usá-lo em suas seleções. Seria um ponto final na ainda breve história do exame. Não sem luta – os professores, provavelmente, bateriam o pé para barrar essas mudanças. E, segundo Cara, se a sociedade não cobrar também, o Enem corre mesmo um grande risco. * Repórter de diversidade do site de CartaCapital

Uma igreja com dois papas está causando intrigas no Vaticano

 Ao contrário do previsto, após renunciar ao papado Bento não se enclausurou num convento para nunca mais ser visto ou ouvido. De acordo com uma análise recém publicada na revista Vanity Fair, ele não hesita em mandar recados e arregimentar tropas. Mais uma pedra no sapato de Francisco, que luta em meio à tempestade dos escândalos de abuso sexual e pedofilia no seio da Igreja. Por: Fernanda Cancio Fonte: Diário de Notícias, Lisboa A guerra entre conservadores e liberais no seio da Igreja Católica não é de agora, decerto. Mas é a primeira vez na história da instituição em que cada um dos lados tem um papa – vivo. E se um deles tem o cognome de “emérito”, a verdade é que, se houve quem pensasse que iria passar o resto da vida em recolhimento e oração, “desaparecendo” do mundo dos vivos, enganou-se. Bento nunca saiu do Vaticano e nem sequer se mantém em silêncio. É isso que evidencia a revista Vanity Fair, num longo artigo publicado nesta terça-feira, no qual o jornalista e escritor britânico John Cornwell, autor de várias obras sobre os meandros da igreja católica e sobre papados – entre elas Hitler’s Pope -The secret story of Pius XII (O Papa de Hitler – A História Secreta de Pio XII, 1999), e A Thief in the Night – The Mysterious Death of Pope John Paul I (Um ladrão na noite – A morte misteriosa do Papa João Paulo I, 1989) – descreve vários episódios reveladores de, no mínimo, um mal-estar entre os dois pontífices. “Se Francisco é o papa vivo que reina, Bento é a sua sombra, o papa emérito morto-vivo”, escreve Cornwell. “Se Francisco é o papa vivo que reina, Bento é a sua sombra, o papa emérito morto-vivo” E prossegue: “Em 2013, Bento anunciou inesperadamente a sua renúncia. Era o primeiro papa a fazê-lo em quase 600 anos. Mas a seguir, ao contrário do que muitos esperavam, não se enfiou num obscuro mosteiro bávaro. Ficou no mesmo lugar, continuando a aceitar ser tratado por ‘sua santidade’, a usar ao peito a cruz de bispo de Roma, a publicar, a encontrar-se com cardeais, a fazer pronunciamentos. A sua mera existência encoraja os conservadores que querem minar o reinado de Francisco.” É, considera o jornalista, uma situação para a qual é difícil encontrar precedentes. “Com que podemos comparar esta circunstância de uma igreja com dois papas? Estamos nos domínios dos arquétipos e do mito. Pensemos no Rei Lear, que deu todo o poder mas se manteve perto para controlar, resultando em desastre, ou no fantasma em Hamlet. A mera presença de um ex papa já seria o suficiente para pôr em causa a força de espírito e a independência de Francisco desde o primeiro dia.” Poderia o simpático João XXIII, pergunta Cornwell, “ter iniciado a reforma do Concílio Vaticano Segundo se Pio XII, o seu autocrático predecessor, estivesse a observar, lugubremente, de uma janela vizinha? E iria João Paulo II abanar a árvore apodrecida da União Soviética se o angustiado e hesitante Paulo VI , que chegou a ponderar uma concordata com Moscou, o estivesse puxando pelo braço?” O escritor acha que não: “Qualquer que seja a direção do papado, esquerda ou direita, para o melhor ou o pior, é a iniciativa única e exclusiva de um papa de cada vez que lhe confere suprema autoridade e poder. O segredo da unidade católica é a lealdade, em todas as circunstâncias, ao único supremo pontífice vivo. A briga entre os leais a Francisco e os insurgentes de Bento ameaça provocar a maior divisão na Igreja Católica desde a Reforma do século 16, quando Martinho Lutero e outros reformistas lideraram a revolta protestante contra o Vaticano.” E cita o historiador Diarmaid MacCulloch, da Universidade de Oxford: “Dois papas é a receita para um cisma.” Ainda por cima, dois papas com visões tão diferentes. Desde que João Paulo II o nomeou Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ou, nas palavras de Cornwell, “fiscalizador chefe da doutrina, em 1981, o então cardeal Joseph Ratzinger defendeu uma Igreja Católica menor, limpa de imperfeições. A visão de Francisco é diametralmente oposta: quer uma igreja aberta, acolhedora, misericordiosa para com os pecadores, hospitaleira face aos estranhos, respeitosamente tolerante de outras fés. Procura encorajar os que duvidam, consolar os feridos, e trazer de volta os excluídos pela respetiva orientação. Compara a igreja a um hospital de campanha para os espiritualmente doentes.” “A briga entre os leais a Francisco e os insurgentes de Bento ameaça provocar a maior divisão na Igreja Católica desde a Reforma do século 16, quando Martinho Lutero e outros reformistas lideraram a revolta protestante contra o Vaticano.” As trincheiras são tão óbvias que se consubstanciam em tshirts: Matteo Salvini, atual ministro da Administração Interna e líder do partido de extrema-direita Liga (antes Liga Norte), que se notabiliza pelas suas posições xenófobas, foi fotografado em setembro de 2016 com uma em que se vê a cara de Francisco com ar horrorizado com o escrito “O meu papa é Bento”. É normal: se Francisco passa a vida a apelar ao acolhimento de refugiados, Salvini quer vê-los todos pelas costas. Mas será normal que, estando vivo e a observar, Bento não rechace este tipo de apoio? Tanto mais que, como Cornwell frisa, o papa “reformado” continua a opinar e a fazer-se ouvir – quer diretamente quer através de outros. Matteo Salvini (direita), atual ministro da Administração Interna da Itália e líder do partido de extrema-direita Liga, em 2016, mostrando uma Tshirt que diz “O meu papa é Bento” Um ofício papal alargado ou só um papa? Um desses outros é o seu secretário, o arcebispo alemão Georg Gänswein. Este, que vive na atual residência do papa emérito – a qual, conta Cornwell, fora um convento para 12 freiras contemplativas no tempo de João Paulo II e que Bento mandou renovar e preparar (luxuosamente, parece) quatro meses antes de anunciar a sua renúncia – declarou em maio de 2016 que Francisco e Bento

Quem será a voz de quem rejeita o bolsonarismo?

 O neoliberalismo de Paulo Guedes oferece uma brecha política aos opositores, mas o racha no campo progressista e o apoio popular a Bolsonaro são desafios * Por André Barrocal  Jair Bolsonaro, o primeiro político da extrema-direita a chegar ao Palácio do Planalto através das urnas, sonhava em ser o presidente mais votado da história brasileira, mas não conseguiu. Com 57,7 milhões de sufrágios, 55% dos válidos, faltou-lhe meio milhão para bater o recorde de Lula, 58,2 milhões obtidos na reeleição, em 2006. Do total de 147,3 milhões de eleitores de agora, o ex-capitão teve 39%, o mesmo porcentual de Lula na última pesquisa, um Datafolha de 22 de agosto, feita antes de o petista ser tirado do páreo pela Justiça Eleitoral. Isso significa que, de cada dez brasileiros, seis não votaram no ex-capitão, incluídos aí aqueles que não foram às urnas (21%), uma situação similar à de Dilma Rousseff em 2014, reeleita com 40%. Daqui para a frente, quem será a voz, o líder desses 61% que de algum modo não se comprometeram com o bolsonarismo? Ou será que o autoritário presidente eleito e seu ultraliberal superministro da Economia, Paulo Guedes, convencerão essa massa de que o bolsonarismo é hoje a melhor opção para o País? No campo progressista, o grande derrotado político pelo ex-capitão, já há um racha. Ciro Gomes, do PDT, não quer nem ouvir falar em marchar ao lado do PT. Seu velado antipetismo durante a campanha agora é escancarado. No PCdoB, o partido da vice de Fernando Haddad, Manuela D’Ávila, e no PSB, cuja neutralidade na campanha interessava ao PT, também não há lá muita disposição para posar com petista por perto. No PSOL, a votação abaixo do esperado de Guilherme Boulos, menos de 1% no primeiro turno, deixa em dúvida o protagonismo do líder dos sem-teto no partido a partir de agora. Na legenda da estrela vermelha, o PT, as emoções se misturam. Sensação de pária. Alívio por ter eleito o maior número de deputados e governadores. Ruminações sem fim a respeito dos motivos que levaram à vitória do candidato que antes era o mais odiado do País. Fake news e patrocínio empresarial à parte, diz o líder do PT na Câmara, o gaúcho Paulo Pimenta, “Bolsonaro é resultado da crise do capitalismo, que aumenta as desigualdades e leva as pessoas a buscarem um líder autoritário. É um fenômeno mundial, o (presidente dos Estados Unidos, Donald) Trump é isso”. Esse fenômeno, prossegue o deputado reeleito, tem um ingrediente local: um antipetismo radicalizado pela Operação Lava Jato e que não viu na direita tradicional uma resposta para seus anseios. “O PSDB e o MDB foram pulverizados nas urnas. O PT sobreviveu.” Pulverizados e em crise existencial. Dono de apenas 5 milhões de votos no primeiro turno com Geraldo Alckmin, o PSDB vive um impasse. Seus velhos fundadores, Fernando Henrique Cardoso à frente, são antipáticos ao bolsonarismo, devido a questões morais, embora haja certa identidade econômica neoliberal. O governador eleito de São Paulo, o tucano João Doria Jr., tem identidade total, quer tomar o poder no partido e namora o futuro presidente, não obstante dê sinais de sonhar com o Planalto em 2022. “O PSDB, como instituição fraturada, sem acordo interno, sem discussão democrática, não ouviu a voz das ruas. Ao não ouvir a voz das ruas, decretou a sua derrota para 2018. Assim como o PT foi varrido do mapa em 2016, o PSDB e outros partidos foram varridos do mapa em 2018”, disse da tribuna da Câmara, na terça-feira 30, a deputada gaúcha Yeda Crusius, da direção nacional tucana. Da parte de Ciro, o diagnóstico para o triunfo de Bolsonaro é diferente do exposto por Pimenta. “A força vitoriosa mais importante no Brasil é o antipetismo”, disse à CBN na quarta-feira 31. O pedetista está decidido a construir seu futuro político por essa via, a do antipetismo. Ao votar no segundo turno, em Fortaleza, comentou que seria oposição a quem quer que ganhasse e tascou: “Eu não estou neutro, não. Desde a primeira hora, eu tomei posição. Eu não quero é fazer campanha com o PT, nunca mais”. Palavras de quem havia chegado ao Brasil na antevéspera, após uns dias de descanso em Paris, e não fizera nenhuma declaração favorável a Haddad, nem o citara pelo nome. Em um vídeo no sábado 27, pregara voto “com a democracia, contra a intolerância e pelo pluralismo”, e só. Eleito Bolsonaro, desejou-lhe boa sorte pelo Twitter com cotoveladas no PT. “Essa oposição que nasce não se confunde com forças que só defendem a democracia ao sabor de seus interesses mesquinhos ou crescentemente inescrupulosos ou mesmo despudoradamente criminosos.” Em entrevistas nos últimos dias, mais patadas. À Folha, declarou-se “miseravelmente traído” por Lula, chamou o “lulopetismo” de “caudilhismo corrupto e corruptor”, disse que “para ser de esquerda não tem de tapar o nariz com ladroeira, corrupção, falta de escrúpulo, oportunismo”. Na CBN, afirmou que “os fanáticos do PT são iguais aos bolsominions”, expressão esta usada para definir os apoiadores de Bolsonaro. Não se pode dizer que seja uma postura surpreendente. Ciro apenas explicitou o que já era latente desde o ano passado. Em setembro de 2017, dizia no Rio que “não é possível insultar a inteligência do povo brasileiro” ao comentar a perseguição política a Lula. No mês seguinte, no SBT: “Eu acho que o Lula, que é o maior líder popular que o Brasil moderno produziu, tem cometido erros gravíssimos, porque faltam a ele petistas que digam a ele para não fazer tanta bobagem, para não brincar de Deus”. Em fevereiro deste ano, na Folha, disse que a condenação de Lula não era “arbitrária”, que ele “não é um mito”. E por aí vai. Ciro é o presidenciável natural de um trio progressista que planeja ser diferente do PT na oposição a Bolsonaro. O grupo tem PDT, PCdoB e PSB. Era a tríplice aliança que Ciro queria na campanha, mas não conseguiu, graças ao PT, motivo de mágoa profunda dele com Lula e a direção petista. Recorde-se: o

Fala de Moro sobre sentença de Lula é contraditória

 O juiz federal concedeu entrevista coletiva nesta terça-feira (6) e afirmou que o ex-presidente está preso porque cometeu crime O juiz federal Sergio Moro concedeu nesta terça-feira (6) a sua primeira entrevista após aceitar assumir o Ministério da Justiça e da Segurança Pública no governo de Jair Bolsonaro (PSL). Aos jornalistas, o futuro ministro negou que a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva tenha relação com a corrida eleitoral, conforme alega o Partido dos Trabalhadores. “O ex-presidente foi condenado e preso porque cometeu um crime e não por conta das eleições”, afirmou Moro, negando também que a quebra de sigilo da delação de Antonio Palocci tenha relação com o pleito presidencial vencido por Bolsonaro. Quando a entrevista de Sergio Moro terminou, a assessoria de imprensa de Lula emitiu uma nota na qual afirma que a declaração do juiz federal contrasta com a sentença dada ao ex-presidente. “A declaração do ex-juiz Sérgio Moro, em coletiva de imprensa, de que Lula teria sido condenado por cometer crimes, contrasta com a própria sentença de sua autoria que fala em ‘atos de ofício indeterminados’. Ou seja, Moro condenou Lula sem identificar qual teria sido o ato ilegal que ele supostamente cometeu, em uma decisão onde esse é apenas um dos muitos absurdos jurídicos”, diz a nota. Confira abaixo o comunicado da assessoria de Lula na íntegra: A declaração do ex-juiz Sérgio Moro, em coletiva de imprensa, de que Lula teria sido condenado por cometer crimes, contrasta com a própria sentença de sua autoria que fala em ‘atos de ofício indeterminados’. Ou seja, Moro condenou Lula sem identificar qual teria sido o ato ilegal que ele supostamente cometeu, em uma decisão onde esse é apenas um dos muitos absurdos jurídicos. Moro sim, cometeu vários atos ilegais, definidos e comprovados, contra Lula: condução coercitiva, gravação ilegal dos seus advogados, divulgação ilegal de conversas de familiares de Lula, divulgação ilegal de grampo ilegal de conversa com a então presidenta da República Dilma Rousseff, interferência ilegal para que autoridade policial não cumprisse Habeas Corpus determinado por juiz de instância superior, entre outros. É com essa ‘qualificação’ que ele foi escolhido ministro da Justiça de um político que só venceu as eleições como resultado das ações políticas de Moro, e que prometeu prender ou ‘varrer do país’ a oposição.  

Ditadura nunca mais – O último a sair apaga a luz do aeroporto

 Silvio Santos resgata slogan da ditadura ‘Brasil, Ame-o ou Deixe-o’ O apresentador Silvio Santos, dono do SBT, veiculou vídeo na emissora resgatando o lema da ditadura ‘Brasil, Ame-o ou Deixe-o’ e gerou veementes protestos nas redes sociais. O presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, avisou que não sairá do Brasil nem que a vaca tussa arroz doce. “Alô Sílvio Santos! Alô Bolsonaro! Alô extrema-direita brasileira! Não adianta ameaçar. Daqui não sairemos, daqui ninguém nos tira. O Brasil é nossa casa. E lutaremos para que ele seja a casa de todos os brasileiros e brasileiras”, reagiu o dirigente psolista. “O slogan “Brasil, Ame-o ou Deixe-o” era a senha para matar, torturar e fazer desaparecer todos os que divergiam do governo”, recordou o Jornalistas Livres. O jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva chamou o dono do SBT de puxa saco dos militares. “É bom lembrar que Silvio Santos ganhou a concessão do general Figueiredo depois de puxar-lhe o saco e criar o quadro chamado O Dia do Presidente, desbancando as favoritas Abril e Jornal do Brasil”.  

Janaúba, Porteirinha e Taiobeiras concorrem a prêmios

Os municípios de Janaúba, Porteirinha e Taiobeiras, do Norte de Minas, são finalistas da etapa estadual do Prêmio Sebrae Prefeito Empreendedor, por contarem com projetos e ações públicas que beneficiam os pequenos negócios. Os vencedores serão conhecidos dia 13 de novembro, em Belo Horizonte e receberão certificado, troféu e concorrerão a etapa nacional da premiação em 2019, em Brasília. Foram mais de 100 municípios mineiros inscritos na 10ª edição do Prêmio Sebrae Prefeito Empreendedor. 96 foram habilitados e 30 passaram para etapa final. Os finalistas concorrem em oito categorias: Inovação e sustentabilidade; Inclusão produtiva e apoio ao MEI; pequenos negócios no campo; Desburocratização e implementação da Rede Simples; Compras governamentais de pequenos negócios; Cooperação intermunicipal para desenvolvimento econômico; Empreendedorismo na escola e Políticas públicas para desenvolvimento dos pequenos negócios.   Janaúba concorre na categoria “Desburocratização e Implementação da REDESIMPES” com o projeto Solidificando os Caminhos. A iniciativa aborda medidas para atender às demandas do empresariado e fortalecer a Sala Mineira do Empreendedor. Visando a unificação do atendimento, o projeto foi instalado em uma estrutura concentrada e de forma gratuita, com profissionais treinados. Porteirinha é finalista na disputa pela categoria “Políticas Públicas para o Desenvolvimento dos Pequenos Negócios”, com o projeto “Espaço do Empreendedor – Um Projeto Que Deu Certo”. A inciativa surgiu para mudar o cenário de comércios que atuavam na informalidade, economia estagnada e entraves na abertura de empresas. Foram tomadas medidas para aumentar a formalização; incentivar o empreendedorismo; potencializar a cadeia do leite e seus derivados e fomentar o ecoturismo na geração emprego e renda. Nesse contexto foram criadas a Sala Mineira do Empreendedor e a Secretaria de Meio Ambiente, para simplificar os processos de licenciamento ambiental dos empreendimentos, além da reestruturação do setor tributário. Taiobeiras concorre na categoria “Pequenos Negócios no Campo” com o projeto “Incentivo ao Agroextrativismo de Taiobeiras”. A ideia do projeto surgiu após a diminuição das oportunidades de emprego e renda no campo. Foi preciso organizar a cadeia produtiva através da formalização dos negócios gerados pela extração de pequi e outros hortifrútis. Para isso foi criado uma cooperativa. A criação da Central de Abastecimento do Alto Rio Pardo – CEARP – organizou e melhorou a feira livre, com aquisição de novas barracas, reorganização do espaço para melhor acesso dos consumidores, aperfeiçoamento da praça de alimentação e reorganização da Associação dos Feirantes.  Via Girleno Alencar – Jornal Gazeta

Baseado na suspeição de Moro, o STF deverá soltar Lula

O ministro Luiz Edson Fachin do Supremo Tribunal Federal mandou o novo pedido de habeas corpus de Lula para julgamento na 2a Turma da corte. O pedido baseia-se na relação do juiz Sérgio Moro com membros da campanha de Bolsonaro ainda no período eleitoral e nos seus interesses políticos. A ida do juiz para o ministério de Bolsonaro não deixou dúvidas sobre as reais intenções do magistrado que condenou Lula. A defesa de Lula pede que o STF conceda uma liminar pela libertação do ex-presidente e declare a nulidade de todas as ações penais contra ele sob a condução de Moro. Uma semana antes do primeiro turno das eleições presidenciais, Moro quebrou o sigilo da delação de Antonio Palocci, supostamente para prejudicar o PT na disputa. Há mais de um ano, o advogado Cristiano Zanin Martins já denunciava que a lava jato e Sérgio Moro abusaram do lawfare — que é a utilização do sistema jurídico e da mídia para perseguir politicamente.

ONU aprova resolução contra bloqueio econômico de Cuba

Fim do embargo foi apoiado por 189 países, mas rejeitado pelos Estados Unidos e por Israel. Presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, considerou a decisão uma vitória do país, destacando a ajuda da Rússia Posição pelo fim do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos contra Cuba é reafirmado há 27 anos pelos países  – A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou, na quinta-feira (1°), uma resolução que pede o fim do bloqueio econômico contra Cuba, imposto desde 1960 pelos Estados Unidos, como medida de retaliação à instauração do socialismo no país após a Revolução Cubana. Com 189 votos a favor, incluindo o Brasil, apenas os Estados Unidos e Israel votaram pela continuidade do embargo. De acordo com informações do Opera Mundi, atual embaixadora norte-americana na ONU, Nikki Haley, alegou que o órgão “não poderia colocar fim ao bloqueio” e pediu que, no lugar da ação, que o país caribenho fosse condenado por supostas “violações de direitos humanos”, uma afirmação à descontinuidade da aproximação entre os países que vinha sendo desenhada no governo de Barack Obama. Ucrânia e Moldávia que não votaram e nem se abstiveram, não foram contabilizadas. Ainda de acordo com o Opera Mundi, durante os dois dias de audiência para debate da resolução, embaixadores do Egito, Jamaica, Venezuela e Vietnã saíram em defesa do país caribenho e destacaram que o embargo reflete uma violação e desconsidera a importância de Cuba para a economia global. “O fim do bloqueio contribuiria para o desenvolvimento mundial”, afirmou ainda, segundo o Opera Mundi, o representante do Egito, Mohamed Fathi Ahmed Edrees. Em seu Twitter, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel, que assumiu o posto em abril desde ano, considerou uma “vitória” a reafirmação de apoio da ONU e destacou a ajuda da Rússia que, segundo ele, foram os primeiros a defender o fim do bloqueio.