TSE cassa 96 prefeitos por compra de voto, ficha suja e abuso de poder desde 2020

O cumprimento da Lei da Ficha Limpa figura como o principal motivo para a cassação, seguido pela compra de votos e o abuso de poder econômico e político A sete meses das eleições municipais, levantamento feito pelo GLOBO aponta que pelo menos 96 prefeitos eleitos em 2020 perderam seus mandatos, o equivalente a dois chefes de Executivo por mês desde que assumiram seus postos. O cumprimento da Lei da Ficha Limpa figura como o principal motivo para a cassação, seguido pela compra de votos e o abuso de poder econômico e político. O estado com o maior número de trocas é São Paulo. Já os partidos que mais perderam municípios foram o MDB e o PSDB. Para especialistas, apesar da morosidade da Justiça e os muitos recursos apresentados pelas defesas dos políticos, o número de cassações é considerado expressivo. De acordo com o levantamento, que teve como base informações divulgadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a realização de eleições suplementares, 56 prefeitos eleitos em 2020 foram enquadrados na Lei da Ficha Limpa. As irregularidades que levaram à inelegibilidade dos candidatos passaram pela rejeição de contas de governos anteriores, condenações por improbidade administrativa, danos ao Erário e penas criminais, além do uso irregular dos meios de comunicação. “Resultado expressivo” A compra de votos também desponta como uma prática enraizada nas eleições municipais. Ao menos 15 investigações resultaram em cassação. Já o abuso de poder político e econômico, como gastos de campanha que superaram o previsto pela legislação eleitoral, renderam 12 cassações. Há também entre os motivos para as condenações questões como irregularidades na prestação de contas de campanha e nos registros de candidaturas e partidos. A desincompatibilização de cargos públicos fora do prazo determinado pela legislação e os chamados grupos familiares — quando parentes diretos são eleitos e configuram um terceiro mandato consecutivo, o que é proibido — também pesaram nas decisões da Justiça Eleitoral.

A Justiça lhe espera, diz Cappelli sobre investigação de Bolsonaro

Presidente da ABDI afirmou que os acampamentos realizados por apoiadores de Bolsonaro foram autorizados e protegidos pelas Forças Armadas. O presidente da ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), Ricardo Cappelli, disse que o general Freire Gomes disse o “óbvio” em seu depoimento à PF (Polícia Federal) na última 6ª feira (1º.mar.2024). Em publicação em seu perfil no X, Cappelli, que já foi secretário-executivo do Ministério da Justiça e Segurança Pública, afirmou que os acampamentos realizados por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foram autorizados e protegidos pelas Forças Armadas. “Faça um teste. Tente montar uma barraca na frente de um QG do Exército. Você não dura 5 minutos. O general Freire Gomes revelou o óbvio: os acampamentos golpistas foram autorizados e protegidos pelo então comandante supremo das Forças Armadas: Jair Bolsonaro. A justiça lhe espera”, escreveu. O depoimento de Freire Gomes está mantido sob sigilo. Segundo relatório da PF, o general Freire Gomes e o comandante da FAB (Força Aérea Brasileira), o brigadeiro Baptista Junior, teriam resistido à ideia de golpe de Estado. Contudo, no documento, a corporação diz ser necessário avançar nas investigações para apurar uma possível conduta omissiva dos militares. Em conversas obtidas pela PF, Walter Souza Braga Netto, candidato a vice na chapa de Bolsonaro, chamou Freire Gomes de “cagão” ao saber que ele não aceitou participar do suposto plano de golpe de Estado.

Bolsonaristas pagaram para impulsionar denúncias falsas sobre Marajó

Políticos bolsonaristas pagaram para impulsionar postagens com denúncias falsas sobre um suposto esquema de exploração infantil no Arquipélago do Marajó (PA). O tema viralizou nas redes depois da apresentação da cantora Aymeê Rocha, que denunciou abusos contra crianças na região em um reality show gospel, no dia 15 de fevereiro. Famosos e influenciadores passaram a compartilhar o vídeo da apresentação e conteúdos falsos ou , que trazem desinformação sobre a região. Ilha de Marajó se tornou o assunto mais pesquisado no Google no Brasil em 21 de fevereiro. Segundo a Agência Pública apurou, a partir do dia 24 de fevereiro, políticos bolsonaristas patrocinaram postagens repercutindo as denúncias no Instagram e no Facebook. Ao menos seis políticos investiram até R$ 100 para alavancar esses conteúdos: os deputados federais Luciano Galego (PL), do Maranhão, e Maurício Neves (PP), de São Paulo, o deputado estadual do Pará e ex-superintendente regional do Incra Coronel Neil (PL), a vereadora de Navegantes (SC) Lú Bittencourt (PL), os vereadores de São Paulo Reinaldo Digilio (PRB) e Lucas Ferreira (sem partido). Ao todo, as publicações renderam quase 80 mil impressões, que é a quantidade de vezes que o anúncio apareceu para usuários do Facebook e Instagram. A postagem que mais teve impressões foi a do deputado estadual Coronel Neil (PL). A propaganda circulou de 24 a 26 de fevereiro, rendendo aproximadamente 10 mil impressões. De acordo com uma pesquisa do NetLab/UFRJ, o deputado estadual também impulsionou anúncios para convocar caravanas para ato pró-Bolsonaro na avenida Paulista, no último domingo (25). Na publicação sobre o Marajó, o Coronel Neil aproveita a apresentação da cantora gospel para falar da sua atuação na região. O vídeo usa várias fotos dele ao lado da senadora e ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos Damares Alves. A vereadora Lú Bittencourt conseguiu aproximadamente 8 mil impressões no post patrocinado, em que reproduz o vídeo da apresentação de Aymeê Rocha. O conteúdo começou a circular no dia 26 de fevereiro e foi direcionado a moradores de Santa Catarina. A vereadora também fez outras postagens sobre as supostas denúncias de exploração infantil no Marajó. No dia 27 de fevereiro, ela postou novamente o vídeo da apresentação. As duas postagens semelhantes patrocinadas pelo vereador Lucas Ferreira mobilizam apoio para o Instituto Akachi, que ganhou fama ao mobilizar uma campanha de arrecadação de doações para combater a exploração infantil no Marajó. Os conteúdos circularam a partir de 23 de fevereiro, conquistando cerca de 10 mil impressões. O Akachi informa, em sua página na internet, que trabalha com crianças vítimas de violência. O instituto tem sido indicado por influenciadores e políticos – como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) – para receber doações para o Marajó via Pix. Em nenhuma das divulgações, porém, fica claro que a organização pertence a uma corrente evangélica e tem como um dos donos um pastor e ex-candidato bolsonarista. Henrique Krigner é um dos sócios do Akachi e diretor da ONG, que tem sede em Pariquera-Açu, em São Paulo. Ele é uma das principais lideranças da igreja evangélica Zion Church e do Dunamis Movement, que promove cursos, eventos e ações voltadas a disseminar a fé principalmente entre jovens. Krigner é um dos organizadores do The Send Brasil, um dos principais eventos de música gospel do país, que recebeu críticas por fazer doutrinação política de jovens evangélicos e teve a presença do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2020. Krigner foi candidato a vereador de São Paulo em 2020 pelo Partido Progressista (PP), da base do ex-presidente. Recebeu mais de 16 mil votos, mas não se elegeu. “Bolsonarista convicto, ele não diz em suas redes sociais se concorrerá novamente nas eleições deste ano, mas comentários em suas postagens parecem já estar em clima de torcida”, diz um deles, na semana passada. Em 2020, apesar de ser um estreante na política, ele foi um dos candidatos que mais receberam doações – mais de R$ 920 mil, sendo R$ 650 mil de seu partido. O restante do dinheiro para a candidatura do político veio, em boa parte, de grandes empresários, como o ex-secretário de Desestatização do governo Bolsonaro e dono da Localiza, Salim Mattar, e o bilionário Hélio Seibel, um dos donos da gigante de insumos para marcenaria Leo Madeiras e um dos maiores acionistas da Dexco (Deca e Duratex). Outro doador é o fundador da Zion e Dunamis, o pastor Teo Hayashi, que doou R$ 15 mil ao colega de igreja. Krigner gastou quase tudo o que recebeu na campanha. A quinta maior despesa que teve, no entanto, foi com a Big Wave Media, uma produtora de vídeos da qual também é sócio. Em 2018, ele foi um dos representantes da Zion Church em uma sessão solene na Assembleia Legislativa de São Paulo que homenageou Sarah Hayashi, fundadora da igreja. O evento foi presidido pelo então deputado e hoje prefeito de Americana Chico Sardelli, também aliado de Bolsonaro. Em 2022, Sarah Hayashi recebeu a Medalha da Ordem do Mérito Princesa Isabel, uma honraria criada pelo governo Bolsonaro, das mãos de Damares Alves, ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos. Em 2022, o líder da Zion Teo Hayashi estava ao lado de Silas Malafaia e outros pastores pop em um vídeo para declarar apoio a Bolsonaro no início da sua campanha à reeleição. A Pública entrou em contato com os políticos que impulsionam conteúdos relacionados às denúncias sobre o Marajó, mas não recebeu resposta até a publicação. Krigner e Akachi não responderam até a publicação. A igreja Zion, o Marajó e Damares Um dos representantes da Zion, o pastor Lucas Hayashi, já publicou um vídeo, em 2019, sobrevoando o Marajó supostamente a convite de Damares. “Representando a sociedade civil por meio da Zion Church e do Dunamis Movement, fomos até a Ilha do Marajó, lá no Pará, com o objetivo de analisar as demandas da saúde, educação e assim contribuir com o Governo Federal, juntamente com o Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos e a ministra Damares Alves, e com o programa Abrace Marajó”, disse. Damares Alves

Somente 20% das mulheres brasileiras conhecem bem a Lei Maria da Penha

É o que mostra Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher Apenas duas em cada dez mulheres se sentem bem informadas em relação à Lei Maria da Penha, que criou mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher e foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006. Os dados fazem parte da 10ª edição da Pesquisa Nacional de Violência Contra a Mulher, realizada pelo Observatório da Mulher Contra a Violência (OMV) e o Instituto DataSenado, ambos do Senado. A sondagem é bianual e foi divulgada nesta quarta-feira (28) em Brasília. Ela envolveu entrevistas por telefone com 21.787 mulheres de 16 anos ou mais entre os dias 21 de agosto a 25 de setembro do ano passado. Esta é primeira edição do levantamento que traz dados por estado. O estudo atualiza, também pela primeira vez, o Mapa Nacional da Violência de Gênero, projeto viabilizado pelo OMV, o Instituto Avon e a organização Gênero e Número, que cobre questões de gênero e raça no Brasil e na América Latina desde 2016. Na avaliação de Beatriz Accioly, coordenadora de Parcerias do Instituto Avon, o que chama bastante a atenção na pesquisa é que a Lei Maria da Penha é conhecida pela população brasileira de maneira geral, mas quando se pergunta o quanto as pessoas sabem da lei, sobretudo as mulheres, percebe-se que o conhecimento ainda é muito pequeno. “É quase de ouvir falar. Não dá segurança de saber exatamente o que a lei garante em termos de direitos e o que ela muda de fato”, disse Beatriz à Agência Brasil. Ela explicou que a pesquisa alerta para a necessidade de entender não só o que as pessoas já ouviram falar sobre a lei, mas o quanto elas conhecem nos detalhes, o quanto esse conhecimento têm a ver com os seus próprios direitos. De acordo com o estudo, mesmo nas localidades onde há maior conhecimento entre a população feminina sobre a Maria da Penha, o índice é muito baixo, passando pouco de 30%. É o caso do Distrito Federal (33%), Paraná (29%) e Rio Grande do Sul (29%). “O conhecimento está muito longe de ser o ideal”, afirmou Beatriz. As mulheres das regiões Norte e Nordeste são as que afirmam conhecer menos a Lei Maria da Penha, principalmente no Amazonas (74%), Pará (74%), Maranhão (72%), Piauí (72%), em Roraima (71%) e no Ceará (71%). Diagnóstico Para a coordenadora de Parcerias do Instituto Avon, o diagnóstico mostra que ainda não se conversa tanto sobre a lei quanto é necessário. “É preciso furar a bolha”. O objetivo é aumentar a parcela da população com conhecimento sobre a legislação. Isso pode ser feito a partir da construção de medidas educativas e de conscientização sobre leis, recursos e políticas públicas voltadas para o enfrentamento à violência de gênero, afirma Daniela Grelin, diretora executiva do Instituto Avon. Para ela, o maior conhecimento é fundamental para que as mulheres brasileiras possam reivindicar seus direitos, além de interromper ciclos de abusos e agressões. A coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência, do Senado, Maria Teresa Prado, destaca que a pesquisa constitui ferramenta que pode auxiliar os legisladores na criação de leis, políticas públicas e programas que funcionem de fato e que sejam mais adequados às especificidades de cada estado. Segundo Beatriz Accioly, todos os senadores e senadoras vão receber um relatório específico de seu estado, com diagnóstico do território. “É necessário que a gente alerte os parlamentares para o fato de que esse problema de violência familiar contra a mulher é um dos mais graves. É preciso que eles conheçam a realidade de seus estados e possam cobrar das autoridades locais mudanças de atuação para reverter a situação”. A presidente e diretora de conteúdo da Gênero e Número, Vitória Régia da Silva, lembrou que a dificuldade em reconhecer situações de violência e a falta de conhecimento dos próprios direitos podem impedir que as vítimas tenham acesso aos serviços da rede de proteção. Por isso, é preciso mudar esse cenário. Índice Em relação ao grau de conhecimento sobre os serviços que integram a rede de proteção à mulher, há equilíbrio entre as unidades federativas brasileiras. A delegacia da mulher é o serviço mais conhecido entre elas (95%), enquanto a Casa da Mulher Brasileira, por sua vez, é conhecida por somente 38% das entrevistadas. A pesquisa identificou também que o índice nacional de mulheres que declaram ter solicitado medidas protetivas para a sua segurança é de 27%, à exceção do Rio Grande do Sul, onde 41% das mulheres que sofreram violência com base no gênero solicitaram medidas protetivas. Beatriz Accioly avaliou, entretanto, que embora o Rio Grande do Sul, junto com Paraná e o Distrito Federal, sejam os locais onde o grau de conhecimento das mulheres sobre a Lei Maria da Penha é “menos pior” no Brasil, ainda há muito a avançar. “Esses dados mostram que as pessoas sabem que a lei existe. Mas elas precisam conhecer os seus instrumentos, as suas ferramentas, como utilizar a lei e transformá-la em direito difuso”, disse Beatriz. Mapa Lançado em novembro de 2023, o Mapa Nacional da Violência de Gênero é uma plataforma interativa que reúne os principais dados nacionais públicos e indicadores de violência contra as mulheres, incluindo a Pesquisa Nacional de Violência contra as Mulheres, mais longa série de estudos sobre o tema no país. Legislação A Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006, tornou mais rigorosas as penas contra crimes de violência doméstica. O nome da lei é uma homenagem a Maria da Penha Maia, farmacêutica e bioquímica cearense que sofreu diversas tentativas de homicídio por parte do marido. Em maio de 1983, ele deu um tiro em Maria da Penha, que ficou paraplégica. Após aguardar a decisão da Justiça por 15 anos e sem resultado, ela entrou com uma ação contra o país na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Esse foi o primeiro relato sobre violência doméstica feito ao órgão na América Latina. Em 2001, o Estado

Golpe foi diretriz institucional das cúpulas das Forças Armadas

As provas coletadas nas investigações da Polícia Federal fornecem informações importantes para a reconstituição do plano golpista. E confirmam o envolvimento institucional das Forças Armadas com o golpe. Por Jeferson Miola, em seu blog São fartas as evidências de que não ocorreram apenas atitudes isoladas de alguns indivíduos fardados, porque foi um empreendimento arquitetado e cadenciado na hierarquia militar. O golpe era o trampolim para a longevidade do projeto de poder militar. Após a vitória do Lula na eleição de 30 de outubro, o comando golpista incorporou um forte “dispositivo popular” – os acampamentos nas áreas dos quartéis com extremistas de direita, militares da ativa, da reserva, fundamentalistas religiosos e integrantes da família militar. O comunicado de 11 de novembro de 2022 “Às Instituições e ao Povo Brasileiro”, no qual os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica contrariaram ordens judiciais, afrontaram o STF e defenderam a permanência dos acampamentos, traduziu a coesão e a unidade institucional dos comandantes militares. Divulgado 11 dias após a eleição, o provocativo comunicado assinado pelo general Freire Gomes, pelo brigadeiro Batista Júnior e almirante Garnier Santos definiu os acampamentos como “manifestações populares” de pessoas que defendem “demandas legais e legítimas da população”. Financiados por empresários e apoiadores, e com infraestrutura assegurada das próprias áreas militares, os acampamentos foram considerados ilegais e criminosos por ministros do STF. O acampamento do Quartel-General do Exército funcionava como logística estratégica de/para ações terroristas e golpistas. Isso ficou evidente nos atos terroristas de 12 e 24 de dezembro de 2022 em Brasília e nos atentados de 8 de janeiro de 2023. Evento importante na cronologia dos acontecimentos foi a decisão do então comandante do Exército, general Freire Gomes, que hoje se diz legalista e herói da democracia, mas que no dia 29 de dezembro de 2022 impediu o desmonte do acampamento golpista no QG do Exército. Hordas saíram do QG para aterrorizar a capital federal no dia da diplomação de Lula e Alckmin [12/12] e, semanas depois, para vandalizar as sedes dos poderes da República no 8 de janeiro. Pretendiam, com isso, justificar a convocação de operações GLO e de medidas de exceção, como concebido na minuta de golpe. A repercussão da vitória do Lula no país e no exterior, ao lado da oposição do governo Biden ao golpe quebrou o consenso golpista –ou arrefeceu a posição golpista majoritária– na caserna, comprometendo a unidade de ação e a coesão das cúpulas militares. Apesar disso, a articulação golpista não se encerrou. A expectativa de concretização do golpe ainda com Bolsonaro na Presidência durou pelo menos até o dia 27 de dezembro de 2022, quando faltavam apenas quatro dias para o fim oficial do governo. Prova disso é o intercâmbio de mensagens do general Braga Netto, candidato a vice na chapa militar, com o capitão Sérgio Rocha Cordeiro, então integrante da equipe de segurança do Bolsonaro, que queria conseguir um cargo no governo para uma pessoa. Braga Netto então respondeu: “Cordeiro, se continuarmos, poderia enviar para a Sec. Geral. Fora isso vai ser foda” [grifo meu]. Este diálogo surreal, em que um general 4 estrelas do Exército ainda tinha alguma expectativa de continuidade do Bolsonaro no poder apesar do resultado da eleição, o que somente seria possível com uma ruptura institucional, aconteceu 15 dias depois da diplomação de Lula e Alckmin pelo TSE e a apenas quatro dias do término do governo. Antes da posse do presidente Lula, os comandantes das três Forças deram outra demonstração cabal de insubordinação institucional ao se recusarem permanecer nos respectivos comandos até a transmissão do cargo no novo governo. Recusaram-se bater continência para Lula, pois não aceitaram o resultado da eleição e não o reconheceram como o eleito soberanamente comandante supremo das Forças Armadas. Neste contexto de evidências significativas do envolvimento institucional dos altos comandos militares com o golpe, é pouco fiável a hipótese de que a conspiração foi atitude isolada de alguns oficiais. No depoimento à PF [29/2], o general Estevam Theóphilo disse que se reuniu com Bolsonaro em 9 de dezembro de 2022 para tratar do golpe a pedido do general Freire Gomes. Ao invocar obediência à hierarquia para protagonizar um ato criminoso, o general Theóphilo arrastou para a cena do crime a instituição militar, confirmando que o golpe foi, de fato, uma diretriz institucional das cúpulas das Forças Armadas. O avanço das investigações da PF, inclusive com a análise do conteúdo do celular do general Lorena Cid, pai do tenente-coronel Mauro Cid, pode revelar outras camadas do plano golpista e alcançar também aqueles oficiais do Alto Comando que continuam incólumes, além da própria institucionalidade militar. Há uma mensagem implícita no depoimento do general Theóphilo, com um claro recado à cúpula: ou salvam-se todos os golpistas fardados, ou caem todos em desgraça. A bandeira da anistia, lançada por Bolsonaro no ato da avenida Paulista em 25 de fevereiro, poderá ser usada como tábua de salvação das cúpulas militares. Se isso acontecer, estará instalado o impasse no país.

Saiba quem são os empresários presos pela PF por suspeita de ligação com os atos golpistas

Um dos empresários é suspeito de ter transferido dinheiro para contas bancárias de pessoas diretamente ligadas às manifestações terroristas Os empresários Joveci Xavier de Andrade e Adauto Lúcio Mesquita foram presos pela Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira, 29, durante a Operação Lesa Pátria. Os relatos foram publicados na Carta Capital. Nascido em Brasília (DF), Andrade é um dos sócios da empresa Melhor Atacadista. A rede de mercados teria sido usada para o fornecimento de material para os acampamentos bolsonaristas. Em abril do ano passado, Joveci prestou depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Outro sócio na Melhor Atacadista, Mesquita é suspeito de ter transferido dinheiro para contas bancárias de pessoas diretamente ligadas aos atos golpistas. Policiais federais investigam se ele teria bancado parte do transporte para a Esplanada dos Ministérios Outro lado Em nota, a assessoria do grupo Melhor Atacadista informou que “é contra o vandalismo e a intolerância política, e acredita que a democracia é feita com pensamentos diferentes, mas jamais violência”. O grupo disse que não teve acesso à decisão judicial, mas que “desde o início, houve esforços para esclarecer todos os fatos”. “A realização de apurações pelo Estado é considerada válida, e os investigados veem agora a oportunidade de elucidar completamente as questões em aberto”.

Bolsonaro sai fortalecido espiritualmente da Paulista, até para ser preso

“Faltaram vigor político e uma palavra de ordem na aglomeração da extrema direita”, escreve o colunista Moisés Mendes Duas conclusões elementares sobre a aglomeração golpista e religiosa em São Paulo. Bolsonaro se fortaleceu espiritualmente para enfrentar a prisão. E líderes que pareciam vacilantes se habilitaram como herdeiros do espólio do sujeito. O resto vale pouco. Vale quase nada, por exemplo, a especulação de que a manifestação, com público muito aquém do esperado, possa ter o poder de provocar reações radicais se Bolsonaro for preso. Que tipo de reação? Um levante? Badernas? Mais uma invasão de Brasília? A “destruição” dos que prenderem Bolsonaro, como blefou Silas Malaia no discurso com ataques a Alexandre de Moraes? Uma revolta com o apoio de Braga Netto e Augusto Heleno, que já contam com celas em reforma à espera do tenente e dos generais no QG do Exército em Brasília? A disseminação do terror nas cidades por grupos de CACs e milicianos? Alguém imagina que, a partir da demonstração de força da fé na Paulista, seja possível ver Eduardo Bolsonaro rearticulando a extrema direita, mesmo sabendo que ele preferiu, ao invés de apoiar o pai em São Paulo, participar de um evento do fascismo em Washington? Imaginam uma cruzada religiosa liderada por Malafaia? A aglomeração teve algumas utilidades, mas nenhuma com promessa de efeitos drásticos. Uma utilidade é a definição dos políticos que vão disputar a herança deixada por Bolsonaro. Correram riscos e mostraram a cara Tarcísio de Freitas (com um discurso frouxo) e Romeu Zema e, num segundo time, Jorginho Mello e Ronaldo Caiado. Estão com alvará para levar o bolsonarismo adiante. E Bolsonaro passa a ser um santinho do pau oco. Os pretendentes ao que ele deixa para 2026 estiveram no trio na avenida como crocodilos dentro de um tanque, no qual entraram querendo ou meio sem querer (alguns foram empurrados) e do qual não conseguirão sair A briga agora é pela herança de Bolsonaro, porque o inelegível não tem mais poder militar, não tem Paulo Guedes, Augusto Aras, Mauro Cid, Anderson Torres, não pode comprar o centrão e, depois da eleição municipal, talvez nem Valdemar Costa Neto e partido tenha mais. Bolsonaro é uma entidade gasosa, quase um espírito da extrema direita, e essa passa a ser a sua função. Os que foram à Paulista e subiram no trio elétrico não estavam pensando em salvá-lo, mas em mostrar fidelidade ao santo e em fidelizar a base que ele deixa. Comprovou-se no domingo, como era esperado, que o eleitorado mais ativo de Bolsonaro saiu da viuvez, um ano depois de dois fracassos, na eleição e no golpe. O lastro de direita continua ativo e vivo, mais vivo do que o próprio Bolsonaro. Nesse cenário, saem os militares, como força capaz de inspirar e mobilizar golpistas e acolher manés e terroristas em quartéis, e entram os líderes espirituais. Sai Braga Netto e começa o protagonismo da era Malafaia e Michelle. A guerra santa agora é de novo a dos costumes contra os demônios, e não a da possiblidade já sepultada de um golpe com suporte militar. Prevalecem a pregação moralista e anticomunista e os ataques ao Supremo, com ameaças de amordaçamento do Judiciário por deliberações do Congresso. Bolsonaro saiu da Paulista certo de que mantém em alerta grupos que vão lutar pelo que defende nas redes sociais, nas igrejas e nas eleições municipais. Mas é claro que ele esperava mais gente e também um grito de guerra por parte dos oradores, que não aconteceu. Nem ele mesmo se preparou, por mediocridade, para oferecer o que poderia ser uma palavra de ordem. Agora, é manter as engrenagens de líderes regionais e de tios e tias do zap, as rezadoras que seguem Michelle e os chefes paroquiais de direita que se transformaram em extremistas irreversíveis. A fé é o sentimento que fica da aglomeração, que não transmitiu o vigor político esperado, mas cumpriu a tarefa de pelo menos expressar proteção espiritual ao líder. Não há como imaginar que os efeitos da Paulista, em que todos os oradores deram um tom bíblico aos discursos, possam impedir que as investigações sigam em frente, possivelmente com novas informações devastadoras. E que em algum momento Bolsonaro seja denunciado, processado, julgado, condenado e preso, mas com o Deus de Michelle e Malafaia no coração. Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

Ministro condena disseminação de fake news sobre a Ilha de Marajó, no Pará

Silvio Almeida criticou a associação de mazelas nacionais com o modo de vida de uma população, especialmente envolvendo crianças. O ministro dos Direitos Humanos e Cidadania, Silvio Almeida, expressou sua indignação diante da divulgação de informações falsas sobre a população da Ilha de Marajó, no Pará. Durante entrevista, nesta sexta-feira (23), Almeida condenou veementemente essa prática, destacando que tais alegações são irresponsáveis e prejudiciais à imagem das pessoas que vivem na região. A exploração sexual infantil na Ilha do Marajó, no Pará, voltou ao debate, tematizada por uma canção evangélica viralizar na internet ao citar supostas violações de direitos humanos na comunidade, especialmente envolvendo exploração sexual de crianças e tráfico de órgãos. O alerta veio acompanhado do sensacionalismo de que na região isso é considerado normal — o que é repudiado por organizações que atuam no Marajó. O Ministério Público Federal desmentiu que haja tráfico de órgãos na região. O Ministério divulgou nota em que alerta para divulgação e compartilhamento da desinformação sobre cancelamento de ações e projetos do governo federal na Ilha do Marajó, no Pará. De acordo com a pasta, em maio de 2023, foi criado o Programa Cidadania Marajó, com recursos para o combate à violência de crianças e adolescentes e promoção de direitos humanos e acesso a políticas públicas. “É preciso inverter lógica assistencialista e modos de vida da população do Marajó. Possuímos o compromisso de não associar imagens de vulnerabilidade socioeconômica ou do próprio modo de vida das populações do Marajó, em especial, crianças e adolescentes, ao contexto de exploração sexual”, diz nota do ministério. O local vem recebendo, desde o ano passado, o programa Cidadania Marajó, que disponibiliza recursos para ações de combate à violência contra crianças e adolescentes. No entanto, Almeida lamentou que a iniciativa esteja sendo alvo de desinformação, muitas vezes disseminada por influenciadores nas redes sociais, mesmo que de boa fé. “Não podemos associar a imagem de pessoas que sofrem com problemas históricos, responsabilidade do Brasil, com o modo de vida dessas populações. Temos que reconhecer a riqueza cultural e social dessas comunidades, em especial quando se trata de crianças, ao invés de retratá-las de forma redutora, como se suas vidas se limitassem à exploração sexual”, enfatizou o ministro. Almeida também repudiou a tentativa de oportunistas que, segundo ele, nunca contribuíram efetivamente para o bem-estar do povo de Marajó, mas que utilizam a imagem das crianças e adolescentes da região para promover seus próprios interesses. Um discurso da ex-ministra Damares Alves (Republicanos) de 2022, sobre supostas práticas de tortura e mutilação de crianças para abuso sexual no Marajó, também voltou a tona. Na época, ela alegou possuir evidências, mas os casos nunca foram comprovados. Tempos depois, Damares declarou ao MPF que as denúncias se baseavam apenas em relatos, não em provas. “Rejeito veementemente essas tentativas de aproveitadores que buscam se beneficiar da situação, sem realmente se comprometerem com a melhoria das condições de vida das comunidades locais. É uma prática condenável e que deve ser combatida com veemência”, declarou Almeida. O ministro enfatizou a importância do compromisso e da responsabilidade na divulgação de informações, especialmente quando se trata de questões sensíveis que envolvem a dignidade e os direitos humanos das pessoas. Ele destacou que o governo está empenhado em promover políticas públicas eficazes que beneficiem as comunidades da Ilha de Marajó e de todo o país, combatendo a desigualdade e a violência de forma efetiva e responsável.

“Carnagado”: manifestação bolsonarista vira piada nas redes

Redes reagem à mobilização de extrema direita coordenada por Malafaia e Bolsonaro Neste domingo (25), a extrema direita brasileira estará em reunião para defender Jair Bolsonaro, investigado como líder de uma tentativa de golpe de estado e de uma organização criminosa. A manifestação na Paulista ganhou um apelido especial nas redes sociais: virou o ‘Carnagado’. Duas semanas depois do Carnaval, a trupe bolsonarista tenta realizar uma demonstração de força ao ex-presidente. Bolsonaro, que está prestes a ser preso após as revelações da Operação Tempus Veritatis, tenta, ao lado do Pastor Silas Malafaia, desestabilizar a democracia e faz um teste para medir a temperatura de apoio de sua base mais radical na Paulista neste domingo. Contudo, a previsão de chuva e a incapacidade de unir sua própria base em torno da manifestação faz com que o “Carnagado” vire piada antes mesmo de sua realização. Veja os memes nas redes: MUITO TRISTE: a previsão do tempo para o ato golpista amanhã na Avenida Paulista é de MUITA CHUVA! Se formos olhar pelo lado positivo, ao menos na cadeia não tem chuva! Dali eles poderão sair para um ambiente bem quentinho e aconchegante! LULA TEM RAZÃO#CarnaGado pic.twitter.com/wTUDhE0MlN — Vinicios Betiol (@vinicios_betiol) February 24, 2024 https://twitter.com/vinicios_betiol/status/1761425484003307798/photo/1?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E1761425484003307798%7Ctwgr%5E29852bf5ec1f8ab74dcaa79603f827573e7421c4%7Ctwcon%5Es1_&ref_url=https%3A%2F%2Fd-81495203895445740.ampproject.net%2F2402080818000%2Fframe.html ????CARNAGADO???? O carnaval terminou, mas a folia continua. Carnagado na Paulista. Vídeo motivacional ???? pic.twitter.com/VfPMhjph3q — ???? Bruno ???? (@Brunocomunika) February 18, 2024 Bolsonaro faz o último pronunciamento para o CARNAGADO do dia 25. pic.twitter.com/2lNh3mPQDp — Lázaro Rosa ???????? (@lazarorosa25) February 24, 2024 CarnaGado ou Gadociata?Vai chover ???????????????? pic.twitter.com/Wf6EVdMrO8 — Distopia Brazil (@DistopiaBrazil) February 24, 2024 Três Poderes: Derrite é o vencedor da semana e Lula, o perdedorhttps://t.co/y4dfCf3bRR — Folha de S.Paulo (@folha) February 24, 2024  

Lula e a paz aos palestinos – Por Wagner Rocha*

As reações contra o corajoso posicionamento de Lula ao condenar o massacre na Palestina provém, em sua maioria, de pessoas que desprezam a paz e estão ao lado dos que promovem a guerra a qualquer custo, extremistas de direita, admiradores de monstros como Hitler e Mussolini, propagadores da cultura do ódio e da intolerância. Essas pessoas carregam uma identidade. Não se trata de seres abstratos. Não são personagens de narrativas ficcionais. Elas são reais, concretas, e atuam diuturnamente motivadas pelo instinto de dominação, escravização e aniquilamento das diferenças. Elas sabem que em sua fala Lula não minimizou os efeitos catastróficos sofridos pelos judeus durante o holocausto, as torturas, os assassinatos… Sabem que em toda a sua trajetória Lula sempre agiu pautado por uma ética humanista e solidária. E é justamente por isso que lhe perseguem. Se Lula fosse um ditador, um defensor dos carrascos e poderosos sem escrúpulos, com certeza, seria aplaudido pelos inimigos da paz. Se Lula tivesse a estupidez como norteadora dos seus atos políticos já teria sido ovacionado pelos malfeitores espalhados por diversas partes do mundo. Mas não. Lula tem a coragem de se manifestar bravamente contra a morte e o sofrimento extremo imposto ao povo palestino e não se curva diante das ameaças e dos frequentes ataques à sua atuação em defesa da democracia e dos direitos humanos. Mesmo quando foi preso injustamente por aqueles que alçaram ao poder um representante inequívoco do fascismo, Lula não se acovardou. Através das suas palavras a favor da paz na Palestina, Lula disse ao mundo uma verdade incontestável: é necessário acabar com as ações violentas e assassinas que têm vitimado mais de trinta mil inocentes, ceifado vidas, destruído sonhos e esperanças. O seu protesto tem como alvo o governo sionista de Israel, responsável por todo esse genocídio produzido pela atuação militar na Faixa de Gaza, e não o povo judeu. Diante disso, o aspecto que deve ser considerado é a essência da mensagem de Lula, ou seja, a força expressiva do seu clamor pela piedade dos terroristas do Hamas. É este o ponto central do seu discurso. Trata-se de uma súplica dirigida aos algozes para que esses se conscientizem quanto ao número alarmante de mulheres, crianças, pessoas jovens e idosas que estão sendo devastadas pelos bombardeios, mortas a sangue frio, e as tantas que se encontram gravemente feridas e desamparadas. A fala de Lula, em hipótese alguma, não pode ser distorcida por aqueles que legitimam o massacre. O que tentam, de maneira leviana e afrontosa, é desviar o foco da sua questão principal: o genocídio precisa parar. * Wagner Rocha é poeta e professor da Unimontes.