Jesus não morreu pelos nossos pecados e sim por enfrentar o sistema

Os Evangelhos são claríssimos: Jesus morreu porque confrontou o Templo, um sistema de dominação e exploração dos pobres Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados. Essa é a resposta que normalmente se dá para aqueles que perguntam por que o Filho de Deus terminou seus dias na forma mais infame para um judeu, o patíbulo da cruz, a morte dos amaldiçoados por Deus (Gl 3,13). Jesus morreu pelos nossos pecados. Não só pelos nossos, mas também por aqueles homens e mulheres que viveram antes dele e, portanto, não o conheceram e, enfim, por toda a humanidade vindoura. Sendo assim, é inevitável que olhando para o crucifixo, com aquele corpo que foi torturado, ferido, riscado de correntes e coágulos de sangue expostos, aqueles pregos que perfuram a carne, aqueles espinhos presos na cabeça de Jesus, qualquer um se sinta culpado … o Filho de Deus acabou no patíbulo pelos nossos pecados! Corre-se o risco de sentimentos de culpa infiltrarem-se como um tóxico nas profundezas da psiquê humana, tornando-se irreversíveis, a ponto de condicionar permanentemente a existência do indivíduo, como bem sabem psicólogos e psiquiatras, que não param de atender pessoas religiosas devastadas por medos e distúrbios. No entanto, basta ler os Evangelhos para ver que as coisas são diferentes. Jesus foi assassinado pelos interesses da casta sacerdotal no poder, aterrorizada pelo medo de perder o domínio sobre o povo e, sobretudo, de ver desaparecer a riqueza acumulada às custas da fé das pessoas. A morte de Jesus não se deve apenas a um problema teológico, mas econômico. O Cristo não era um perigo para a teologia (no judaísmo havia muitas correntes espirituais que competiam entre si, mas que eram toleradas pelas autoridades), mas para a economia. O crime pelo qual Jesus foi eliminado foi ter apresentado um Deus completamente diferente daquele imposto pelos líderes religiosos, um Pai que nunca pede a seus filhos, mas que sempre dá. A próspera economia do templo de Jerusalém, que o tornava o banco mais forte em todo o Oriente Médio, era sustentada pelos impostos, ofertas e, acima de tudo, pelos rituais para obter, mediante pagamento, o perdão de Deus. Era todo um comércio de animais, de peles, de ofertas em dinheiro, frutos, grãos, tudo para a “honra de Deus” e os bolsos dos sacerdotes, nunca saturados: “cães vorazes: desconhecem a saciedade; são pastores sem entendimento; todos seguem seu próprio caminho, cada um procura vantagem própria” (Is 56, 11). Quando os escribas, a mais alta autoridade teológica no país, considerando o ensinamento infalível da Lei, vêem Jesus perdoar os pecados a um paralítico, imediatamente sentenciam: “Este homem está blasfemando!” (Mt 9,3). E os blasfemos devem ser mortos imediatamente (Lv 24,11-14). A indignação dos escribas pode parecer uma defesa da ortodoxia, mas na verdade, visa salvaguardar a economia. Para receber o perdão dos pecados, de fato, o pecador tinha que ir ao templo e oferecer aquilo que o tarifário das culpas prescrevia, de acordo com a categoria do pecado, listando detalhadamente quantas cabras, galinhas, pombos ou outras coisas se deveria oferecer em reparação pela ofensa ao Senhor. E Jesus, pelo contrário, perdoa gratuitamente, sem convidar o perdoado a subir ao templo para levar a sua oferta. “Perdoai e sereis perdoados” (Lc 6,37) é, de fato, o chocante anúncio de Jesus: apenas duas palavras que, no entanto, ameaçaram desestabilizar toda a economia de Jerusalém. Para obter o perdão de Deus, não havia mais necessidade de ir ao templo levando ofertas, nem de submeter-se a ritos de purificação, nada disso. Não, bastava perdoar para ser imediatamente perdoado… O alarme cresceu, os sumos sacerdotes e escribas, os fariseus e saduceus ficaram todos inquietos, sentiram o chão afundar sob seus pés, até que, em uma reunião dramática do Sinédrio, o mais alto órgão jurídico do país, o sumo sacerdote Caifás tomou a decisão. “Jesus deve ser morto”, e não apenas ele, mas também todos os discípulos porque não era perigoso apenas o Nazareno, mas a sua doutrina, e enquanto houvesse apenas um seguidor capaz de propagá-la, as autoridades não dormiriram tranquilas (“Se deixarmos ele continuar, todos acreditarão nele … “, Jo 11,48). Para convencer o Sinédrio da urgência de eliminar Jesus, Caifás não se referiu a temas teológicos, espirituais; não, o sumo sacerdote conhecia bem os seus, então brutalmente pôs em jogo o que mais estava em seu coração, o interesse: “Não compreendeis que é de vosso interesse que um só homem morra pelo povo e não pereça a nação toda?” (Jo 11,50). Jesus não morreu pelos nossos pecados, e muito menos por ser essa a vontade de Deus, mas pela ganância da instituição religiosa, capaz de eliminar qualquer um que interfira em seus interesses, até mesmo o Filho de Deus: “Este é o herdeiro: vamos! Matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança” (Mt 21,38). O verdadeiro inimigo de Deus não é o pecado, que o Senhor em sua misericórdia sempre consegue apagar, mas o interesse, a conveniência e a cobiça que tornam os homens completamente refratários à ação divina. * Alberto Maggi, biblista italiano, frade da Ordem dos Servos de Maria, estudou nas Pontíficias Faculdades Teológicas Marianum e Gregoriana de Roma e na Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. É autor de diversos livros, como A loucura de Deus: o Cristo de João, Nossa Senhora dos heréticos * Francisco Cornélio, sacerdote e biblista brasileiro, é professor no curso de Teologia da Faculdade Diocesana de Mossoró (RN). Fez seu bacharelado no Ateneo Pontificio Regina Apostolorum, em Roma. Atualmente, está em Roma novamente, para o doutorado no Angelicum (Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino), onde fez seu mestrado Via – Alberto Maggi / Outras Palavras
Reforma da Previdência de Bolsonaro fará do Brasil um país de miseráveis

Desigualdade e violência Estudo dos economistas Eduardo Moreira, Paulo Kliass e Eduardo Fagnani revela ‘44 coisas’ que os brasileiros precisam saber e resume o desmonte caso seja aprovada a reforma da Previdência 2019 Por Cláudia Motta, da RBA São Paulo – A reforma da Previdência não acaba com privilégios. A reforma da Previdência não vai melhorar a economia brasileira, nem ajudar o país a crescer. Ao contrário. Os brasileiros ficarão mais pobres e por consequência a economia nacional vai encolher. Haverá menos saúde, menos educação e, diante da falta de recursos, o êxodo rural pode aumentar e agravar a miséria e a violência nas grandes cidades. Essa é a conclusão do resumo produzido pelos economistas Eduardo Moreira, Paulo Kliass e Eduardo Fagnani: 44 coisas que você precisa saber sobre a reforma da Previdência. Dentre as muitas coisas que você precisa saber, os economistas destacam que o “déficit da Previdência alegado pelo governo tem base num conceito “inventado” e afirma: “se hipoteticamente, durante os 25 anos nos quais a Seguridade Social foi superavitária os resultados tivessem sido preservados num fundo, este teria mais de 1 trilhão de reais em 2015”. Outra preocupação revelada tem a ver com o agravamento da desigualdade social, e por consequência da miséria e da criminalidade. Por exemplo, a previdência dos trabalhadores rurais, “um mecanismo para levar justiça social a uma parcela da população que até 1988 trabalhou em condições injustas, sem direitos trabalhistas, sindicais e previdenciários, muitas vezes em regime de semiescravidão”. E alertam: se a reforma for aprovada, “voltará a aumentar o êxodo para as cidades contribuindo para a ampliação das periferias, da criminalidade e da pobreza”. Os economistas comprovam a importância da Previdência rural lembrando que as taxas de permanência no campo têm subido, passando de 60% entre 1980 e 1991; 75% entre 1991 e 2000; e em 2010 essa taxa de permanência estava em 85%. Privilégios mantidos e mais miséria Os R$ 1 trilhão de economia alegados pelo governo na defesa da reforma da Previdência não viram do corte de privilégios, mas do empobrecimento da maior parte da população brasileira. Dados da Proposta de Emenda Constitucional (PEC 6/2019) para fazer a reforma apontam que 84% dessa economia viria dos trabalhadores do regime geral (RGPS), que são a maioria, dos que recebem BPC e abono salarial. “Mais de 70% dessas pessoas recebem somente o piso do salário mínimo”, revelam os economistas. Por outro lado, o tal aumento da alíquota de imposto pago pelos servidores públicos federais que ganham altos salários, anunciado como “justiça fiscal”, seria responsável por somente 2,5% desse R$ 1 trilhão. A PEC da reforma “não altera em nada os salários e aposentadorias dos marajás”. E ainda comete o absurdo de taxar como “ricos” (nos itens 50 e 51 da PEC 6/2019) o grupo de trabalhadores que ganha em média R$ 2.231 e “pobres” os que ganham R$ 1.251. Como 84% da economia prevista viria dos valores pagos no regime geral (RGPS) e aos que recebem BPC e abono, a reforma pode levar à falência os 3.875 municípios que, em 2010, tinham nesses benefícios pagos aos seus moradores sua maior receita. Machista, racista e cruel A reforma é considerada também machista e racista, já que afeta especialmente esses grupos que representam mais de 50% da sociedade brasileira. “Parte da população negra trabalha na informalidade e não conseguirá comprovar os 20 anos completos de contribuição aos 65 anos de idade… Como têm expectativa de vida menor que os brancos, receberão os benefícios mais tarde e morrerão mais cedo.” As mulheres costumam ter carreira mais curta que os homens e portanto menos anos de contribuição. “Recebem salários menores pelo preconceito de gênero e têm expectativa de vida mais longa.” No caso das trabalhadoras rurais, é ainda mais grave. A PEC 6/2019 iguala a idade mínima entre homens e mulheres, “fomentando uma condição já desigual de gênero no campo, ao ignorar que elas “têm uma dura jornada não remunerada, cuidando da casa e da família, além do trabalho com a terra”. O aumento do tempo mínimo de contribuição, de 15 anos para 20 anos, significará para grande parte dos trabalhadores, 12 anos a mais de trabalho – já que no Brasil 42% dos segurados conseguem comprovar em média somente 4,9 meses de contribuição por ano. A redução nos valores pagos aos mais carentes e inválidos pelo Benefício de Prestação Continuada (BPC) pode significar a antecipação da morte dessas pessoas. Estudos apontam que indivíduos que recebem o BPC têm de um a quatro anos mais de expectativa de vida saudável. “A justificativa do governo, de que a população vai envelhecer e que em 2060 teremos poucos trabalhadores ativos (contribuintes) para muitos aposentados… não é necessariamente verdadeira”, afirmam os economistas. “Isso porque não é apenas o trabalhador ativo que financia a Previdência, mas também os empregadores e o governo por meio de impostos gerais.” Além disso, explicam, o país está no nível máximo de sua história recente em termos de informalidade (trabalho sem registro em carteira e outras modalidades que não contribuem para a Previdência, agravadas com a reforma trabalhista), que chega a aproximadamente 42%, além do desemprego e desalento, de cerca de 15%, somados a péssimos níveis de atividade econômica (PIB real dos tempos de 2011). “A mudança demográfica pode ser facilmente compensada pela maior formalidade, menor desemprego e atividade econômica mais robusta, variáveis que afetam positivamente as receitas da Seguridade Social”.
Padilha diz que projeto de Moro favorece milícias ligadas a Bolsonaro

O cineasta José Padilha, que dirigiu Tropa de Elite, filme que já abordava a questão das milícias do Rio de Janeiro, afirma que projeto de segurança pública apresentado pelo ministro Sergio Moro favorece mafiosos e milicianos, ligados ao clã Bolsonaro. “Sergio Moro finge não saber o que é milícia porque perdeu sua independência e hoje trabalha para a família Bolsonaro”, diz ele. “É obvio que o pacote anticrime de Moro vai estimular a violência policial, o crescimento das milícias e sua influência política” ‘Imagina quando ele ler a sentença’, diz Lula sobre mea culpa de José Padilha O perfil no Twitter do ex-presidente Lula comentou nesta terça-feira (16) o artigo do diretor de cinema José Padilha publicado na Folha de S.Paulo, em que o produtor do “Tropa de Elite” faz mea culpa e também expõe ter errado ao apoiar o ministro da Justiça, Sergio Moro, durante sua atuação como juiz e condutor da operação Lava Jato; “Imagina quando ele ler a sentença e descobrir que Moro condenou Lula sem provas”, ironizou o perfil Após se arrepender do apoio a Moro, Padilha é cobrado a corrigir a série O Mecanismo O cineasta José Padilha está sendo cobrado nas redes sociais a fazer uma retificação na série O Mecanismo, da Netflix, que retrata a operação Lava Jato, após o artigo em que ele faz duras críticas ao ex-juiz Sérgio Moro, cujo pacote pacote anti-crime ele classifica como “pró-milícia”; “Quando ele irá gravar a errata de “O Mecanismo”? Aguardo”, escreve a jornalista Rita Lisauskas; “Precisamos de um filme que mostre o golpe contra a Dilma e a injustiça contra Lula, o verdadeiro Mecanismo. Aí a “mea culpa” será prática”, defende a deputada Gleisi Hoffmann; “Elegeram um fascista e agora pulam do barco”, destaca o ator José de Abreu
Supremo tenta sair do curé declarando guerra contra a Operação Lava Jato

O Supremo Tribunal Federal (STF) abriu guerra contra a Operação Lava Jato: o ministro Alexandre de Moraes autorizou dez operações de busca e apreensão em seis estados do país. Na mira, computadores, telefones e documentos. Militares da reserva que pregaram o fechamento do STF e alguns procuradores foram chamados a prestar depoimento. Segundo a jornalista Daniela Lima, na coluna Painel, “investigadores que acusaram o STF de pactuar com a corrupção serão ouvidos”. A Corte também ordenou buscas na casa do general da reserva do Exército brasileiro Paulo Chagas, cogitado como companheiro de chapa de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. Foi candidato derrotado ao governo do Distrito Federal pelo PRP, com apoio de Bolsonaro. “Caros amigos, acabo de ser honrado com a visita da Polícia Federal em minha residência, com mandato de busca e apreensão expedido por ninguém menos do que ministro Alexandre de Moraes. Quanta honra! Lamentei estar fora de Brasília e não poder recebe-los pessoalmente”, disse. A ação acontece na esteira da decisão do ministro do STF que censurou reportagem do site O Antagonista e da revista Crusoé, de extrema direita, ligadas à Lava Jato, que postaram uma reportagem que trazia um codinome “O amigo do amigo de meu pai” que, segundo as publicações, seriam usados pela Odebrecht para se referir ao presidente da Corte, Dias Toffoli. Procuradores que tiveram contato com o documento da Odebrecht que cita o presidente do STF, Dias Toffoli,serão ouvidos. “Ministros dizem que é preciso entender 1) o timing da provocação que levou à menção e 2) o vazamento e suas motivações”, escreve Daniela Lima. Com as ações, o STF declara guerra à Lava Jato, com desdobramentos imprevisíveis para a relação da Corte com o governo Bolsonaro, especialmente Sérgio Moro, e o ativismo judicial da extrema-direita no país.
Ministro abre inquérito contra funcionários que não foram puxar saco

O presidente do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade, Adalberto Eberhard, pediu demissão. O motivo? O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, resolver abrir inquérito sobre a ausência dos servidores do ICM-Bio num evento de ruralistas a que compareceu no Rio Grande do Sul. Para o qual, aliás, nem foram convidados. Diz ele, segundo a Folha: “Gostaria que os servidores do ICMBio viessem aqui participar conosco. Não tem nenhum funcionário?”, questionou Salles no microfone. “Na presença do ministro do Meio Ambiente e do presidente do ICMBio, não há nenhum funcionário aqui, embora tenham nos esperado lá em Mostardas [cidade vizinha]. Determino a abertura de processo administrativo disciplinar [PAD] contra todos os funcionários”. É inacreditável que o Ministério Público não abra um inquérito por abuso de poder e desvio de finalidade de um ato administrativo, como a aberutra de um PAD. Um inquérito é um ato vinculado, cuja abertura gera consequências, funcionais e morais, sobre um servidor. Não se pode reduzir a administração pública aos anos 20, onde o servidor era obrigado a “puxar saco” dos chefes de plantão. Essa turma é um retrocesso de 100 anos. Via Tijolaço
80 tiros contra família acendem o debate sobre racismo e responsabilidade do Exército

Ao lamentar o que chamou de “incidente”, Bolsonaro diz que “responsável vai aparecer”, mas descarta chamar Exército de assassino. “O Exército não matou ninguém não” A família Santos Rosa ia no domingo passado a uma festa para celebrar a iminente chegada de um bebê quando seu carro foi baleado pelo Exército no Rio, em um subúrbio pobre chamado Guadalupe. Nada menos que 80 tiros foram disparados pelos militares, que mataram o motorista. Era músico e segurança. Chamava-se Evaldo dos Santos Rosa. Tinha 51 anos. Sua esposa, seu filho de sete anos, sua enteada e seu sogro sobreviveram, embora este último tenha ficado ferido. O Exército afirma que confundiu o carro dessa família negra com o de dois criminosos que tinham disparado antes contra os militares. “É um carro de família”, gritaram os moradores na tentativa de alertar para o erro. O caso reacendeu vários debates no Brasil: sobre os riscos da militarização da segurança, a impunidade das forças de segurança (5.000 das 64.000 mortes violentas de 2017 ocorreram em operações policiais), o racismo… A viúva do músico Evaldo dos Santos Rosa durante seu funeral na quarta-feira no Rio de Janeiro O presidente, que enviou ao Congresso uma proposta de lei que pretende isentar de culpa os policiais que matarem um criminoso “por medo ou surpresa”, evitou se referir ao assunto até sexta-feira, quando foi indagado pela imprensa. “O Exército não matou ninguém não. O Exército é do povo, e não se pode acusar o povo de ser assassino, não. Houve um incidente”, respondeu. “No Exército sempre tem um responsável”, acrescentou, manifestando sua confiança na investigação interna. Dez dos 12 militares envolvidos no caso foram detidos dias depois por inconsistências entre o que foi declarado inicialmente e os fatos comprovados. São acusados de descumprir as normas para abrir fogo. O assunto está sendo investigado e será julgado pela Justiça Militar, o que preocupa organizações de defesa dos direitos humanos. Não é o primeiro incidente desse tipo. Em 2015, cinco jovens negros mortos a tiros em seu carro. Naquela ocasião, foram 111 disparos. Também eram negros, também ocorreu em um bairro pobre do Rio, e os agentes eram policiais militares. As estatísticas sobre a violência no Brasil ocultam frequentemente que os brancos vivem muito mais seguros que os negros. É como se vivessem em países distintos. O Atlas da Violência de 2018 indica que “a desigualdade racial no Brasil é cristalina no que se refere à violência letal e às políticas de segurança”. Um exemplo: enquanto o total de negros assassinados aumentou 23%, o de brancos caiu quase 7% no ano passado. E sua visão da polícia também é diferente. Entre os jovens negros de baixa renda, cerca de 60% têm medo da polícia, enquanto 40% confiam nela, segundo uma pesquisa do Datafolha. A pesquisa mostra uma imagem inversa entre idosos brancos de alta renda. Manifestantes fazem ato em SP contra morte de músico baleado pelo Exército no Rio: ’80 tiros em uma família negra’ Faixa com a frase: ‘parem de atirar em nós’ marcou ato em frente ao Masp, na Paulista. Músico negro foi morto após o Exército disparar 80 vezes contra o carro em que estava com sua família. Protesto na Paulista contra a morte de músico pelo Exército no Rio — Foto: Abraão Cruz/TV Globo Manifestantes vinculados a movimentos negros fizeram um protesto neste domingo (14) na Avenida Paulista contra a morte do músico Evaldo dos Santos Rosa, de 51 anos, no último domingo (7) no Rio de Janeiro. Rosa foi morto quando o carro que dirigia foi alvo de pelo menos 80 tiros de fuzil disparados por soldados do Exército. Com o nome “80 tiros em uma família negra, 80 tiros em nós!”, o ato se reuniu em frente ao Museu de Arte Assis Chateaubriand (Masp). Uma imensa faixa com a frase “Parem de atirar em nós” marcou o protesto. Manifestantes se alternaram no microfone para falar sobre a perseguição de negros na periferia. Entre as entidades que convocaram e apoiam o ato estão a Uneafro Brasil, Marcha das Mulheres Negras de SP e Kilombagem. Com El País e G1 SP
Após derrota do governo na CCJ, votação da reforma na Câmara pode ser adiada

Comissão aprovou inversão da pauta e iniciou aprovação de outra matéria antes da PEC da Previdência Por Cristiane Sampaio – Brasil de Fato Por 50 votos a 5, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados aprovou, nesta segunda-feira (15), um requerimento que inverteu a ordem da pauta do colegiado e fez com que o debate sobre a reforma da Previdência fosse adiado. Assim, a PEC do Orçamento Impositivo (PEC 358/13) será apreciada pelos parlamentares antes da PEC 6/2019 – nome oficial da reforma da Previdência proposta pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL). O adiamento do debate foi articulado por membros do chamado “Centrão”, que inclui partidos como PP, PR e DEM. Ressentidos diante dos problemas de interlocução do governo com aliados, eles tentam empurrar a votação da reforma enquanto aguardam a possibilidade de fortalecer, em paralelo, as barganhas de bastidores com o Planalto. O requerimento também teve voto favorável da oposição, que vem trabalhando pela obstrução da pauta desde as últimas semanas. O resultado da votação é interpretado como uma derrota do governo, que segue enfrentando dificuldades de articulação política para garantir uma margem de apoios que lhe dê segurança na votação do texto da PEC da Previdência. “O governo está inseguro. Ele não tem votos, cedeu sem querer à pressão do ‘Centrão’, e nós fizemos um acordo com o ‘Centrão’ pra ver se estendemos a votação da PEC para a próxima semana. É claro que ambos os lados correm risco, mas a política é uma zona de perigo sempre, portanto, foi o melhor”, avalia o deputado José Guimarães (PT-CE), um dos principais interlocutores da oposição nas negociações entre os diferentes grupos políticos da Casa. Antes da inversão da pauta, a votação de outro requerimento também terminou de modo desfavorável para o Planalto: a CCJ aprovou a inversão da ordem dos trabalhos – um rito que implica em ler primeiro a ata do colegiado. O tempo de leitura costuma diminuir o ritmo da sessão, por isso favorece os opositores, uma vez que retarda ainda mais a votação da reforma. A inversão foi aprovada com considerável vantagem para a oposição, deixando o placar em 41 a 18. “Isso mostra a fraqueza e a desarticulação do governo aqui na Casa. Evidentemente que o governo não tem base na Câmara, e é isso que uma votação após a outra estão mostrando. É um barco à deriva”, criticou o líder da oposição, Alessandro Molon (PSB-RJ). Governo Na CCJ, aliados de Bolsonaro tentaram disputar a narrativa sobre a inversão como uma vitória do governo, sob o discurso de que a PEC do Orçamento seria mais urgente para as contas públicas. À imprensa, os apoiadores da matéria não falaram da dificuldade de obtenção de votos para a pauta. O comportamento é percebido, por exemplo, na postura do presidente da CCJ, Felipe Francischini (PSL-PR), colega de legenda de Bolsonaro e defensor da reforma. Questionado se a inversão da pauta significaria uma derrota para o governo, o deputado deu uma resposta evasiva. “O governo é que tem que dizer. O governo está ligando pros deputados, está dialogando, está se esmerando para aprovar a reforma? Se ele está fazendo isso, então, eu torço pra que a gente possa votar o mais rápido possível. Mas isso só o governo pode dizer”, disse o presidente, deixando dúvidas sobre uma eventual tentativa de alfinetar indiretamente o Planalto pelos problemas de articulação. Calendário Com a inversão da pauta da comissão, o calendário oficialmente previsto pelo governo para a votação da reforma da Previdência pode ser frustrado. A PEC 6 tem votação marcada para a próxima quarta-feira (17), mas o prazo pode não dar conta dos mais de cem deputados inscritos para se manifestar no debate no âmbito da comissão. Na semana passada, o presidente da CCJ sinalizou a possibilidade de encerramento antecipado da discussão, caso seja aprovado um requerimento com esse teor. A ideia seria estancar o debate sobre a matéria depois da manifestação de dez oradores, mas essa decisão ainda ficará a critério do colegiado, que poderá votar o pedido nesta terça (16). Nos bastidores, porém, a projeção dos deputados é de que a votação deverá ser empurrada para a próxima semana. O texto da PEC 6 recebeu parecer favorável do relator da proposta, delegado Marcelo Freitas (PSL-MG), no último dia 9. A matéria conta também com um voto em separado apresentado pela bancada do PSOL, que pede a inconstitucionalidade da reforma. Caso o parecer do relator seja derrotado no colegiado, a CCJ deverá colocar em votação o texto dos psolistas. Sociedade A reforma da Previdência é considerada a pauta mais impopular do governo Bolsonaro e por isso tem sido alvo de mobilizações de diferentes setores sociais. Nesta segunda (15), por exemplo, um grupo ligado ao Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário e do MPU no Distrito Federal (Sindijus-DF) protestou ao longo da tarde contra a reforma na porta da Câmara dos Deputados. Empunhando faixas e cartazes, os trabalhadores organizaram uma batucada para pedir que os deputados rejeitem a matéria. Protesto contra o desmonte da Previdência. (Foto: Mídia Ninja) “A gente quer fazer uma pressão e dizer que essa reforma pra gente, servidor publico, é maléfica. Não é uma reforma boa. Os beneficiários são os militares. Não teve igualdade. São várias as classes trabalhadoras se movimentando. Esse movimento é grande”, afirmou Roberto Giovani, um dos coordenadores do Sindijus-DF. Os servidores da entidade têm se mobilizado ainda de outras formas, como, por exemplo, por meio de protestos no aeroporto de Brasília, onde a entidade vem fazendo atividades de recepção dos parlamentares para intensificar o “corpo a corpo” e conquistar votos contrários à PEC.
Esquerda corre o risco de cair na armadilha neoliberal

* Por Leonardo Attuch – A aversão legítima e necessária de todos os democratas ao bolsonarismo criou uma armadilha para o campo progressista. Agora mesmo, há o risco de que a esquerda assuma o discurso neoliberal apenas porque tudo que Bolsonaro faz deve estar sempre errado. Falo do caso Petrobrás. No Twitter muitas pessoas do campo progressista, muito bem intencionadas, criticam o desastre que teria sido causado pelo Bolsonaro ao intervir na estatal e segurar o aumento do diesel. A evidência do desastre seria a queda de R$ 32 bilhões no valor de mercado da Petrobras em apenas um dia, como que se a queda das ações fosse o melhor parâmetro para avaliar a gestão de uma empresa que tem óbvia finalidade pública. Se Bolsonaro errou ao suspender o aumento, devemos concluir, portanto, que a política entreguista do Paulo Guedes e do Roberto Castello Branco está correta, certo? E aí, se Bolsonaro recuar e liberar o aumento, valorizando as ações, todos nós deveremos aplaudi-lo? O fato real é outro: a economia está afundando, com queda de 5.2% do consumo em janeiro e fevereiro. Um dos motivos é a disparada da inflação e dos preços dos combustíveis, com diminuição da renda do trabalho. Por isso mesmo, o governo suspendeu o aumento. Para Bolsonaro, que se vendeu como mito neoliberal, não há saída fácil. Se decidir atenuar a recessão, apanhará do mercado. Se seguir o modelo fracassado de Paulo Guedes, aprofundará a crise econômica. O que não faz sentido é o campo progressista assumir a defesa da política econômica de Paulo Guedes. A menos que seja uma estratégia para que Bolsonaro nos ouça, aprofunde a recessão e se torne ainda mais impopular. Leonardo Attuch é jornalista e editor-responsável pelo 247, além de colunista das revistas Istoé e Nordeste
Centrais repudiam relator da PEC da Previdência: ‘Desmantelamento’

A “nova Previdência” vai desconstruir a proteção social e jogar a velhice na miséria, afirmam sindicalistas As centrais sindicais reconhecidas formalmente divulgaram nota nesta sexta-feira (12) para reafirmar sua discordância da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 6, de “reforma” da Previdência, particularmente ao parecer do relator do texto na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara, deputado Delegado Marcelo Freitas (PSL-MG), pela aprovação. Para as centrais, o objetivo principal da proposta é “o desmantelamento da proteção social duramente conquistada pelos brasileiros, uma conquista, como reconhece o próprio governo, que ‘poucos países emergentes foram capazes de estruturar’, e que foi capaz de erradicar a pobreza entre idosos”. Em uma sessão tumultuada, na última terça-feira (9), Freitas argumentou que à CCJ cabe apenas avaliar a admissibilidade do texto – a análise do mérito caberá a uma comissão especial. O colegiado deverá votar o parecer do relator na próxima quarta-feira (17). “Esta ‘nova Previdência’ vai exatamente desconstruir a proteção social e jogar a velhice na miséria. Não temos dúvida que a retirada de direitos históricos dos trabalhadores e trabalhadoras do País é o objetivo deste governo”, afirmam as centrais. Ontem (11), os sindicalistas fizeram o lançamento do 1º de Maio deste ano, que pela primeira vez unirá todas as entidades, em um ato programado para a Praça da República, em São Paulo. Confira a íntegra do documento: Nota das centrais sindicais sobre a proposta de reforma da Previdência Tendo em vista a previsão de votação de admissibilidade da PEC 06, que trata da reforma da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça, no próximo dia 16/04, as centrais sindicais do Brasil, reafirmam a sua unidade e a total discordância com o relatório apresentado pelo relator da Comissão Especial, uma vez que ele tem como objetivo principal o desmantelamento da proteção social duramente conquistada pelos brasileiros, uma conquista, como reconhece o próprio governo, que “poucos países emergentes foram capazes de estruturar”, e que foi capaz de erradicar a pobreza entre idosos. Esta “nova Previdência” vai exatamente desconstruir a proteção social e jogar a velhice na miséria. Não temos dúvida que a retirada de direitos históricos dos trabalhadores e trabalhadoras do País é o objetivo deste governo. É inadmissível, e não podemos aceitar, que os trabalhadores e trabalhadoras tenham de trabalhar e contribuir por 40 anos para ter acesso à aposentadoria integral, que professores e professoras tenham de trabalhar até os 60 anos, que os Benefícios de Prestação Continuada (BPC) sejam reduzidos a R$ 400,00 até os 65 anos de idade, que homens e mulheres do campo tenham acesso dificultado e se aposentem com a mesma idade. É cruel a redução das pensões por morte, que atingem principalmente as famílias pobres. Estes são apenas alguns exemplos dos enormes prejuízos que essa pretensa reforma vai trazer para os trabalhadores e trabalhadoras, e também para a população carente do Brasil. Enquanto isto, grandes empresas, bancos e milionários acumulam dívidas de quase R$ 400 bilhões que não são cobradas, e o governo deixa de arrecadar quase R$ 300 bilhões em desonerações. A verdadeira intenção desta reforma é acabar com o atual Sistema Previdenciário e de Seguridade Social para entregar aos banqueiros, por meio de um sistema de capitalização privado, sem contribuição dos empregadores e do Estado, que vão administrar a poupança dos trabalhadores e trabalhadoras e lucrar bilhões com a especulação no mercado financeiro, enquanto os trabalhadores e trabalhadoras terão os valores de suas aposentadorias reduzidos e o seu acesso cada vez mais dificultado. As centrais sindicais não aceitam o regime de capitalização que, como aconteceu em outros países, vai jogar milhões na miséria. As centrais sindicais não aceitam, também, a retirada dos direitos. Nossa luta é por uma Previdência Social Pública, universal e solidária, com um piso não inferior a um salário mínimo, que amplie a proteção social e os direitos. Por isto, estamos mobilizando os trabalhadores e trabalhadoras nos locais de trabalho, nos municípios e nas comunidades, para lutarem contra esta nefasta proposta de reforma da Previdência. Estamos realizando um abaixo-assinado que vai colher milhões de assinaturas contra a reforma para ser entregue aos parlamentares. E vamos realizar um grande 1º de Maio unitário e nacional, com todas as centrais sindicais, onde deveremos anunciar as próximas etapas desta nossa luta. São Paulo, 12 de abril de 2019 Vagner Freitas, presidente da CUT – Central Única dos Trabalhadores Miguel Eduardo Torres, presidente da Força Sindical Ricardo Patah, presidente da UGT – União Geral dos Trabalhadores Adílson Araújo, presidente da CTB – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil Antonio Neto, presidente da CSB – Central dos Sindicatos Brasileiros José Calixto Ramos, presidente da Nova Central Sindical Escrito por: Redação RBA
Davi venceu Golias e vai enterrar a CPI da lava toga e o impeachment de Gilmar

PRESIDENTE DO SENADO, ALCOLUMBRE REJEITA ‘CPI DA LAVA TOGA’ O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), declarou que não pretende colocar em pauta na Casa a CPI dos Tribunais Superiores, conhecida como CPI da Lava Toga, que pretende investigar o Judiciário. “A maioria dos senadores entende que não é bom para o Brasil uma briga institucional”, afirma, em entrevista ao Estado de S.Paulo. “Não temos previsão. Isso não está na pauta. Deixa ela ficar do jeito que ela está, na CCJ”, ressalta. Na última quarta-feira 10, a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado recomendou o arquivamento do pedido de criação da CPI. O colegiado acatou o relatório do senador Rogério Carvalho (PT-SE). A decisão final será do plenário, a depender, no entanto, de Alcolumbre. Sobre a possibilidade de impeachment de ministros do STF, declarou: “nem passa pela cabeça”. “Isso que não está na pauta e nem está passando na cabeça do presidente do Senado pautar isso. Estamos vivendo um momento delicado para o Brasil. Uma briga institucional não vai fazer bem para 200 milhões de brasileiros.