Entenda quais são as suspeitas sobre o Digimais, banco de Edir Macedo

Apuração investiga se o Digimais inflou ativos e escondeu sua real situação financeira dos órgãos de controle A investigação sobre o banco Digimais, instituição controlada pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da RecordTV, apura se dirigentes do banco manipularam balanços, inflaram ativos e esconderam dos órgãos de controle a real situação financeira da instituição. O caso envolve suspeitas de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em relatórios contábeis e operações vedadas pela legislação bancária, informa a Folha de São Paulo. A Operação Miragem, deflagrada na terça-feira (23) pela Polícia Federal, teve como objetivo reunir provas sobre um suposto esquema usado para fazer o Digimais parecer mais sólido do que de fato seria. A Justiça Federal em São Paulo autorizou nove mandados de busca e apreensão, o bloqueio de bens de até R$ 670 milhões e a quebra dos sigilos bancário e fiscal de alvos ligados ao banco, a seus conselheiros, diretores e prestadores de serviço. O núcleo da apuração O ponto central da investigação é a suspeita de que o Digimais tenha usado mecanismos contábeis para registrar valores superiores aos efetivamente reconhecidos em seus ativos. Na prática, segundo a apuração, esses lançamentos teriam permitido ao banco melhorar artificialmente seus indicadores financeiros e sustentar a aparência de capacidade operacional diante do Banco Central, do mercado e dos investidores. A PF investiga se diretores e conselheiros da instituição participaram da elaboração ou validação de relatórios financeiros com informações inconsistentes. Entre os crimes apurados estão gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em documentos financeiros e realização de empréstimos e financiamentos proibidos pela legislação bancária. Esse tipo de restrição existe para impedir que instituições financeiras manipulem seus próprios resultados ou disfarcem problemas patrimoniais. Entre os alvos da investigação estão o diretor jurídico Marcelo de Lima Brasil, o presidente interino João Alves de Campos, o diretor contábil Rodrigo Ruggero, os bispos e conselheiros João Luiz Urbaneja e Thiago Rodrigues Urbaneja, o gestor de fundos José Roberto Giancoli Filho e o diretor da ID Serviços Financeiros, Rodrigo Balassiano. A própria gestora ID, que prestava serviços ao banco, também foi alvo da operação, assim como o Digimais. O papel de Edir Macedo no caso Edir Macedo aparece no centro político e empresarial do caso por ser o controlador do Digimais. A investigação mira dirigentes, conselheiros e empresas ligadas ao banco, e não menciona uma acusação direta contra Macedo nos atos descritos. Ainda assim, o caso atinge o bispo por envolver uma instituição sob seu controle e por colocar sob pressão os aportes e tentativas de venda do banco. O Digimais afirmou que permanece à disposição das autoridades e reafirmou seu compromisso com a transparência e com a colaboração nas apurações. Procurado, Edir Macedo não respondeu. A origem do bloqueio de R$ 670 milhões O bloqueio autorizado pela Justiça chega a R$ 670 milhões. Esse valor corresponde, segundo apuração do Banco Central, à diferença entre o que o banco teria pago por um fundo de investimento e o valor real desse ativo. Esse ponto é relevante porque ajuda a explicar a lógica investigada pela PF. Para os investigadores, o Digimais teria registrado ou mantido ativos em valores acima do que eles efetivamente valeriam, criando uma distorção nos balanços. Com isso, a instituição poderia aparentar maior solidez financeira e continuar operando em condições que talvez não correspondessem à sua situação real. Ação judicial de 1967 Um dos episódios mais importantes da apuração envolve uma ação judicial antiga, movida em 1967 contra a União. Esse processo representava o direito de receber, no futuro, determinado valor da Justiça. De acordo com a investigação, gestores ligados ao Digimais compraram fatias desse direito por meio de fundos de investimento. Depois da compra, essas cotas teriam sido reavaliadas repetidas vezes sem justificativa econômica real. A suspeita é que esse procedimento tenha inflado o patrimônio do banco e produzido uma receita fictícia de R$ 199 milhões nos balanços da instituição. Quando o Banco Central exigiu a correção dos valores, o Digimais teria firmado um contrato simulado com sua própria controladora para adiar o ajuste até 2032. Dessa forma, segundo a apuração, os valores inflados permaneceriam nos registros contábeis como se fossem créditos a receber. Por que a PF compara o caso ao Banco Master A PF também vê semelhanças entre o suposto esquema do Digimais e o caso do Banco Master. A comparação se baseia em duas frentes principais: a captação de recursos por meio de CDBs com rentabilidade acima da média do mercado e a suposta superavaliação de ativos para reforçar artificialmente o balanço. No caso do Digimais, a instituição teria acelerado a captação com CDBs que pagavam mais de 110% do CDI. Essa estratégia costuma atrair investidores interessados em retornos maiores, mas pode aumentar a pressão sobre o banco caso a instituição não tenha estrutura financeira suficiente para sustentar essas obrigações. A investigação aponta ainda que o Digimais teria usado ativos superavaliados para manter a aparência de robustez patrimonial e viabilizar novas emissões de CDBs. Entre os exemplos citados estão títulos antigos da Vale precificados em R$ 650 milhões, um terreno em Pernambuco avaliado em R$ 150 milhões apesar de valer menos de R$ 10 milhões, e uma carteira de veículos marcada em R$ 3,5 bilhões. Trocas de auditoria entram na mira Outro elemento observado pela PF é a sucessiva troca de auditorias independentes. Segundo a investigação, essas substituições teriam servido para evitar que ressalvas sobre as avaliações de ativos fossem registradas e identificadas pelo mercado. Auditorias independentes têm papel central na análise da qualidade das demonstrações financeiras de uma instituição. Quando há questionamentos sobre ativos, provisões ou registros contábeis, as ressalvas podem afetar a percepção de investidores, reguladores e potenciais compradores. Relação financeira com o Banco Master A investigação também analisa a proximidade financeira entre Digimais e Banco Master. O Digimais comprou do Master carteiras de crédito em uma operação de cerca de R$ 600 milhões. Segundo a apuração, essa venda fazia parte do esforço de Daniel Vorcaro para levantar capital e tentar cobrir

Desdobramento do Desenrola – MEI poderá parcelar dívidas em até 12 anos

Governo prepara Refis do MEI com descontos de até 70%, aumento do teto de faturamento e revisão do Simples O governo Lula (PT) prepara um novo programa de renegociação de dívidas tributárias para microempreendedores individuais, que poderá permitir ao MEI parcelar débitos em até 12 anos, com descontos de até 70%, além de elevar o teto de faturamento da categoria nos próximos anos e revisar regras do Simples Nacional. A medida foi detalhada pelo ministro do Empreendedorismo, Paulo Pereira, em entrevista ao jornal O Globo.  Segundo ele, o programa funcionará como um desdobramento do Desenrola, mas voltado especificamente a débitos fiscais de microempreendedores individuais que estão inadimplentes ou tiveram o CNPJ cancelado por falta de pagamento. De acordo com Pereira, o chamado “Refis dos MEIs” poderá beneficiar entre 3 milhões e 4 milhões de trabalhadores que acumulam dívidas relacionadas à contribuição mensal da categoria. A proposta prevê renegociação limitada a R$ 20 mil em débitos, com prestação mínima de R$ 25. Hoje, o parcelamento disponível chega a 24 meses, com parcela mínima de R$ 50. “Será especificamente sobre dívidas fiscais dos MEIs, que vão além do Desenrola. Hoje temos cerca de 3 milhões a 4 milhões de MEIs que estão em dívida daqueles R$ 80 que precisam ser pagos todo mês”, afirmou o ministro. Pereira explicou que a renegociação será estruturada como uma transação tributária, instrumento usado pela Receita Federal para regularizar débitos. A ideia é permitir parcelamento em até 145 meses, o equivalente a pouco mais de 12 anos, com abatimentos que podem chegar a 70%, desde que o valor principal da dívida seja mantido. “A ideia é poder parcelar em até 145 meses, com descontos de até 70%, desde que mantido o valor principal da dívida”, disse. Para dívidas inscritas há mais de um ano, o governo estuda parcelamento em até 60 meses, com desconto linear de 50%. O objetivo é facilitar a regularização dos empreendedores e permitir que aqueles que perderam o registro por inadimplência possam voltar a acessar os benefícios do regime. “Na verdade, o programa é para que esses MEIs possam regularizar sua vida e voltar a ter os benefícios”, declarou Pereira. Pacote para micro e pequenos empreendedores O refinanciamento fará parte de um pacote voltado a micro e pequenos empreendedores que deve ser apresentado pelo presidente Lula. Além da renegociação de débitos, o governo pretende enviar ao Congresso um projeto para elevar gradualmente o limite de faturamento anual do MEI. Pela proposta em elaboração, o teto passaria para R$ 110 mil em 2027 e chegaria a R$ 140 mil em 2028. O impacto fiscal estimado pelo governo é de R$ 4 bilhões no período, sendo R$ 2 bilhões em 2027 e mais R$ 2 bilhões em 2028. Questionado sobre a origem dos recursos, o ministro afirmou que a medida não contará com compensação específica nem com uma nova fonte de arrecadação. “É uma despesa que a gente vai conseguir compor dentro da projeção sem grande prejuízo. Não vamos trazer uma fonte alternativa de receita”, disse Pereira. O ministro afirmou ainda que a correção do teto do MEI deve ser tratada como uma recomposição inflacionária, e não como aumento de despesa pública. “Essa é uma despesa com natureza específica, porque é uma recomposição inflacionária. A gente não está aumentando uma despesa pública, estamos corrigindo um índice. Não tem impacto fiscal para esse ano. Para 2027, será de R$ 2 bilhões, que serão contemplados na peça orçamentária. E mais R$ 2 bilhões em 2028. No total, R$ 4 bilhões”, afirmou. Governo também prepara revisão do Simples Nacional O aumento do teto do MEI ocorre em meio a pressões para que o governo também atualize as faixas do Simples Nacional. Parlamentares defendem mudanças para evitar distorções entre o regime do microempreendedor individual e outras modalidades de tributação simplificada. Pereira indicou, no entanto, que medidas com impacto fiscal maior não devem entrar nesse primeiro pacote. Segundo o ministro, o governo pretende reorganizar a lógica do Simples Nacional, especialmente diante da necessidade de adaptação à Reforma Tributária e das distorções existentes no sistema atual. “O governo vai fazer um esforço para reorganizar a lógica do Simples. Primeiro, porque há os debates relacionados à adaptação dele à Reforma Tributária. Em segundo, temos a avaliação que hoje o Simples gera muitas distorções”, disse. Para exemplificar, o ministro comparou uma pequena fábrica de camisetas com um profissional liberal que fatura o mesmo valor anual. Segundo ele, a fábrica tem custos com funcionários, insumos, energia e financiamento, enquanto o profissional liberal pode ter uma estrutura de despesas muito menor, embora ambos possam pagar alíquotas semelhantes. “A alíquota baixa sobre o faturamento da fábrica, que terá margem de lucro baixa, faz sentido. No caso do profissional liberal, que paga 6%, isso é inadequado, porque o trabalhador brasileiro paga 27,5% de Imposto de Renda”, afirmou. Desenrola para empresas e novas medidas O ministro também avaliou o Desenrola voltado a pessoas jurídicas, que já registra R$ 15,7 milhões em dívidas negociadas. Para Pereira, o resultado é positivo porque o programa não se limita a inadimplentes, mas também alcança empresas que possuem dívidas caras, ainda que estejam com os pagamentos em dia. “É um sucesso pelo volume de crédito. É um modelo que não é focado só nos inadimplentes, mas abrange também quem tem uma dívida cara, que está sendo paga em dia, e que pode trocar por uma dívida mais barata”, afirmou. Segundo ele, o avanço para permitir a negociação de dívidas fiscais dos MEIs amplia o alcance das ações de regularização e busca reduzir o endividamento de trabalhadores que dependem do CNPJ para manter suas atividades. Incentivo a jovens empreendedores Outro ponto em estudo no pacote é a ampliação de um programa de bolsas para jovens empreendedores. A iniciativa, atualmente tratada como projeto-piloto, prevê qualificação para estudantes com interesse em empreender. Pereira afirmou que o governo avalia expandir o programa para cerca de 10 mil estudantes, com impacto estimado de R$ 50 milhões. “Ele concede bolsas para jovens empreendedores, que são submetidos a uma qualificação.

PGE contesta decisão de Nunes que vetou pesquisa sobre queda de Flávio

No levantamento, o pré-candidato do PL caiu cinco pontos após ser flagrado em áudio com Daniel Vorcaro pedindo dinheiro para bancar o filme em homenagem ao seu pai O vice-procurador-geral Eleitoral, Alexandre Espinosa, defendeu a derrubada da decisão monocrática do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Nunes Marques, que acatou as alegações da defesa do pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL) e suspendeu a pesquisa do Instituto AtlasIntel. No levantamento, Flávio caiu cinco pontos após ser flagrado em áudio com Daniel Vorcaro pedindo dinheiro para bancar o filme em homenagem ao seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo a defesa bolsonarista, o áudio foi usado nas entrevistas para induzir os entrevistados a darem respostas desfavoráveis ao pré-candidato do PL. No parecer, o procurador diz que não ficou comprovada manipulação da pesquisa ou direcionamento indevido do eleitorado. Além disso, a defesa do pré-candidato estaria baseada apenas em discordância com a metodologia usada. “Não há aparente incompatibilidade na metodologia empregada pela representada com as regras estabelecidas na legislação ou mesmo instrução normativa do TSE (…) É fato público e notório que o próprio pré-candidato envolvido no diálogo que é objeto de crítica do representante sequer negou a veracidade dos fatos, o que depõe contra a tese de quebra de cadeia de custódia”, argumenta Espinosa, que comanda a Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE). O procurador afirmou que é natural que fatos dessa natureza sejam objeto de aferição pelos institutos de pesquisa junto à opinião pública, na medida em que as consequências das relações mantidas entre personalidades públicas e personagens políticos, inclusive pré-candidatos, devem ser permanentemente acompanhadas e sindicadas pela sociedade. Ele ainda ressaltou que “a intervenção da Justiça Eleitoral nas pesquisas eleitorais deve ser admitida em casos excepcionais, quando demonstrada a quebra objetiva do dever de equidistância e imparcialidade no levantamento científico”. “Não é dado, nesse contexto, à Justiça Eleitoral arvorar-se de um papel de curador da fidedignidade dos resultados da pesquisa por uma perspectiva consequencialista, na medida em que a intervenção judicial deve ser minimalista e suficiente para evitar disfuncionalidades objetivamente comprovadas. Nesse quadro, não se visualizam motivos para a confirmação da liminar e procedência da representação”, escreve Espinosa. A análise do caso está suspensa no TSE após pedido de vista da ministra Estela Aranha e ainda não há previsão para sua retomada.

Petro denuncia irregularidades e cobra apuração na Colômbia

Presidente questiona formulários eleitorais e sistema de contagem; campanha de Iván Cepeda apresentou 57 mil reclamações ao escrutínio oficial O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, voltou a questionar nesta segunda-feira (22) o processo eleitoral que apontou, na pré-contagem dos votos, a vitória do candidato da extrema direita Abelardo de la Espriella sobre o governista Iván Cepeda. Em publicações nas redes sociais, Petro afirmou que existem evidências de irregularidades nos sistemas utilizados durante a apuração preliminar e defendeu que o resultado da eleição só pode ser reconhecido após a conclusão do escrutínio oficial, etapa prevista na legislação colombiana para revisar manualmente os registros de votação. Segundo o presidente, formulários eleitorais conhecidos como E-14 teriam sido alterados após o envio aos sistemas da Registradoria Nacional.  Petro também afirmou que sua equipe identificou mudanças em registros digitais e vulnerabilidades no software utilizado durante o processo eleitoral. “A manipulação eleitoral já está comprovada; não posso afirmar que o que foi descoberto garanta uma vitória eleitoral, mas é um fato”, denunciou Petro. A disputa ocorre em um cenário extremamente apertado. De acordo com a pré-contagem divulgada pela Registradoria, De la Espriella recebeu 12,95 milhões de votos (49,66%), enquanto Cepeda obteve 12,70 milhões (48,70%), diferença de aproximadamente 250 mil votos. A campanha de Cepeda, porém, evitou até o momento falar em fraude eleitoral. Em pronunciamento após a divulgação dos resultados preliminares, o candidato afirmou que sua coligação apresentou 57,1 mil reclamações às comissões eleitorais responsáveis pelo escrutínio. “Estamos em todo nosso direito legal e constitucional de esperar os escrutínios”, declarou Cepeda, acrescentando que reconhecerá o resultado final após a análise das impugnações apresentadas. Na Colômbia, a pré-contagem divulgada na noite da eleição possui caráter apenas informativo e não tem valor jurídico para definir o vencedor. O resultado oficial é produzido durante o escrutínio, processo conduzido por juízes eleitorais que conferem os formulários físicos de votação e analisam recursos apresentados por partidos e candidatos. Petro também criticou setores da imprensa internacional que trataram suas declarações como uma tentativa de deslegitimar o processo eleitoral. O presidente reiterou que aceitará o resultado proclamado ao final do escrutínio, mas insistiu que as denúncias devem ser investigadas. “Somente ao final da apuração dos votos é declarado o vencedor, e eu o reconhecerei. Essa é a lei da Colômbia”, afirmou. Enquanto isso, missões internacionais de observação eleitoral, incluindo a Organização dos Estados Americanos (OEA), defenderam que o processo siga seu curso institucional e pediram que a população aguarde a conclusão da apuração oficial.

Erika Hilton diz que PSOL “implorou” para ela ficar após queixas sobre fundo partidário

Dirigentes do partido dizem que deputada usa tema como justificativa para deixar a legenda após eleições A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) afirmou que só permaneceu no partido porque a direção da legenda pediu para que ela ficasse e ajudasse o PSOL a superar a cláusula de barreira. A declaração ocorre em meio à crise sobre a distribuição de recursos do fundo partidário para as eleições. Com informações da coluna Painel, da Folha de S.Paulo. Erika reagiu a dirigentes do PSOL que a acusam de usar a disputa por verbas como justificativa para deixar a legenda depois das eleições. A parlamentar disse que já poderia ter saído do partido, mas optou por ficar diante do risco eleitoral que a sigla enfrentava. “Me senti completamente desrespeitada e agredida. Eu recusei propostas para garantir a cláusula de barreira. Já poderia estar fora do PSOL, mas fiquei porque sabia que era um risco para o partido”, disse a deputada. A crise ganhou força nesta terça-feira (23), quando Erika foi às redes sociais para acusar o PSOL de descumprir um acordo fechado no início do ano. Segundo ela, o combinado previa que, por atuar como puxadora de votos, receberia mais recursos do fundo partidário. Direção do PSOL nega quebra de acordo sobre valores A deputada afirma que dirigentes do partido a informaram agora que ela receberia os mesmos valores destinados a outros candidatos da legenda. Erika apresentou a cobrança como uma quebra do acordo que, segundo ela, havia sido acertado antes. Dirigentes do PSOL negam a versão da parlamentar. Integrantes da cúpula partidária dizem que Erika receberá mais recursos que outros nomes da legenda, mas a planilha com os valores previstos para cada candidatura não foi divulgada. A discussão sobre a permanência de Erika no PSOL já havia aparecido no início do ano, quando a corrente ligada à deputada e ao ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, defendeu uma federação com o PT. A proposta de federação com o PT acabou rejeitada pela maioria dos integrantes do PSOL. Naquele período, outras correntes internas já acusavam Erika e Boulos de procurar um motivo para deixar a legenda, versão que voltou a circular entre dirigentes durante a disputa atual sobre o fundo partidário.

Brasil e Interpol apostam em aliança contra o crime organizado

Autoridades discutiram, na França, ações conjuntas e coalizão na América do Sul. No G7, Lula também tratou do tema e defendeu o enfrentamento ao crime com soberania Em reunião realizada em Évian-les-Bains, na França, paralelamente à Cúpula do G7, o Brasil e a Interpol avançaram na articulação para a criação de uma coalizão de combate ao crime organizado transnacional na América do Sul. A ação é um desdobramento de acordo de cooperação técnica assinada entre o País e a organização internacional em fevereiro. Ao mesmo tempo, do ponto de vista político, foi uma sinalização concreta de que o País está comprometido com a pauta, ao contrário do que o governo de Donald Trump tentou fazer crer ao decidir classificar organizações criminosas brasileiras como narcoterroristas. O encontro, de caráter técnico, foi realizado na terça-feira (16) e contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que estava no país para participar da reunião do G7. Durante a cúpula, Lula abordou o tema, salientando que o combate aos crimes transnacionais é “parte da agenda de desenvolvimento”, mas que deve levar em conta “o respeito à soberania dos Estados”. O presidente disse, ainda, que “o enfrentamento ao narcotráfico não pode ser dissociado de outros ilícitos como a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas” e que “valorizar o diálogo e a cooperação institucional, inclusive por meio da Interpol, contribuirá para a localização de ativos e indivíduos vinculados a essas atividades criminosas”. Brasil e Interpol Na reunião técnica entre Brasil e Interpol, foram tratados aspectos como os trabalhos desenvolvidos pela organização em âmbito global, com foco especial nas ações concretas a serem implementadas na América do Sul. “Utilizando o escritório da Interpol para a América do Sul, na cidade de Buenos Aires, com tecnologia, bases de dados, equipes especializadas e um projeto do Ministério da Justiça coordenado pela Polícia Federal, vamos reunir os 12 países sul-americanos em um grande esforço conjunto para o enfrentamento ao tráfico de drogas e de armas, aos crimes ambientais e a todos os demais delitos que possam ser investigados de forma integrada nesse esforço coletivo”, explicou Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, após o encontro. De acordo com o governo, além dessa estrutura na Argentina, o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus, funcionará como um polo complementar de atividades, com foco específico na segurança da região amazônica. Difusão Prateada e crimes financeiros Outro ponto de pauta foi a Difusão Prateada, iniciativa lançada em 2025 pela Interpol, pela qual os países membros podem solicitar informações sobre bens relacionados a atividades criminosas — como fraude, corrupção, tráfico de drogas, crimes ambientais, entre outros —, bem como apreensão, confisco ou recuperação, conforme as leis nacionais. “No ano passado, retiramos mais de R$ 10 bilhões do crime organizado. Com esta nova iniciativa e esta parceria, será possível ampliar essa capacidade operacional e alcançar patrimônios ocultos em diferentes países”, disse Rodrigues. O enfrentamento ao crime financeiro também foi abordado na reunião. Segundo o diretor-geral da PF, estão em andamento tratativas com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e outras instituições financeiras para reforçar os mecanismos de segurança e confiabilidade do setor. Rodrigues disse que a medida acrescentará uma camada extra de verificação de confiabilidade ao sistema, permitindo que as instituições financeiras consultem as bases de dados da PF. Ele também apontou que outro foco é “avançar para o acesso às bases de dados da Interpol, a fim de ampliar ainda mais a confiabilidade do nosso sistema financeiro e dos mecanismos de controle e de conhecimento do cliente”. Na reunião, também foi destacada a luta do Brasil para avançar na regulação das redes sociais, elemento central para o combate aos mais variados tipos de crime que se utilizam dos meios digitais. Nesse sentido, o diretor-geral da PF salientou o papel do ECA Digital na proteção de crianças e adolescentes, bem como a implantação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado Cyber, a Cyberfico, estrutura ligada à PF pela qual será possível receber dados e fazer o tratamento e difusão para o enfrentamento de delitos dessa natureza.

Líder do governo Lula no Senado é alvo da PF na 9ª fase da Operação Compliance Zero

O senador Jaques Wagner (PT-BA), está na mira da PF que investiga um suposto esquema bilionário de fraudes envolvendo o Banco Master A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (18) a 9ª fase da Operação Compliance Zero, que tem como alvo o senador Jaques Wagner (PT-BA), no âmbito do Caso Master, investigação que apura suspeitas de fraudes ligadas ao Banco Master e cumpre mandados na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal, segundo o jornal O Estado de São Paulo. A apuração envolve os vínculos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e a suposta participação de Wagner no esquema investigado. O senador ainda não se manifestou publicamente sobre a operação.  Ao todo, a PF cumpre 18 mandados de busca e apreensão autorizados pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. As diligências ocorrem em endereços relacionados aos investigados nos três estados.Entre os alvos da operação estão empresas e residências de Augusto Lima, na Bahia. Ele é apontado como ex-sócio de Daniel Vorcaro.Além das buscas, a decisão judicial determinou medidas cautelares contra investigados. Entre elas estão a proibição de contato entre os envolvidos, a suspensão de passaportes e o uso de monitoração eletrônica.A Operação Compliance Zero avança sobre suspeitas relacionadas ao Banco Master e busca reunir elementos sobre a atuação dos investigados no caso. As medidas foram autorizadas no âmbito da investigação que tramita sob supervisão do STF. Empresa da nora de Jaques Wagner recebeu R$ 12 milhões do MasterEmpresa de Bonnie Bonilha recebeu repasses do Master entre 2022 e 2025, segundo quebra de sigilo fiscal enviada à CPI do Crime Organizado A BN Financeira, empresa de Bonnie Bonilha, nora do senador Jaques Wagner (PT-BA), recebeu R$ 12 milhões do banco Master entre 2022 e 2025, de acordo com a quebra de sigilo fiscal da instituição financeira enviada à CPI do Crime Organizado. A informação surge no contexto de uma nova fase da operação Compliance Zero, que mira Wagner e o empresário Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro, segundo Fabio Serapião, do UOL.A Polícia Federal cumpre 18 mandados de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nos estados da Bahia, São Paulo e no Distrito Federal. A ofensiva faz parte das investigações sobre suspeitas de fraudes envolvendo o banco Master.Além das buscas, também foram determinadas medidas cautelares diversas da prisão. Entre elas estão a proibição de contato entre investigados, a suspensão de passaporte e o uso de monitoração eletrônica.A nova fase da operação Compliance Zero amplia o alcance das apurações sobre a atuação do banco Master e seus vínculos com pessoas e empresas investigadas. No caso da BN Financeira, os repasses de R$ 12 milhões constam da documentação fiscal encaminhada à CPI de Crime Organizado.Jaques Wagner, líder do governo Lula (PT) no Senado, aparece entre os alvos da operação autorizada pelo STF. Augusto Lima, empresário e ex-sócio de Daniel Vorcaro, também é alvo das diligências realizadas pela Polícia Federal.

Messi faz três gols e iguala Klose como o maior artilheiro de todas as Copas

Camisa 10 decide estreia da Argentina contra a Argélia e alcança marca histórica na artilharia dos Mundiais Lionel Messi viveu uma noite histórica pela Argentina na vitória sobre a Argélia, pela Copa do Mundo, na terça-feira (16). Aos 38 anos e 358 dias, o camisa 10 alcançou marcas inéditas, completou 200 partidas pela seleção argentina e voltou a escrever seu nome entre os maiores recordistas do futebol mundial.Messi se tornou o primeiro jogador da história a atuar em seis edições diferentes da Copa do Mundo. O argentino disputou os Mundiais de 2006, 2010, 2014, 2018, 2022 e 2026, superando uma barreira que até agora nenhum atleta havia alcançado em campo.A marca poderá ser igualada por Cristiano Ronaldo, que tem estreia prevista por Portugal contra a RD Congo nesta quarta-feira (17). O goleiro mexicano Guillermo Ochoa também aparece entre os jogadores presentes em seis Copas, mas entrou em campo em apenas três edições, em 2014, 2018 e 2022, e ainda não atuou no Mundial de 2026. Recordes de Messi pela ArgentinaAlém de ampliar sua presença histórica em Copas, Messi igualou Cristiano Ronaldo como um dos únicos jogadores a marcar gols em cinco edições diferentes do Mundial. O português, no entanto, ainda poderá se isolar novamente caso balance as redes nesta edição. Messi não marcou na Copa de 2010.O gol contra a Argélia também colocou o argentino entre os jogadores mais velhos a marcar em uma Copa do Mundo. Com 38 anos e 358 dias, ele passou a ocupar a terceira posição dessa lista, atrás apenas do camaronês Roger Milla e do português Pepe.A partida teve ainda um valor simbólico para a trajetória do camisa 10 com a seleção argentina. Messi chegou ao jogo de número 200 pelo país. Até aqui, soma 119 gols e 64 assistências, além dos títulos de duas Copas América e da Copa do Mundo de 2022. Início agitado e gols anuladosA partida começou em ritmo intenso, com um gol anulado para cada lado antes dos 10 minutos. Pela Argentina, Enzo Fernández encontrou Lautaro Martínez na área. O centroavante ajeitou para Messi finalizar na saída do goleiro Luca Zidane, mas o camisa 10 estava em posição irregular.Pouco depois, a Argélia respondeu em lance semelhante. Maza fez bom passe para Chaïbi, que bateu no canto de Dibu Martínez. A jogada, no entanto, também foi anulada por impedimento.Mesmo com os lances invalidados no início, a noite ficou marcada pelos recordes de Messi e por mais um capítulo de sua longa trajetória pela seleção argentina. O camisa 10, campeão mundial em 2022, segue acumulando números expressivos em sua sexta participação em Copas. O jogoArgentina e Argélia começaram a partida de forma eletrizante em Kansas City. No segundo ataque da Albiceleste, Lionel Messi recebeu de Lautaro Martínez, dominou e bateu com categoria, sem chances para Luca Zidane. Na checagem do lance, o impedimento foi marcado.Dois minutos depois, Chaïbi invadiu a área argentina e bateu de primeira, no canto direito de Martínez, mas o jogador também estava à frente da linha do impedimento. Se der espaço para o craque…Messi estava a 100 por hora. Aparecia na lateral para ajudar a defesa, voltava para armar o time no meio do campo – mesmo sob forte marcação argelina -, e quando teve espaço, não perdoou. Aos 16, após passe de Rodrigo de Paul na entrada da área, o craque girou e acertou um belo chute no canto esquerdo de Luca Zidane, que falhou e apesar de tocar na bola, não conseguiu fazer a defesa. Vermelho para Messi?A Argélia pediu cartão vermelho para o craque após uma falta dura em Mandi. Nem Szymon Marciniak deu a advertência em campo, nem o árbitro de vídeo chamou para revisão, a atitude passou em branco. Argélia aparece para o jogoDepois de um domínio argentino, a Argélia chegou com perigo, mas faltou capricho no último passe. O time subiu a marcação e dominou todas as sobras de bola perto da grande área. Chaïbi fez Dibu Martínez trabalhar em um chute com pouco ângulo. No lance seguinte, de novo ele, mas o chute foi para fora. Noite de galaA Argélia fazia raras aparições no ataque, mas o jogo era da Argentina, e é claro, de Lionel Messi. Contando com mais uma falha de Luca Zidane, que espalmou uma finalização forte de Mac Allister para o meio da área, o craque finalizou cara a cara com o goleiro, no cantinho, ampliando para o 2 a 0.A noite era histórica para o camisa 10, e os jogadores da Argentina sabiam disso. Quando o relógio marcava 30 minutos no segundo tempo, ele recebeu na entrada da área e marcou mais um.Um gol característico, com a sua marca, para selar o título de maior artilheiro da história das Copas. Por enquanto – o condicional sempre está em jogo quando se trata dele -, ao lado do alemão Klose, que chegou aos 16 gols na Copa do Mundo realizada no Brasil, 2014. Messi aclamadoAos 34 minutos, Scaloni substituiu Messi por Nico Paz. O público em Kansas City se levantou para aplaudir um dos maiores jogadores de todos os tempos no que pode ser sua última estreia em Copas do Mundo. Próximos jogosA Argentina é líder do Grupo J, e enfrenta a Áustria no Estádio AT&T, em Dallas, no Texas, na próxima segunda-feira (22), às 14h. Jordânia e Argélia se enfrentam 00h de terça (23), no Levi’s Stadium, em São Francisco.

Por unanimidade, Primeira Turma do STF vota pela condenação de Eduardo Bolsonaro

“Não é função de deputado federal brasileiro fazer lobby no exterior contra o próprio país”, disse o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso Todos os ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal votaram pela condenação do deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), acusado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) de coação judicial. Os magistrados Alexandre de Moraes (relator do caso), Cristiano Zanin, Cármen Lúcia e Flávio Dino deram votos para condenar o ex-parlamentar.“Não é função de deputado federal brasileiro fazer lobby no exterior contra o próprio país”, disse Moraes. O ministro Cristiano Zanin afirmou que as iniciativas de Eduardo Bolsonaro “evidenciam de forma clara o crime de coação no curso do processo”. “Comprovam autoria e materialidade com esse intuito de coagir a atuação do STF na condução da ação penal 2668”, acrescentou.Segundo a ministra Cármen Lúcia, “houve sucessão de atos que comprovam um percurso criminoso para coagir os julgadores”.O deputado cassado mora nos Estados Unidos desde o começo do ano passado. O ex-parlamentar faz articulações com a extrema direita estadunidense para incentivar os EUA a aplicar sanções contra o Brasil por causa de condenações em inquéritos sobre ações golpistas.O inquérito apura a atuação do ex-parlamentar junto ao governo norte-americano para pressionar o Brasil por meio de tarifas sobre exportações, suspensão de vistos de autoridades e aplicação de sanções econômicas previstas na Lei Magnitsky contra ministros do STF e do governo federal. O ex-parlamentar também perdeu o mandato de deputado federal. A Câmara dos Deputados cassou sua cadeira em razão das sucessivas ausências nas sessões plenárias da Casa. DenúnciasO procurador-geral da República, Paulo Gonet Branco, afirmou que o conjunto de provas reunido contra Eduardo Bolsonaro indica que as investidas intimidatórias do ex-deputado contra a Justiça brasileira ocorreram em julho de 2025. As ações, segundo a acusação, não foram discretas nem isoladas: ganharam publicidade pela imprensa, foram divulgadas pelo próprio acusado nas redes sociais e ficaram registradas em vídeos.Nas publicações, Eduardo expunha sua agenda nos Estados Unidos e relatava tratativas com autoridades americanas. Para a Procuradoria-Geral da República, essas movimentações tinham caráter de ameaça e buscavam interferir no julgamento de Jair Bolsonaro, com o objetivo de interromper o processo e afastá-lo das acusações e das eventuais punições. Crime de coaçãoO crime de coação no curso do processo ocorre quando alguém usa violência ou grave ameaça para favorecer interesse próprio ou de terceiros contra autoridade, parte ou qualquer pessoa chamada a atuar em um processo judicial. A pena prevista é de um a quatro anos de reclusão, além de multa.As penas podem aumentar porque, segundo a acusação, a conduta ocorreu de forma continuada, em uma sequência de ações, conforme prevê o artigo 71 do Código Penal.

“Complexo de vira-latas”: leia a crônica de Nelson Rodrigues que deu origem ao termo

Nelson usou o termo para definir a tendência nacional de se considerar inferior diante do resto do mundo, especialmente após o trauma da derrota para o Uruguai na final da Copa de 1950. * Por Kiko Nogueira O “complexo de vira-latas”, expressão criada pelo gênio de Nelson Rodrigues, surgiu numa crônica publicada na revista Manchete Esportiva em 31 de maio de 1958, às vésperas da estreia do Brasil naquela Copa.Nelson usou o termo para definir a tendência nacional de se considerar inferior diante do resto do mundo, especialmente após o trauma da derrota para o Uruguai na final da Copa de 1950.Ele argumentava que o principal desafio da seleção não era técnico nem tático, mas psicológico. O brasileiro precisava recuperar a confiança em si mesmo. Menos de um mês depois, a equipe liderada por Pelé, Garrincha, Didi e companhia conquistaria o mundo e transformaria para sempre a relação do país com o futebol.Curiosamente, o termo não pegou quando Nelson escreveu a crônica, segundo seu biógrafo Ruy Castro. Hibernou até a década de 1990, quando foi relançado numa coletânea de crônicas pela editora Companhia das Letras. Coisa de profeta. Hoje é mais atual do que nunca: COMPLEXO DE VIRA-LATASHoje vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram [era a última crônica antes da estréia da seleção na Copa de 1958] e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: — “O Brasil não vai nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto: — não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?Eis a verdade, amigos: — desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno possa causar uma dor tão grande. O tempo passou em vão sobre a derrota. Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou, de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: — “extraiu” de nós o título como se fosse um dente.E, hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: — é ainda a frustração de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos trava é o seguinte: — o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: — se o Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam acabar no hospício.Mas vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade: — eu acredito no brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo, digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países, inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado do Flamengo. Pois bem: — não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair, um Zizinho.A pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador brasileiro, quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: — temos dons em excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”. Estou a imaginar o espanto do leitor: — “O que vem a ser isso?”. Eu explico.Por “complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e, sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e, eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50, éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate. Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: — porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.Eu vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: — para o escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão. * Kiko Nogueira é Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.